abril 18th, 2007

Ventos da Liberdade

Envolvido na luta armada contra a Inglaterra durante a década de 20, o irlandês Damien O’ Donovan (Cillian Murphy) escreve para sua amada: “Eu tentei não entrar nesta guerra, mas entrei. Agora, eu gostaria de sair dela, mas não consigo”. Perto do fim de Ventos da Liberdade (The Wind That Shakes the Barley, 2006), esse breve momento forma um contraste com a abertura do filme, na qual Damien aproveita as divertidas horas finais com seus amigos irlandeses antes de partir em direção a Londres, onde exercerá sua tão sonhada vocação para a medicina. Deste ponto de vista, o filme de Ken Loach vencedor da Palma de Ouro fala sobre a perda da inocência.

Li que o título original de Ventos da Liberdade foi tirado do trecho de uma canção sobre a Rebelião Irlandesa. Na verdade, a música conta a saga de um jovem que sacrifica suas paixões para lutar na guerra. É exatamente o que Damien faz. Por este lado, o filme mostra como escolhas políticas, quando extremamente radicais, também podem destruir laços afetivos. A força dramática de Ventos da Liberdade está na opção feita por Damien e, principalmente, em sua transformação irreversível em um soldado da causa irlandesa. Todo o processo é tratado com muita sensibilidade por Ken Loach, que proporciona uma visão interna da evolução do IRA (Exército Republicano Irlandês) e suas motivações.

Até a metade do filme, o diretor consegue alternar perfeitamente entre drama e fatos históricos. Na segunda parte, marcada pelo acordo entre Inglaterra e Irlanda, os ideais políticos de Ken Loach imperam. Desta vez, ele exagera ao tentar explicar as opiniões de cada personagem e o filme vira uma espécie de debate sobre a situação irlandesa. Claro que é um filme político (e nem poderia deixar de ser), mas o cineasta não deveria ser tão prolixo.

Ainda existe outro problema: o diretor não ilustra o lado inglês e revela uma preocupação única pelos irlandeses – em tempos de filmes como A Conquista da Honra e Cartas de Iwo Jima, Loach poderia abandonar a eterna imagem de ingleses sanguinários e impiedosos. Do jeito que está, Ventos da Liberdade parece datado, mas ganharia ares de obra-prima nas décadas de 80 e 90. Ou seja, ele perdeu a chance de fazer a produção definitiva sobre o tema.
De qualquer forma, Ventos da Liberdade não deixa de manter um paralelo com a atualidade. Em uma das discussões entre os irmãos, por exemplo, Damien acusa Teddy de ter cedido ao país “mais poderoso do mundo”, sem dizer exatamente a palavra “Inglaterra”. E é na parte final, marcada pelo embate entre os irmãos, que Loach se inspira para salvar o filme.

O acordo entre as nações divide as opiniões dos irlandeses e a guerra ganha aspectos internos. Damien e Teddy ficam em lados opostos e a tragédia é inevitável. O final é emocionante e os principais méritos vão para a atuação de Cillian Murphy. O ator encontra aqui o seu melhor momento e obriga Ken Loach a direcionar toda a intenção política ao que realmente importa no cinema: bons personagens e seus dramas pessoais.

Ventos da Liberdade
(The Wind That Shakes the Barley, 2006)
Direção: Ken Loach
Elenco: Cillian Murphy, Padraic Delaney, Liam Cunningham e Gerard Kearney

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