Kung Fu Panda
"Eu fui desenhado assim, mas represento
o perfil do espectador moderno de cinema"
Há alguns anos, eu conversei com um amigo sobre as animações da Dreamworks e ele disparou uma teoria que considero brilhante: o estúdio só faz desenho sobre malandros. Foi assim em Shrek, Madagascar, O Espanta Tubarões e, agora, em Kung Fu Panda (Kung Fu Panda, 2008).
Talvez Bee Movie fique de fora, mas aquele foi um projeto de Jerry Seinfeld. Geralmente, o foco de uma animação da Dreamworks está sempre no protagonista desleixado e preguiçoso. Até o final, ele prova ter coragem e coração. É sempre assim. A trama de cada produção também existe em função de grandes sucessos do cinema com citações ora inteligentes, ora gratuitas. Porém, Shrek foi o único que realmente apresentou um universo capaz de render uma franquia. Goste ou não, Shrek é um ícone da cultura pop. As outras animações da Dreamworks são divertidas, mas terminam facilmente esquecidas pelo público apenas algumas horas após o fim da sessão. Com Kung Fu Panda é a mesma coisa.
A bola da vez está nos filmes de artes marciais. A trama mantém a atenção da garotada (e dos adultos) por cerca de uma hora e meia com personagens divertidos, lutas caprichadas e demoradas. Para quem pensa que um filme começa na divulgação de seu trailer, um aviso: Kung Fu Panda não é imbecil como Madagascar (digo "imbecil" no bom sentido do humor). A comédia está lá, mas a ação predomina. É pancadaria total. Kung Fu Panda é mais para meninos do que meninas.
Por isso, não entendo o motivo que leva o estúdio a desenhar seus personagens como bichinhos. Por que colocar um panda fofinho como protagonista? É claro que a resposta reside no ponto de vista comercial, mas imagine só como seriam os heróis de Os Incríveis, da Pixar, nas mãos da Dreamworks... Pois é. O Sr. Incrível me sairia como um hipópotamo falante, por exemplo. Quero dizer que não há razão para colocar bichinhos neste filme. Cada guerreiro descrito no roteiro de Kung Fu Panda poderia ganhar traços de seres humanos. Talvez eu esteja pedindo demais, afinal é um produto para crianças. Mas comparando com as animações da Pixar, há razões de sobra para vermos um rato numa cozinha de Paris ou um robô numa missão nas estrelas em, respectivamente, Ratatouille e WALL-E.
Bom, mas ninguém sairá do cinema dizendo que Kung Fu Panda é ruim. Pelo contrário - é muito bem feito, divertido, rápido e faz qualquer um sair cantarolando Kung Fu Fighting. Mas é como fast food ou outro produto direcionado para quem está com pressa e não quer pensar muito. Esse é o nosso mundo atual e não adianta reclamar, pois enquanto houver consumidor, assim será.
Kung Fu Panda é só um exemplo de como Hollywood vê o público moderno, que sai do conforto de suas casas rumo aos cinemas: consumidores que não querem muito esforço. Nem mesmo na hora de colocar o cérebro para trabalhar. Para os engravatados dos estúdios, somos todos Kung Fu Pandas preguiçosos e desleixados, mas cheios de potencial. É blockbuster o ano inteiro, mas na época das premiações, eles querem que a gente pense um pouquinho. Me engana que eu gosto.
Kung Fu Panda (Kung Fu Panda, 2008)
Direção: Mark Osborne e John Stevenson
Roteiro: Jonathan Aibel e Glenn Berger
Com as vozes de Jack Black, Dustin Hoffman, Angelina Jolie, Ian McShane, Jackie Chan, Seth Rogen e Lucy Liu






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