janeiro 20th, 2008

Eu Sou a Lenda

Em entrevista a um telejornal, a Dra. Alice Krippin (Emma Thmpson) anuncia que encontrou a cura do câncer ao manipular algumas espécies de vírus. Três anos depois, observamos uma Nova York abandonada, suja, vazia. O salto de tempo que abre a ficção científica Eu Sou a Lenda (I Am Legend, 2007), adaptação do livro de Robert Matheson, é assustador. Já vimos cenas de cidades vazias em outros filmes, mas não como neste.

Sem explicação ou qualquer diálogo, entendemos que a experiência não deu certo e a vida na Terra foi extinta. Ou quase. Em questão de segundos, vemos o Mustang vermelho do Dr. Robert Neville (Will Smith) rasgando as ruas da cidade atrás de veados num alucinante safári urbano. É a melhor seqüência do filme, que evidencia que cinema é essencialmente uma arte visual. Antes de qualquer coisa.

Poucos minutos depois, o relógio do Dr. Neville alerta: o sol está se pondo. É hora de se trancar em casa, mas não sabemos qual é o motivo. Confinado dentro de uma banheira ao lado de sua fiel cadela Sam, Neville escuta gritos horrendos do lado de fora de sua casa. Som, imagem e nenhuma música. Assustador. Tudo começa de forma brilhante.

Nos dias seguintes, sabemos que Neville trabalha para encontrar uma vacina capaz de salvar a raça humana. Eu Sou a Lenda também traz flashbacks, que não mostram exatamente como o vírus destruiu a Humanidade, mas como Neville perdeu tudo. Essa é a história (ou a lenda) dele.

Feito com coração pelo diretor Francis Lawrence, o filme tem cenas de um terror genuíno há muito tempo esquecido por Hollywood. Em um de seus passeios diurnos por Nova York, Neville perde Sam de vista, quando a cadela invade uma espécie de armazém abandonado. Seu interior é a escuridão total. Tentando encontrá-la, Neville aponta sua arma para o breu. Ele não vê nada. Do que ele tem medo? A câmera de Francis Lawrence está sob o ombro de Neville. Vemos exatamente o que ele vê. De repente, ele tem uma visão de puro horror: uma horda de zumbis, vampiros, mutantes ou o que seja. Minha impressão é que eles estavam hibernando. A cena é ótima para criar o clima de medo.

Surpreendido por um dos bichos, Neville corre (com Sam) em direção à luz do sol. As criaturas não suportam a claridade. De acordo com as observações do cientista, descobrimos que esses monstros são seres humanos infectados pelo vírus. Os cães (e todos os animais) não pegam a doença pelo ar e o próprio Neville (como um milagre) é imune. Mas basta uma mordida para se juntar ao exército de zumbis.

Muitos criticaram a opção do diretor em criar os monstros digitalmente, mas acho que a concepção tornou os inimigos de Neville mais ágeis. Em algumas cenas, eles não emitem qualquer som ao correr. As criaturas de Eu Sou a Lenda podem bater a cabeça em vidro ou concreto, que não sentem dor alguma. Acho que os efeitos visuais contribuiram para explicar visualmente a ausência de humanidade nos monstros. É a terrível conseqüência do vírus.

São opções que reforçam a idéia de Robert Neville como o último humano na Terra. Enquanto tenta sobreviver ao longo do filme, ele também procura manter a sanidade para se concentrar na busca pela cura. É algo que só aumenta a sua loucura, afinal se Neville criar uma vacina, qual seria o seu plano para injetá-la nos monstros? Ok. Deixa pra lá. Ficção científica não é realidade.

A luta para manter a consciência do protagonista é um ponto bem trabalhado pela atuação de Will Smith. E a entrada da atriz brasileira Alice Braga na segunda metade é fundamental para evoluir esse desenvolvimento dramático do personagem. Ela acredita que foi enviada por Deus. Com a mente cansada e cada vez mais primata, Neville não acredita nela.

Essa idéia de inserir fé e religião em obras de ficção científica não é novidade de Eu Sou a Lenda. Essa mistura sempre fez parte dos grandes exemplares do gênero. A fé é o caminho para atingir o destino. Anna (Alice Braga) surge para mostrar a Neville, que eles não estão sozinhos no mundo. É uma mensagem de esperança pensar que ambos permaneceram vivos por uma razão.


Eu Sou a Lenda
segue muito bem ao equilibrar perfeitamente drama, terror, suspense, ficção científica e um pouco de ação. A história convence porque se concentra nos personagens e não nos efeitos visuais. Principalmente em sua primeira hora, Eu Sou a Lenda quase não apresenta diálogos. Como em Náufrago, de Robert Zemeckis. Nos tempos de hoje, isso é uma bela ousadia em filmes hollywoodianos.

Infelizmente, estamos falando da maior indústria do cinema. E Francis Lawrence, que se redimiu do fraco Constantine, foi obrigado pelo estúdio a filmar um final mais comercial para Eu Sou a Lenda. Os minutos finais não combinam com o clima do filme inteiro. Já li que Lawrence imaginou uma conclusão mais filosófica – algo que se aproximasse dos grandes filmes de ficção científica que marcaram o cinema. Enfim, o final que foi ao cinema é fraco. Nada memorável. É um erro que ameaça jogar Eu Sou a Lenda no ostracismo.

O que impressiona antes do final bobo é constatar que Francis Lawrence conduzia a terceira versão do livro de Richard Matheson como a melhor até aqui – as anteriores foram Mortos que Matam, com Vincent Price, e A Última Esperança da Terra, com Charlton Heston.

Com isso, Eu Sou a Lenda fica atrás de outros exemplares do gênero que exploram a devastação da Humanidade por um vírus. O Enigma de Andrômeda e Os Doze Macacos são dois exemplos. O segundo ainda se concentra na busca pela sanidade, um tema explorado em Eu Sou a Lenda.

Mas tomara que Francis Lawrence consiga lançar sua visão original em DVD. Seu filme não pode ser jogado no lixo por causa desse vírus chamado Hollywood. Apesar do final, Eu Sou a Lenda é bom cinema e tem (muitas) qualidades.

Eu Sou a Lenda (I Am Legend, 2007)
Direção: Francis Lawrence
Roteiro: Akiva Goldsman e Mark Protosevich (Adaptado do livro de Richard Matheson)
Elenco: Will Smith, Alice Braga, Charlie Tahan, Salli Richardson e Willow Smith

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