dezembro 15th, 2007

O Globo de Ouro não é mais o mesmo

A maioria dos cinéfilos fala e pensa com o coração. Até outro dia, um grande diretor como Martin Scorsese nunca havia segurado um Oscar. Do ponto de vista do verdadeiro amante do cinema, isso era um absurdo. Assim como Kubrick e Hitchcock, que morreram sem Oscars. Mas, na verdade, isso importa? Com ou sem prêmios, deixamos de amar os filmes?

Para começo de conversa, há muito tempo que os principais prêmios do cinema deixaram de funcionar de forma justa. O importante é que seus integrantes vejam astros, estrelas, produtores, diretores e roteiristas fazendo a publicidade necessária para promover não somente os seus filmes, mas também a indústria e seus respectivos prêmios. É o tal conceito de “arroz de festa”. E são festas e mais festas em desfiles de Barbies e Kens. Cinema que é bom… é desse “tamanhinho” aqui, oh…

Enfim, de qualquer forma, prêmios representam a opinião de um grupo. Nada mais. Na lista de indicados ao Globo de Ouro divulgada na última quinta-feira (veja aqui), a impressão que fica é: as pessoas que vivem, sentem, falam, cheiram e idolatram Hollywood gostam de espetáculos. O épico romântico Desejo e Reparação e o musical gótico Sweeney Todd (FOTO) são os grandes favoritos. O filme de Joe Wright é bonito. Há momentos que beiram o sublime, mas não é inteiramente impecável, principalmente o miolo que envolve a Segunda Guerra Mundial. O de Tim Burton, ainda não vi. Mas tem tudo para ser sua consagração. E a de Johnny Depp, que nem tem um Globo de Ouro em sua carreira. O problema para Sweeney Todd, na categoria de Melhor Filme (Comédia/Musical) é Jogos do Poder, de Mike Nichols, que recebeu uma indicação a mais: cinco. E não podemos nos esquecer de Juno. O crítico Roger Ebert, do Chicago SunTimes, o chamou de melhor filme do ano.


Onde os Fracos Não Têm Vez
é o favorito da crítica. O filme dos irmãos Coen, possivelmente, difere de qualquer outro longa do ano por sua narrativa única. Até a metade é maravilhoso, mas depois, eles tomam algumas decisões com a intenção de deixar o filme genial e me pareceu forçada de barra. Ainda assim, a crítica adorou e Onde os Fracos Não Têm Vez pode levar o prêmio de Melhor Roteiro – os Coen ainda não ganharam um Globo de Ouro. Nem por Fargo. Mas em Melhor Filme (Drama), deve ser preterido por Desejo e Reparação.

Mas como acreditar num prêmio de verdade sem a indicação do lendário diretor Sidney Lumet? Alguns arriscam que ele fez seu melhor trabalho em Antes que o Diabo Saiba que Você Está Morto. E olha que ele já fez Serpico, Um Dia de Cão e Rede de Intrigas. Elogiadíssimo, o longa foi esquecido pelo Globo de Ouro. O problema é que a indústria já “aposentou” o grande Sidney Lumet há tempos.
Mas ele não entendeu isso e entregou um filme que quase todo mundo adorou.

O que dizer da ausência de Into the Wild e Sean Penn nas categorias principais? Se sete filmes são indicados na categoria principal, entendo que ainda cabe mais um. Ou mais dois. E Ratatouille? Sinceramente, a Pixar fez melhor do que muita coisa aí nessa lista geral. Só recebeu uma indicação como Melhor Animação. E talvez nem ganhe. O que dizer de Marion Cotillard, que pode não levar uma estatueta por Piaf – Um Hino ao Amor? Não disse que não vai ganhar. Mas ela deveria ter entrado com o status de “barbada”.

Mais uma vez, o diretor Paul Thomas Anderson foi ignorado. Muitos gostam de seu trabalho. É inegável a sua contribuição para a renovação da indústria. Então, por que deixam ele de fora? E, meu Deus, onde está Zodíaco? Eles não devem gostar de David Fincher. Esse foi um dos melhores filmes do ano. Cadê Tommy Lee Jones, que entregou não uma, mas duas performances arrebatadoras em No Vale das Sombras e Onde os Fracos Não Têm Vez?

O Globo de Ouro tem a fama de ser a prévia do Oscar. Mas nem é mais. Não 100%. O Critics’ Choice Awards vem batendo com a lista do Oscar nos últimos anos com muito mais precisão. E desde 2003 que o vencedor do Globo de Ouro de Melhor Filme não repete a façanha no Oscar. Será que a Academia nem liga mais para a Associação de Imprensa Estrangeira em Hollywood? Pode ser. Eu não ligo mais.

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