fevereiro 2nd, 2008

Vacina contra o Oscar

Por Marcelo Burgos
Especial para o HOLLYWOODIANO

Ontem vi um filme que me lembrou que a tal da sétima arte pode ser (pasmem!) arte. Hollywood, como todo rolo compressor cultural, nos faz quase sempre esquecer a mais estimulante faceta do contrato artístico entre realizador/espectador: a originalidade. Quem faz o filme é um “olhador” privilegiado, que nos mostra que é possível ver de uma outra maneira, e revelar esta visão de maneira genial e iluminadora.

O filme em questão é 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias (4 Luni, 3 Saptamini si 2 Zile), do romeno Cristian Mungiu. Eu o assisti logo depois de ver os filmes do Will Smith e Denzel Washington (precisa dizer os diretores?). Só fica gritante como nos acostumamos a comer farinha enfeitada quando levamos à boca uma saborosa macarronada.

Não que os filmes citados não tenham cenas memoráveis (e não haveriam de ter, com seus orçamentos monstruosos e a infinita lista de créditos do final?), bonitas, interessantes, etc. Não que eles não nos passem emoção- é um medo “legendário” o que vivemos durante a projeção de Eu Sou a Lenda. Mas o filme romeno traz uma sutileza dificilmente vista no cinema recente. Como toda obra de arte, não é “sobre” um tema: é sobre si mesma e sobre a forma de narrar (vide a cena do jantar burguês, que substitui a ação que o público anseia verdadeiramente ver).

O filme é sobre nada e sobre tudo. É sobre a Romênia comunista, sobre a juventude, sobre a opressão, sobre o aborto, sobre a amizade. Como toda obra de arte que digna do nome, não se explica em uma sinopse, muito menos em uma crítica.

Veja várias vezes 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias e fique imune às próximas dez besteiras do Oscar. Depois repita a dose.

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