janeiro 26th, 2008

Juno

Quem me conhece, sabe o quanto eu ando cético e decepcionado em relação ao cinema atual. Quem me conhece, também sabe o quanto eu me encanto com filmes grandiosos, épicos… Justamente numa hora em que Hollywood e a maioria da crítica especializada tentam fabricar falsas obras-primas, o ótimo (e ainda novo) diretor Jason Reitman vem com esse Juno (Juno, 2007) e me deixa sem palavras. Minha fé no bom cinema está de volta.

Alguns filmes estão além de qualquer elogio ou palavra. Por mais que eu tente decifrar e explicar aqui os encantos proporcionados por Juno, isso significaria horas e horas de enrolação e não chegaríamos a lugar algum. Acho que basta dizer que o filme de Jason Reitman atingiu em cheio o meu coração. É isso. Estou apaixonado por Juno. Alguns filmes têm esse poder. Um endereço certo.

Há tempos que eu não vejo um filme tão honesto e sensível ao mesmo tempo sem se apresentar de forma debochada ou escrachada. Ou então na forma de um drama piegas ou seco. Juno é um equilíbrio perfeito de cinema – mais ou menos aquilo que muitos chamam de “filme inteligente” (termo que eu odeio).

Talvez o melhor elogio que possa ser feito a Juno é que o filme representa originalidade dentro de um tema tão batido, afinal já vimos vários filmes sobre garotas grávidas. Não foi a primeira e nem será a última vez. E quando parece que o cinema já contou todas as histórias originais, surge um Juno no meio de nós.

O roteiro da estreante Diablo Cody acompanha os nove meses da gravidez de Juno MacGuff (Ellen Page) e descobrimos como a entrada no mundo adulto é marcada por detalhes e não por obviedades. A idade chega para todos, mas a vida deve ser experimentada com uma coisa de cada vez. Acho que Juno (com seus 16 anos) é tratada como uma criança. Seu compromisso com a maturidade não é exatamente acelerado por causa da gravidez acidental. Por exemplo, esse sentimento pode ser explicado na cena em que a garota conta aos pais sobre a chegada da cegonha. O momento ainda representa (de forma muito discreta) como o filme busca novidade dentro do gênero. E consegue. A reação do pai (J.K. Simmons) e da madrasta (Allison Janney) é assustadoramente compreensiva e real.

Não há nada estereotipado em Juno. Nem mesmo o pai da criança, o garoto esquisitão Paulie Bleeker (Michael Cera). E nem Vanessa (Jennifer Garner) e Mark (Jason Bateman), os candidatos escolhidos por Juno como prováveis pais adotivos de seu filho. Não é estereótipo. Esses tipos existem de fato. É só procurar atentamente.

O diretor Jason Reitman e a roteirista Diablo Cody ainda são capazes de encher o filme de referências pop, que não deixam nenhum leigo perdido. Juno não é um playground particular de seus criadores. Cada piada com música, banda ou filme é colocada de uma maneira tão simples, que todos entendem. Imagino que os diálogos e as citações à cultura pop americana em Juno só podem agradar a gente como, por exemplo, Cameron Crowe e Quentin Tarantino.

O pop não está apenas nos diálogos, mas nas escolhas das cores na fotografia e nos figurinos. Há uma interessante fixação pelo vermelho e o amarelo em Juno – e não são apenas as cores da escola da protagonista. A história se passa durante quatro estações e começa pelo outono. Não sei se estou certo, mas fiquei com a impressão de que cada estação assume um tom de fotografia diferente. Uma delas é até azulada. É um filme urbano, mas desafiador tanto em sua linguagem quanto em seu visual. E o que dizer, então, da parte sonora? A trilha de Juno parece escolhida a dedo por Jason Reitman e corre o risco de entrar na sua cabeça e não sair mais.

Filho de Ivan Reitman, diretor de Os Caça-Fantasmas, Um Tira no Jardim da Infância e Irmãos Gêmeos, Jason constrói (aos poucos) uma carreira mais interessante que a do próprio pai. Até agora, ele também flertou com a comédia (Obrigado Por Fumar e Juno), mas ao contrário do pai, ele prefere contar histórias mais humanas.

Não poderia encerrar sem comentar a atuação de Ellen Page. Prestes a completar 21 anos, ela interpreta uma menina de 16. E convence com seu timing perfeito, que passa a sensação de inteligência e astúcia – revelando uma garota acima de sua idade. Mas, ao mesmo tempo, Ellen transmite uma imagem de criança. É o que Juno ainda é. Pode ser cedo para afirmar, mas penso que Ellen Page será uma grande atriz do cinema. Depois de Menina Má.Com e Juno, ela está no caminho certo.

Gostaria de comentar algumas passagens de Juno para explicar algumas coisas que eu senti. Mas não quero estragar a sua experiência de assistir a este filme que faz rir e chorar em cenas inesperadas. Ou seja, você sorri numa cena, enquanto o cara na poltrona ao lado segura a emoção. É algo raro. Posso citar a seqüência final, que é a minha favorita. É uma cena capaz de levar Juno com você para fora do cinema com o coração pegando fogo.

Juno (Juno, 2007)
Direção: Jason Reitman
Roteiro: Diablo Cody
Elenco: Ellen Page, Michael Cera, Jennifer Garner, Jason Bateman, J.K. Simmons, Allison Janney e Olivia Thirlby

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