abril 27th, 2007

Perigosos somos nós

Tentei ignorar o fato neste blog, mas assim não dá. É impossível deixar isso passar, quando tem muita gente culpando o cinema por causa do ato selvagem de um único maluco.
Cho Seung-hui, estudante que matou mais de 30 pessoas antes de cometer suicídio no campus do Instituto Tecnológico da Virgínia (Virginia Tech), no dia 16 de abril, disparou mais de 170 vezes durante os nove minutos de duração do ataque no prédio de engenharia da universidade. Quando um professor de Virginia Tech levantou a hipótese de que o infeliz agiu inspirado pelo filme coreano Oldboy, muita gente voltou a comentar que o cinema tem culpa no cartório. E olha que realmente brigam por essa teoria.
Vejam só: o tiroteio de Virginia superou o número de mortos na escola de Columbine, no Colorado, em 1999. Daquela vez, os intelectuais de plantão tentaram culpar Matrix, já que os assassinos eram fãs da ficção científica dos irmãos Wachowski. No mesmo ano, aqui no Brasil, um doido invadiu um cinema do Morumbi, em São Paulo, e atirou para todos os lados. Além da tragédia, o cara tinha que entrar exatamente na sala que exibia Clube da Luta, a análise ultra cool de David Fincher sobre o stress. O filme que acabava de chegar aos cinemas do país foi manchado pelo ato e banido de várias salas.

A discussão sobre a exibição da violência e suas conseqüências é antiga. Os filmes não têm culpa. Quando um lunático como Cho Seung-hui faz algo assim, uma explicação plausível para os fatos alivia a tensão do povo. Então, uma obra de arte surge como resposta ou, melhor, uma espécie de bode expiatório. Mas embora façam parte de nossas vidas e sonhos, os filmes não têm culpa. Taxi Driver, Laranja Mecânica, Assassinos por Natureza, Oldboy, Clube da Luta, Cães de Aluguel, Os Infiltrados ou Pulp Fiction não são perigosos. Nós somos. Muitos filmes violentos surgem como reflexo da realidade e não o contrário. Por exemplo, Caminhos Perigosos, de Martin Scorsese é baseado em suas próprias experiências em uma Nova York violenta. Filme é arte. Algumas pessoas são loucas. Não se deve calar a arte por causa de gente que não bate bem. Infelizmente, as opiniões ficam divididas. Como em qualquer outro assunto.

A famosa crítica norte-americana Pauline Kael disse certa vez: “Como se pode continuar falando no brilho fascinante de certos filmes sem perceber que seus diretores estão adulando os canalhas selvagens na audiência?”. As pessoas são assim mesmo. Deixando de lado os filmes violentos, O Código Da Vinci provocou a ira da Igreja Católica e os primeiros Harry Potter foram acusados de incentivar à bruxaria (!). Essas opiniões sempre existirão. Mas há diferença entre ficção e realidade. Você nunca ouviu dos seus pais ou parentes para não imitar o Superman e não pular pela janela? Gente, desenhos também são terríveis: Tom & Jerry é violento demais, e o Pica-Pau é um sujeito malvado… Se um maluco se atirar de uma montanha com sua bicicleta, a culpa não é de E.T. Se eu levar um tiro na testa depois que a porta do elevador se abrir, a culpa não é de Os Infiltrados. Se você entendeu esse texto, espalhe para as “crianças” que filme é arte. Ou melhor, diga que é tudo “de mentirinha”.

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