fevereiro 16th, 2007

Cartas de Iwo Jima

A Conquista da Honra é um filmaço, mas Cartas de Iwo Jima (Letters From Iwo Jima, 2006) é uma obra-prima profunda e verdadeira.

Há uma tristeza amarga em Cartas de Iwo Jima, mas nunca evidente. É a história do lado derrotado em uma das batalhas mais sangrentas da Segunda Guerra Mundial. Cerca de 22 mil japoneses resistiram ao ataque de aproximadamente 100 mil americanos. A salvação dos soldados pode estar na figura paterna do General Kuribayashi (o extraordinário Ken Watanabe). Mais uma vez, Clint aposta na importância dos filhos para cessar a violência. Quando não há mais saída, a cultura de guerra japonesa solicita o harakiri – um ritual de suicídio e código de honra entre os samurais. Kuribayashi viveu um período de sua vida nos EUA. Ele conhece e admira os americanos, o que gera a antipatia de alguns oficiais japoneses. Por ter uma noção do inimigo, Kuribayashi respeita o harakiri, mas pede para que seus homens lutem até a morte para que o sacrifício não seja em vão. Acredite: você pode não aprovar o harakiri, mas vai respeitar a atitude dos japoneses no filme. É o conflito da honra. Como ótimo contador de histórias, Clint fez a mesma coisa em Menina de Ouro (2004), quando tocou de forma delicada no polêmico tema da eutanásia.

Pode-se dizer também que Cartas de Iwo Jima é uma homenagem de Clint ao cinema japonês, principalmente a Akira Kurosawa. Mas antes de tudo é uma leitura sobre a compreensão do inimigo, algo presente na segunda fase do cinema de John Ford. A coragem do diretor reside na câmera atuando como os olhos do exército japonês. Sempre vistos como inimigos impiedosos e sem alma, eles têm a mesma opinião sobre os americanos. A guerra em Cartas de Iwo Jima não é espetacular. Ela é íntima. Os túneis de Clint Eastwood simbolizam o interior humano. O pior medo está na cabeça e no coração dos homens. Talvez, o que aconteça neste reino (os túneis) seja pior do que ocorre lá fora, ou seja, a guerra propriamente dita contra o inimigo. A violência contra o lado desconhecido surge, primeiramente, do ponto em que o ser humano não se conhece inteiramente. Então, como pode compreender o outro? Há algo dessa idéia no personagem Ethan Edwards (John Wayne), de Rastros de Ódio (1956), o clássico de John Ford – ídolo de incontáveis diretores, inclusive de Akira Kurosawa.

Em uma cena particularmente tocante, um oficial japonês lê uma carta que estava no bolso de um prisioneiro ianque. É de sua mãe. Todos os soldados japoneses ficam comovidos e um deles diz algo assim: “Pensei que eles eram selvagens. Mas a mãe dele não pode ser tão diferente da minha”. Mais tarde, esse soldado japonês é capturado por um pelotão americano e assassinado a sangue frio. Como segmento de A Conquista da Honra, essa parte de Cartas de Iwo Jima se torna ainda mais poderosa. É o reconhecimento de cada um dos lados mostrado de forma sublime e a conclusão definitiva do cinema de que todos saem derrotados em uma guerra.

Cartas de Iwo Jima (Letters From Iwo Jima, 2006)
Direção: Clint Eastwood
Elenco: Ken Watanabe, Kazunari Ninomiya, Tsuyoshi Ihara, Ryo Kase e Shido Nakamura

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