junho 24th, 2007

Carros

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“A melhor coisa da vida é a jornada”, diz John Lasseter, diretor de Toy Story 1 e 2, e Vida de Inseto. Já em A Felicidade Não Se Compra, clássico de Frank Capra, o protagonista George Bailey (James Stewart) aprende que “ninguém é um fracasso quando se tem amigos”. Lasseter pode falar quanto quiser que Carros (Cars, 2006) é uma celebração de seus geniais colaboradores a uma de suas paixões: Carros, claro. É uma espécie de American Graffiti da Pixar. Embora também seja uma homenagem aos longas americanos de corridas e os vários road movies produzidos por Hollywood, o coração de Carros está nos filmes de Frank Capra. Especialmente o melhor deles, A Felicidade Não Se Compra.

Antes de continuar o papo sobre Capra, quero comentar o visual da animação, que é incrível. Se em Vida de Inseto, a Pixar pesquisou jardins e florestas do ponto de vista de formigas, joaninhas, gafanhotos e outros bichos pequeninos, e em Procurando Nemo mergulhou para observar os detalhes do fundo do mar, aqui, eles recriam a lendária Rota 66, que corta os Estados Unidos de Los Angeles a Chicago, à perfeição. Lasseter, inclusive, chegou a cruzá-la na companhia de sua família durante merecidas férias.

Para entrar no clima, você precisa saber que este é um mundo dominado por carros. Tem caminhões, helicópteros, mas são os carros que mandam. Nada de humanos neste filme, o que “rouba” um pouco a magia dos últimos exemplares da Pixar, é verdade, mas não chega a atrapalhar. De qualquer forma, destaco a sacada da Pixar em colocar os olhos dos carros nos vidros e não nos tradicionais faróis. Claro. É exatamente dali que se enxerga a estrada, não? Como não pensamos nisso antes?

Agora sim voltamos ao papo sobre Capra. Carros é sobre Relâmpago McQueen (referência óbvia ao lendário Steve McQueen, fanático por corridas e carros – aqui com voz de Owen Wilson), um novato promissor no mundo do automobilismo. Mas sua arrogância pode custar sua carreira. Ele se acha o último biscoito do pacote. Um dia, ele se perde de sua equipe no meio da estrada e cai numa cidadezinha onde o tempo parou: Radiator Springs. E Bedford Falls, de A Felicidade Não Se Compra, vem imediatamente à minha cabeça. É lá, que McQueen aprenderá a ser mais humano, social, cordial. Terá finalmente amigos e entenderá a importância deles. Aprenderá com um veterano ranzinza das pistas, Doc Hudson (voz de Paul Newman, outro grande fã de carros e corridas), além do caipirão Mate (voz de Larry The Cable Guy), um guincho enferrujado e caindo em pedaços, que é o personagem mais interessante do filme, e a Porsche Sally (Bonnie Hunt).

A jornada que humaniza McQueen ganha tons cuidadosamente edificantes, caminhando para um clímax emocionante. Até lá, você vai rir (como na cena dos tratores burros) e talvez chorar na decisão final de McQueen. Isso acontece porque a Pixar se inspira em Capra. Se a força do filme estivesse nas corridas, como Dias de Trovão, Grand Prix, e As 24 Horas de Le Mans em versões animadas, não teria dado certo.

Ainda assim, Carros talvez seja “o filme” da Pixar para crianças. Os 100% adultos acostumados à genialidade, ao equilíbrio perfeito de Procurando Nemo podem chegar a olhar no relógio de vez em quando. Mas se observarem atentamente a garotada no cinema, especialmente os meninos, verão que o filme foi feito para outro público.

Carros (Cars, 2006)
Direção: John Lasseter
Roteiro: Dan Fogelman e Dan Gerson
Com as vozes de Owen Wilson, George Carlin, Bob Costas, Paul Dooley, Katherine Helmond, Bonnie Hunt, Michael Keaton, Jenifer Lewis, Ray Magliozzi, Tom Magliozzi, Cheech Marin, Paul Newman e Guido Quaroni

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