dezembro 2nd, 2007

Vinhas da Ira

Vinhas da Ira
Vinhas da Ira
(The Grapes of Wrath, 1940), de John Ford, é o melhor filme já feito sobre o cenário da Depressão da década de 30, que destruiu as vidas e as esperanças de famílias inteiras nos EUA.

John Ford gostava de dizer que era um cineasta de faroestes. Ele é o recordista do Oscar na categoria de Melhor Diretor, mas jamais foi reconhecido pela Academia por um de seus westerns. Vinhas da Ira ganhou os Oscars de Melhor Diretor (Ford) e Melhor Atriz Coadjuvante (Jane Darwell) e perdeu a estatueta de Melhor Filme para Rebecca – A Mulher Inesquecível, de Alfred Hitchcock.

O irônico é que, ao longo de sua carreira, Ford narrou a conquista do Oeste pelos americanos. Mas em Vinhas da Ira, ele conta como o homem branco foi derrotado pelo próprio homem branco. Aqui, tudo o que os americanos conseguiram é tomado pelas grandes corporações. O homem perde seu trabalho e suas terras para os que estão no comando. Sim, ele é o novo índio. Um exemplo disso é como o pobre fazendeiro Muley Graves (John Qualen) se recusa a deixar sua terra e opta por viver escondido nela. Quando as autoridades se aproximam, ele ataca ou foge para, mais tarde, retornar.

Essa mudança da América é mostrada ao espectador pelos olhos de Tom Joad (Henry Fonda). No início do filme, ele sai da prisão em condicional para reencontrar a família – seu crime foi revidar a agressão de outro homem armado com uma faca. Com um golpe de pá, ele esmagou sua cabeça e ganhou sete anos de cadeia. Quando foi para a prisão, Joad deixou os EUA dos sonhos para trás. Em Vinhas da Ira, ele não sabe que as coisas mudaram e descobre isso da pior maneira possível. A família precisa deixar sua casa em Oklahoma e partir rumo à Califórnia, que é divulgada como um local de oportunidades.

Durante a viagem da família em um calhambeque caindo aos pedaços, eles percebem que não valem mais do que escravos (ou gado) para quem paga os miseráveis salários. Vinhas da Ira é um filme triste, depressivo, mas que ganha a simpatia da plateia graças ao carisma dos Joads, que encaram todos os problemas sem jamais abaixar a cabeça. Para eles, o importante é manter a família unida. Custe o que custar.

É por isso que a transformação do personagem Tom Joad, interpretado pelo glorioso Henry Fonda, esse grande ator americano, representa a genialidade da história do livro de John Steinbeck, adaptado para o cinema no roteiro de Nunnally Johnson. Ao defender um amigo, o ex-presidiário mata um homem. Mais uma vez sem planejar. Como se isso estivesse escrito. Só que desta vez, isso faz com que Tom entenda a sua missão. Antes de deixar a família para seguir sua jornada idealista, Tom tem um diálogo extraordinário com sua mãe (a brilhante Jane Darwell) e é onde, sutilmente, entendemos o que John Ford quer mostrar nos detalhes: seu protagonista assumindo o papel de líder sindicalista.

É curioso notar como John Ford alterna cenas filmadas em estúdio e também em locações. São cenas visualmente exuberantes que jamais caem no excesso – e o filme é grandioso porque a história assim exige. É a representação das oprtunidades, o tamanho da esperança. Também gosto de ver como o diretor utiliza o vento para indicar passagem de tempo ou mudanças. Tudo captado pela fotografia de Gregg Toland, um mestre que faria miséria um ano depois em Cidadão Kane, de Orson Welles.

Vinhas da Ira (The Grapes of Wrath, 1940)
Direção: John Ford
Roteiro: Nunnally Johnson (Adaptado do livro de John Steinbeck)
Elenco: Henry Fonda, Jane Darwell, John Carradine, Russell Simpson, Frank Darien, Dorris Bowdon, Zeffie Tilbury, Charley Grapewin e Muley Graves

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