fevereiro 6th, 2007

Pecados Íntimos

Há algo de Beleza Americana (1999) ou Desperate Housewives no novo filme de Todd Field, de Entre Quatro Paredes (2001). O tom tragicômico dessas referências é usado aqui ao extremo. Pecados Íntimos (Little Children, 2006) é muito mais forte e sugere uma ousadia na presença de um narrador (em off) dotado de afiada ironia como não se vê desde Barry Lyndon (1975), de Stanley Kubrick (lógico que a comparação com o clássico pára aqui).

Como se estivesse lendo um livro, o narrador situa o filme em uma vizinhança aparentemente normal. O fio condutor é Sarah (cortesia da extraordinária Kate Winslet), uma insatisfeita dona de casa que parece não ter se adaptado como mãe. Há um arrependimento evidente em seu olhar que denuncia uma vida interrompida pelo casamento infeliz. Sarah é especialista em letras, mas passa o dia cuidando da filha e esperando o marido voltar do trabalho. Ela conhece Brad (Patrick Wilson, de Menina Má.Com), um pai ocupado com os afazeres domésticos, incluindo os cuidados com o filho. Sustentado por uma mulher linda e bem-sucedida (Jennifer Connelly), Brad também é um fracassado na vida profissional e os caminhos desses desiludidos se cruzam no parquinho preferido das crianças das redondezas. Apesar das semelhanças, Sarah tem mais coragem para melhorar sua rotina, enquanto Brad é mais impulsivo (infantil?). Como uma moderna Madame Bovary, ela se entrega de corpo e alma ao inevitável caso, enquanto ele se interessa apenas por uma “aventura” (chegando até mesmo a considerar a esposa mais bonita do que Sarah).

Mas há um personagem em Pecados Íntimos que conecta todos os outros para justificar o título original do filme: Ronnie (Jackie Earle Haley) acabou de sair da prisão por crime de pedofilia. A vizinhança se desespera com seu retorno à “vida normal e pacata” da região. O homem chamado de monstro não tem direito a uma segunda chance? É uma questão que divide os outros personagens – quase todos são pais e o nascimento de seus filhos representa uma fuga do marasmo. Será que o destino de todos pode ser o mesmo da mãe de Ronnie, que criou o filho debaixo da saia até o fim da vida? Esse é o ponto interessante de Pecados Íntimos: Ronnie ainda é uma criança e convive com a sombra da mãe. Talvez, seu crime atroz seja justificado pela recusa do personagem em não crescer. Mas se olharmos bem, todos os outros, incluindo Sarah e, principalmente, Brad, são crianças em corpos de adultos. Enquanto ela tenta se libertar dessa condição, ele continua com dúvidas se quer mesmo deixar sua “criancice” de lado. Ou seja, o filme captura o espectador nessa análise de uma sociedade que nunca será completamente madura.

As atuações de Jackie Earle Haley e Kate Winslet garantem a força do filme. Aliás, Haley tem uma cena nervosa que fica na memória: sua entrada na piscina. Mas quase tudo desanda no final com alguns exageros de Todd Field, principalmente em suas conclusões nas atitudes de Brad. Há uma falsa moralidade criticada pelo diretor no final. É uma opção que dá um caráter derrotista ao filme – parece que Pecados Íntimos acaba indo do nada a lugar nenhum. Exatamente no mesmo ponto onde acho que Beleza Americana compromete sua excelência. Só que o vencedor do Oscar carrega nas emoções em seu final para disfarçar isso. Todd Field é mais seco em Pecados Íntimos. Até entendo que, para mudar, seus personagens precisam se conhecer por dentro antes de tudo. Mas fica uma sensação de culpa em seus atos, que precisa ser punida. Será que o diretor perdeu a fé na história? Ou ele também é uma “criança” com medo do mundo?

Pecados Íntimos (Little Children, 2006)
Direção: Todd Field
Elenco: Kate Winslet, Patrick Wilson, Jackie Earle Haley, Jennifer Connelly e Noah Emmerich

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