agosto 16th, 2007

O Ultimato Bourne

Na cena final de A Supremacia Bourne, o ex-agente sem memória (interpretado de forma brilhante por Matt Damon) conversa por telefone com Pamela Landy (Joan Allen), a líder da força-tarefa encarregada do caso na CIA. Ela conta ao herói sobre seu verdadeiro nome: David Webb. Ao desligar, Bourne parece não se importar muito com a informação e se perde no meio da multidão em Nova York. O filme termina, mas essa cena é importantíssima para compreender a proposta do diretor Paul Greengrass em O Ultimato Bourne (The Bourne Ultimatum, 2007), o extraordinário final desta trilogia.Agora ficou mais fácil entender que Greengrass não quis fazer “mais uma aventura de Jason Bourne” no segundo filme. Antes, parecia que Supremacia ia do nada a lugar nenhum. A impressão é que faltava alguma ligação dramática no festival de ação, pancadaria, velocidade, metal e vidro das duas primeiras partes. Com Ultimato, todos os filmes fazem sentido. São três atos que formam apenas um longa.

Lógico que é impossível experimentar todas as qualidades de O Ultimato Bourne sem ter Identidade e Supremacia bem fresquinhos na cabeça. Porém, o terceiro episódio fala mais alto do que os anteriores e surge como um filme de verdade. Claro que ainda é um thriller de ação e suspense, mas aqui é possível encontrar tudo o que um cinéfilo procura em um grande filme. Para mim, isso é um sonho que vira realidade. Sempre esperei que um diretor tentasse fazer um ótimo filme fora do gênero drama. Você me entendeu? Quero dizer “qualquer gênero” como Ficção Científica, Fantasia, Aventura, etc. Eu esperava pela chegada de um diretor capaz de apresentar um projeto desafiante a outros gêneros (e com a proposta de levá-lo a sério). Isso é raridade. Quando um roteiro não é assumido como drama, há uma idéia infeliz por ser generalizada: a maioria acha que são filmes feitos somente para diversão escapista. Mas nesta década, veio O Senhor dos Anéis, de Peter Jackson. E, agora, Paul Greengrass nos dá O Ultimato Bourne de presente. Nunca pensei que diria isso a respeito desse diretor, mas assisti ao filme como um aluno admirado pela grande aula de cinema do professor Greengrass. Logo ele, que nunca tinha me surpreendido antes.

E não somente pelo estilo do cineasta em filmar a ação de perto: você não a vê de longe, mas é jogado dentro dela. Para quem não quer estudar muito, a aula de Greengrass pode ser resumida em duas cenas (ou seqüências). E o professor é genial ao se aproveitar do máximo do suspense em um “filme de entretenimento”. Só vi isso em Hitchcock e Spielberg. São dois momentos de deixar qualquer um agarrado na cadeira, mas que seriam reduzidos a uma expressão barata e corriqueira como “pura diversão” nas mãos de outro cineasta. A primeira cena envolve Bourne ajudando um jornalista do The Guardian (Paddy Considine) e a segunda coloca o herói saltando de telhado em telhado no Marrocos até uma luta dolorosa de tão seca dentro de um banheiro minúsculo. As sequências são tão bem filmadas e editadas que deveriam estar em qualquer curso de montagem de cinema. O melhor nisso tudo é que a história vai junto com um filme que pode muito bem ser classificado como uma perseguição ininterrupta do primeiro ao último minuto. O roteiro é excepcionalmente conduzido até um desfecho nervoso – desde a abertura (e aproveitando o título do filme), a idéia fixa é a de que Bourne morrerá no final.

Greengrass e os roteiristas Tony Gilroy, Scott Z. Burns e George Nolfi partem dessa dúvida para explorar uma tensão que não parece ter fim. Mas não espere 100% de explicação, afinal os segredos que envolvem o passado de Jason Bourne não deixam de ser um MacGuffin. O importante é presenciar como o personagem, que já fez coisas terríveis, tenta encontrar paz e redenção.

E tudo é tão rápido e envolvente que praticamente esquecemos as ilustres presenças de atores como David Strathairn, Albert Finney e Joan Allen até ler seus nomes nos créditos finais ao som (pela terceira vez) de Extreme Ways, de Moby. O Ultimato Bourne não é somente o melhor filme de ação do ano. Isso é cinema de primeira e merece indicações ao Oscar ou qualquer outro prêmio. No mínimo, deveria ganhar uma estatueta de Melhor Montagem.

O Ultimato Bourne (The Bourne Ultimatum, 2007)
Direção: Paul Greengrass
Elenco: Matt Damon, Julia Stiles, David Strathairn, Joan Allen, Scott Glenn, Albert Finney, Paddy Considine e Edgar Ramirez

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