outubro 30th, 2007

Across the Universe

31ª Mostra Internacional de Cinema

Não é a historinha de amor banal contada pela diretora Julie Taymor (de Frida) que justifica uma ida ao cinema para assistir ao musical Across the Universe (2007). O que realmente importa aqui é saber se você é ou não um beatlemaníaco. Quem não gosta das canções imortais dos quatro rapazes de Liverpool vai se irritar à toa e é melhor passar longe. Mas os fãs serão capazes de adivinhar a música que o elenco cantará segundos antes de uma cena óbvia.

Across the Universe é um musical com canções dos Beatles, mas a banda jamais é mencionada durante o filme. A produção acompanha o romance entre Jude (Jim Sturgees), um inglês de Liverpool que canta igualzinho a Ewan McGregor, e a norte-americana Lucy (Evan Rachel Wood), durante as décadas de 1960 e 1970. Para ilustrar o roteiro, a diretora fez os atores cantarem e dançarem ao som dos Beatles. Essa idéia lembra o que Baz Luhrmann propôs em Moulin Rouge, um musical de época com canções atuais. No fundo, o filme de Luhrmann é de um romantismo retumbante e o amor vivido pelos personagens de Nicole Kidman e Ewan McGregor emociona independentemente das músicas. Posso ter problemas com o filme de Luhrmann por causa de sua montagem histérica para a geração MTV, mas reconheço que o cara foi original.

Across the Universe não é genial ou original e a história de amor não convence. Julie Taymor precisa da força das canções dos Beatles para fazer seu filme seguir em frente. Isso parece um artifício fácil demais. E não dava para fazer um filme com clássicos da banda sem ter seus momentos psicodélicos. Em algumas partes, Across the Universe lembra a rebeldia de Hair, mas só de leve. Há protestos contra a Guerra do Vietnã com muita música e revolta, mas Julie Taymor nem chega perto (ou quer ser) Milos Forman. Ela até que é bem-sucedida no aspecto visual. Across the Universe seduz pelas imagens, faz os beatlemaníacos cantarem no cinema e, no fim, engana gregos e troianos. E devo admitir que, como rigoroso fã da banda, torci o nariz com alguns novos arranjos. Enfim, isso seria bobagem se os Beatles não fossem lingüagem universal como o amor e a matemática.

Como disse, parece fácil fazer um filme onde as músicas já deixam tudo pronto. Quando uma cena do roteiro começa a tomar forma na tela, o beatlemaníaco já sabe qual será a música cantada pelos atores. Quando Jude conquista a amizade de alguns estudantes norte-americanos, eles cantam With a Little Help from My Friends. Quando Jude está triste no bar, um de seus amigos canta… Hey, Jude. Quando as drogas e a onda hippie tomam conta dos anos 1970, Bono (sim, aquele do U2) entra para cantar I am the Walrus. E você reparou que o nome da personagem de Evan Rachel Wood é Lucy? Tenha calma que você não vai embora do cinema sem ouvir Lucy in the Sky With Diamonds. E por aí vai.

A única cena que encaixa perfeitamente uma faixa dos Beatles no filme sem dar pistas ao público está na abertura: Jude olha para a platéia e canta que sua história é sobre como ele se apaixonou por uma garota. A fala é substituída pela introdução de Girl: “Is there anybody going to listen to my story? All about the girl who came to stay… She is the kind of girl you want so much it makes you sorry. Still you don’t regret a single day.”

Fora isso, é bom ser fã dos Beatles para encarar a viagem. Acho que Julie Taymor só quis contar uma história de amor com essas canções universais. Nada mais. Só que o romance não empolga e é previsível. O negócio é ouvir os Beatles, mesmo que cantados por um bando de garotos. Como em Transformers ou qualquer outro filme de entretenimento, o cinéfilo precisa desligar o cérebro pra chegar vivo até o final e ainda reconhecer algo de bom. Como ver e ouvir o velho Joe Cocker se divertindo em cena.

Across the Universe (2007)

Direção: Julie Taymor
Elenco: Jim Sturgess, Evan Rachel Wood, Joe Anderson, Dana Fuchs, Eddie Izzard, Martin Luther, T.V. Carpio, Joe Cocker e Bono

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