setembro 25th, 2007

Hairspray

Tenho uma bronca danada com os musicais atuais. Na crítica de Dreamgirls, escrevi: “Acho que o gênero é produto de uma época glamourosa de Hollywood, que não volta mais. Estúdios, produtores e diretores pensavam diferente e havia um grupo de atores como Gene Kelly, Fred Astaire e Julie Andrews – só para citar alguns – que nasceram para isso. Tudo fazia sentido nessa celebração da música, afinal era o auge da Hollywood sonora.”

Ainda penso assim, mas não quer dizer que o gênero não possa dar uma dentro. Para mim, Todos Dizem Eu Te Amo, de Woody Allen, foi o último musical realmente bom. O diretor contou uma história dentro do gênero sem parecer artificial e o roteiro de Allen poderia se encaixar perfeitamente em um “filme falado”. Colocar seus atores para cantar e dançar foi apenas um ato de inspiração para reforçar a mágica de seu cinema.

Os grandes musicais são obras de puro entretenimento. Não são exatamente o que alguns gostam de chamar de “filmes sérios”. O gênero representava a diversão escapista proposta por Hollywood, antes de Steven Spielberg e George Lucas mostrarem o outro lado do entretenimento. Cantando na Chuva, A Noviça Rebelde ou West Side Story podem tocar em temas sérios, mas não deixam de viver no reino da fantasia. É por isso que não agüento a “seriedade” de Chicago ou Dreamgirls.

Mas a adaptação do musical Hairspray (2007), que por sua vez é inspirado no filme de John Waters, de 1988, surge como um alívio. O diretor e coreógrafo Adam Shankman vem de bombas como Doze é Demais 2, com Steve Martin, mas aqui, ele surpreende. Diferente de outros musicais recentes, que começam sem canções, Hairspray não engana ninguém e apresenta de cara a adorável Nikki Blonsky andando pelas ruas e cantando a viciante Good Morning Baltimore. É pegar ou largar.

Hairspray é um daqueles filmes que faz você entrar e sair do cinema com um largo sorriso no rosto. A alegria do elenco e a energia do diretor transbordam na tela desde o primeiro minuto e é muito difícil não interagir ou não se pegar cantarolando uma das várias canções do filme.

Aliás, o elenco é extraordinário. Todos se entregam de corpo e alma ao projeto. A começar por Nikki Blonsky, uma descoberta sensacional, como a protagonista Tracy Turnblad. Christopher Walken está engraçadíssimo e Michelle Pfeiffer retorna deliciosamente má no papel da vilã Velma Von Tussle. Mas o filme é de John Travolta. O astro está perfeito no curioso papel de Edna Turnblad, a mãe de Tracy (!). Ele rouba todas as cenas e merece uma indicação ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante. E atenção para a encantadora (e engraçada) dança romântica entre o casal Travolta e Walken.

Hairspray é um ponto e tanto para a carreira do diretor Adam Shankman, que conseguiu colocar magia em um musical atual e cantado do início ao fim, mas que jamais cansa. Pode não ter canções tão bonitas quanto outros representantes do gênero, mas isso não é um CD. É cinema.

O que impressiona em Hairspray é a sua aparente falta de compromisso. O filme toca em assuntos bem sérios como racismo e outras intolerâncias, mas nem por isso deixa de ser puro entretenimento. Hairspray é um musical de verdade.

Hairspray – Em Busca da Fama (Hairspray, 2007)
Direção: Adam Shankman
Elenco: Nikki Blonsky, John Travolta, Michelle Pfeiffer, Christopher Walken, Amanda Bynes, James Marsden, Queen Latifah e Zac Efron

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