março 27th, 2007

Scoop

Em toda a história de Hollywood, ninguém jamais pregou um humor ácido e, ao mesmo tempo, delicioso como Woody Allen. Depois de algumas tentativas de retornar ao gênero que o consagrou, o baixinho hipocondríaco de óculos gigantescos finalmente foi bem-sucedido em Scoop – O Grande Furo (Scoop, 2006).

Será que faltava a inspiração de uma musa como em seus melhores trabalhos ao lado Diane Keaton e Mia Farrow? Talvez Scarlett Johansson represente esse reencontro do autor com sua energia criativa – mesmo que ela não seja Diane ou Mia. O importante é que, em cena, Allen está engraçadíssimo com um timing perfeito para a comédia. Há tempos ele não tinha uma química tão radiante na tela ao lado de uma estrela. Não bastava exatamente mudar de ares – como de Nova York para Londres. Scarlett era a peça que faltava para vermos um Woody Allen de 70 anos enlouquecido, hipocondríaco e afiado nas piadas como conhecemos há mais de três décadas.

Mesmo não sendo uma femme fatale como em Dália Negra (2006), de Brian De Palma, ou em Match Point (2005), do próprio Allen, Scarlett consegue ser sensual mesmo fora de todos os estereótipos. É só perceber a fixação da câmera do diretor quando Scarlett está sozinha na tela ou usando um maiô vermelho de liquidação, como ela admite – por essa cena, “obrigado, Woody”. Quando o cineasta não atua, exceto por Match Point, ele sempre coloca sua personalidade no protagonista – foi assim com John Cusack, em Tiros na Broadway (1994), e com Kenneth Branagh, em Celebridade (1998). Scarlett só não é uma versão feminina da mente de Woody Allen porque ele atua em Scoop. Mas, me referindo a uma das passagens cômicas da trama, ela é a “filha que Woody Allen jamais teve”. Scarlett é Sondra Pransky, uma estudante de jornalismo norte-americana de passagem em Londres. Ela é inseparável de seus óculos, assumidamente nerd e atrapalhada, mas não chega a ser neurótica como o mágico Sid Waterman (Allen). Em um de seus shows, ele usa Sondra como voluntária e a moça recebe uma mensagem do espírito de Joe Strombel (Ian McShane), um conceituado jornalista inglês. Ele tem um “grande furo” para a jovem estudante: o aristocrata britânico Peter Lyman (Hugh Jackman) é o famoso “assassino das cartas de tarô”, que aterroriza Londres. Mas será que um espírito pode se enganar? A improvável dupla parte para a investigação e as risadas brotam da tela naturalmente.

Tem crítico batendo em Scoop e dizendo que “não é o melhor de Woody Allen” ou “não está entre os melhores do diretor e roteirista”. Eles até têm razão, mas isso não é um problema do filme. Já vimos muita coisa de Scoop em, principalmente, Um Misterioso Assassinato em Manhattan (1993). Allen adora um crime – foi assim em Crimes e Pecados (1989) e Match Point (2005) -, e Londres é o cenário ideal para esse tipo de trama. Então, Scoop lembra outros filmes de Woody Allen? Qual o problema? Acho que isso representa qualidade, afinal a obra do cineasta não foi esquecida. E mesmo não sendo um de seus melhores trabalhos, Scoop é uma comédia despretensiosa e infinitamente superior à média que domina o circuito, e que prova para uma nova geração que ninguém se aproxima do humor de Woody Allen.

Scoop – O Grande Furo (Scoop, 2006)
Direção: Woody Allen
Elenco: Scarlett Johansson, Woody Allen, Hugh Jackman e Ian McShane

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