janeiro 24th, 2007

Filhos da Esperança

Após fazer o melhor filme da série Harry Potter, o mexicano Alfonso Cuarón prova (para quem ainda não sabia) ser um grande diretor em Filhos da Esperança (Children of Men, 2006). Estou falando do ofício mesmo – alguém em plena forma por trás das câmeras com total controle narrativo e criativo ao deixar sua história ser contada, praticamente, com imagens.

Particularmente, ainda estou me perguntando como ele conseguiu filmar aqueles dois planos seqüência da perseguição ao carro e o tiroteio no final. Por quantas vezes ele filmou essas cenas? Na verdade, não são apenas dois momentos sem cortes. Filhos da Esperança abre com uma seqüência ininterrupta (até o título do filme surgir na tela) com Cuarón nos situando no “onde”, “quando” e “porquê”. O ex-ativista Theo (Clive Owen) entra em uma cafeteria como quem não quer nada, pega seu café e sai. Ao contrário do protagonista, todos dentro do estabelecimento acompanham a notícia da morte de Diego, a pessoa mais jovem da Terra. O ano é 2027 e as mulheres perderam a fertilidade. A vida no planeta está ameaçada, o caos impera e a única pessoa que dava esperança ao mundo acabou de ser assassinada. Sabemos disso tudo ali e Theo caminha pela calçada até ser surpreendido pela explosão da cafeteria. Isso está no livro de P.D. James ou Cuarón bebeu na fonte de Orson Welles e sua abertura para o clássico A Marca da Maldade? Ao menos, cinematograficamente, ele deve ser fã (como muitos) daquele plano seqüência que abre o filmaço do diretor de Cidadão Kane.

Outro ponto interessante é a composição de Theo. Clive Owen encarna um herói traumatizado e sem razão para viver. Há uma luz no fim do túnel para o protagonista (e a Humanidade), quando ele conhece Kee (Claire-Hope Ashitey), uma menina que se apresenta como a primeira grávida em quase duas décadas. Theo precisa protegê-la até encontrar os integrantes de um tal “Projeto Humano”, que garantiria segurança para a menina e o bebê.

Além da perfeição técnica (especialmente a fotografia de Emmanuel Lubezki), o filme provoca uma sensação visceral do pesadelo urbano visto na tela. É muito fácil aceitar essa visão do futuro de Filhos da Esperança. Sei que Cuarón já disse não encarar seu filme como uma ficção científica, mas há cenas (como o jantar entre Clive Owen e Danny Huston) que parecem saídas de um storyboard rejeitado de Laranja Mecânica. Acho que ele, ao menos, aprecia os filmes de Stanley Kubrick.

Filhos da Esperança é uma experiência rápida, brutal e emocionante. Como em seus trabalhos anteriores, Cuarón sabe como armar o tabuleiro e até conclui de forma direta e sem nunca enrolar o espectador. Mas sempre é um tanto seco em seus finais – fica um ligeiro incômodo quando o filme termina. Não sei ainda se isso é um problema, mas Filhos da Esperança fica registrado na memória mais como um filme feito por alguém que se preocupa com o futuro do cinema do que pelo poder de sua história. Uma impressão que pode desaparecer daqui a alguns anos ao rever e “triver” Filhos da Esperança.

Filhos da Esperança (Children of Men, 2006)
Direção: Alfonso Cuarón
Elenco: Clive Owen, Claire-Hope Ashitey, Michael Caine, Peter Mullan, Danny Huston e Julianne Moore

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