maio 4th, 2007

Homem-Aranha 3

 

Homem-Aranha 2 é um dos melhores filmes gerados por uma história em quadrinhos. Engraçado que depois do primeiro, havia a dúvida de que Sam Raimi seria capaz de se superar, afinal o herói já havia sido apresentado. E o que viria a seguir? Somente ação desenfreada e um show de efeitos visuais? Ledo engano. Em Homem-Aranha 2, o roteiro era tão importante quanto os efeitos digitais mais impressionantes que alguém poderia criar. Peter Parker (Tobey Maguire) foi dominado pelo stress e quase desistiu de seu papel de herói. Um filme sobre escolhas, conflitos internos, a importância da amizade e, no fundo, uma bela história de amor entre Parker e Mary Jane (Kirsten Dunst). E quando a ação surgia, ela era monumental. Cortesia de Sam Raimi, que não deixou atores e personagens em segundo plano. O CGI estava lá para ajudar a contar a história e não para dominá-la.

Com Homem-Aranha 3 (Spider-Man 3, 2007), os comentários eram de total confiança: “Claro que o filme será demais” ou “Vai ser tão bom ou ainda melhor do que segundo”. Ledo engano. A nova produção (a mais cara da história do cinema) não acrescenta nada à saga do Aracnídeo. Ao contrário do segundo filme, Homem-Aranha 3 repete o que deu certo nos anteriores e a sensação de déjà vu é inevitável. O terceiro filme continua sendo sobre escolhas, conflitos internos, a importância da amizade e, no fundo, uma bela história de amor entre Peter Parker e Mary Jane. Desta vez, o tormento que cerca o herói não é o stress, mas seu lado negro. Mais do mesmo. Houve apenas uma reciclagem de sentimentos.

De fato, Homem-Aranha 3 está longe de ser uma catástrofe. Mas se o anterior é o melhor filme adaptado dos quadrinhos, esse aqui fica atrás de fortes concorrentes, que tentaram superá-lo, como Batman Begins ou Superman – O Retorno. E você sente as 2h20 de projeção, que não justificam a importância de tantos personagens em cena – principalmente as motivações dos vilões. Tudo muito ralo. Será que Thomas Haden Church é tão canastrão assim? Como o Homem-Areia, ele é praticamente monossilábico e, quase sempre, substituído por pixels. Topher Grace (como o fotógrafo Eddie Brock Jr.) parece se divertir mais do que o espectador, mas ele tem pouco tempo para oferecer algo novo à série. Tem também Bryce Dallas Howard, a musa de M. Night Shyamalan, mas que não diz muita coisa no filme. São diversas situações, só que mal desenvolvidas. E lógico que a culpa é do roteiro. Sem falar na aparição do alienígena que gruda em Parker – sei que está nos quadrinhos, mas as explicações para a fantasia em Homem-Aranha 1 e 2 sempre buscaram razões na ciência. Ou seja, as “viagens” estavam lá, mas os pés ficavam no chão.

Infelizmente, nem mesmo as cenas de ação empolgam. Não há nenhuma seqüência de deixar o queixo caído como o confronto no trem de Homem-Aranha 2. A ação nos filmes anteriores era vertiginosa, mas o público conseguia admirar cada detalhe, graças ao ótimo trabalho de montagem. Já em Homem-Aranha 3, há uma luta no início do filme. A câmera está sempre próxima, mas não é capaz de capturar o drama e, pior, quase não se vê coisa alguma. Existe outro problema: as partes com Peter Parker sempre foram as melhores. Mas desta vez, parece que o Homem-Aranha faz falta. Por exemplo, em duas cenas de luta, Parker está sem a máscara. Será que Tobey Maguire precisa mostrar mais o rosto por causa de sua fama atual?

Embora este filme seja mais sombrio e violento, surgem momentos irresistíveis de humor para gerar um equilíbrio. As cenas do editor J.J. Jameson (J.K. Simmons) e a participação de Bruce Campbell são hilárias. Só que ainda assim, como a exagerada dedicação aos efeitos especiais, chega uma hora que o humor também cansa em uma seqüência constrangedora: empolgado com o poder do uniforme negro, Peter Parker dança nas ruas como um John Travolta, em Os Embalos de Sábado à Noite. É até engraçado, mas é o momento Rain Drops Keep Fallin’ on my Head deste filme (olha o déjà vu novamente). Se no segundo, a trilha casava direitinho com as cenas, aqui ela beira o ridículo. Parece que o filme vai caminhar para a paródia, mas começa a preparação para o clímax cheio de ação. E aí surgem os verdadeiros astros de Homem-Aranha 3: os efeitos. Parece que toda a grana foi investida neles – especialmente para criar o Homem-Areia. O “nascimento” do vilão impressiona, mas engana. Essa cena representa a maior falha do filme: roteiro fraco dominado por efeitos maravilhosos, resultando em um filme sem a alma e o coração dos anteriores.

Outra implicância: geralmente, o episódio mais sombrio de uma saga é o do meio. Foi assim, por exemplo, em O Império Contra-Ataca. A conclusão da história é melosa e um tanto fúnebre. Mas como a Sony e a Marvel querem Homem-Aranha 4, 5 e 6, talvez este seja mesmo o meio da saga. Só que o futuro não é animador. Se a repetição do que deu certo no passado é evidente neste filme, imagine como serão os próximos.

Homem-Aranha 3 (Spider-Man 3, 2007)
Direção: Sam Raimi
Elenco: Tobey Maguire, Kirsten Dunst, Thomas Haden Church, Bryce Dallas Howard, Topher Grace e J.K. Simmons

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