março 24th, 2008

As Crônicas de Spiderwick

Na crítica de Ponte Para Terabítia, eu escrevi que o filme era o melhor representante do gênero infantil em muito tempo. Mas talvez eu possa melhorar isso: acho que o filme pode ser colocado ao lado de Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban, Zathura e esse As Crônicas de Spiderwick (The Spiderwick Chronicles, 2008).

Assistir a adaptação da série de livros escrita por Tony DeTerlizzi e Holly Black gera uma agradável sensação de nostalgia para quem admirou aventuras infanto-juvenis dos anos 1980 como A História Sem Fim, Gremlins, Labirinto, Os Goonies e Viagem ao Mundo dos Sonhos. Se fosse daquela época de pequenos grandes filmes de fantasia, Spiderwick seria cultuado até hoje. Mas estamos nos tempos de grandes aventuras do gênero como O Senhor dos Anéis, Harry Potter, As Crônicas de Nárnia e A Bússola de Ouro. Por isso, imagino que o público-alvo atual não vai se emocionar tanto com Spiderwick. Enfim, parece um filme para quem veio dos anos 1980 ou é fã daquele cinema. A cena do vôo do grifo, inclusive, lembra uma cena maravilhosa de A História Sem Fim, porém, os mais novos terão Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban em mente. Captou?

Naquele tempo, roteiristas, produtores e diretores compensavam a falta de CGI com imaginação e criatividade. Os filmes citados acima mesclavam a realidade do cotidiano e a ficção com uma competência capaz de prender qualquer espectador na trama em seus primeiros 15 minutos. Felizmente, Spiderwick segue essa linha e lembra que o cinema para quem é (ou já foi) criança ainda é possível. São aspectos que deixam o filme anos-luz à frente dos recentes As Crônicas de Nárnia e, principalmente, A Bússola de Ouro, que se mostram deslumbrados com o próprio universo em questão e esquecem de oferecer credibilidade e inteligência. Em Spiderwick, a fantasia é real diante de nossos olhos.

Na verdade, vale lembrar que o filme não é para os pequenos. Como alguns exemplares do gênero da década de 1980, As Crônicas de Spiderwick não é infantilóide e traz cenas assustadoras e conceitos fortes para quem tem menos de 10 aninhos. Alguns adultos podem até mostrar uma certa preocupação numa cena específica perto do final. Só que monstros nasceram malvados mesmo e, ora bolas, vocês estão avisados.

Essa é a história da família Grace, que se muda para uma velha casa no meio do nada. Helen (Mary-Louise Parker) precisa cuidar dos filhos após o divórcio. Mallory (Sarah Bolger) e Simon (o menino-prodígio Freddie Highmore) lidam bem com a separação dos pais, mas Jared (também Freddie Highmore) está furioso e dificulta o relacionamento despedaçado da família. Cada vez mais isolado, o menino encontra um livro na casa e é aqui que o filme realmente começa.

O antigo morador da propriedade, Arthur Spiderwick (David Strathairn) descobriu um mundo de fadas, goblins, ninfas e outro seres fantásticos, que é invisível para a grande maioria dos homens. Arthur registrou as espécies e suas características no tal livro, que não pode cair em mãos erradas. Esse é o “anel” de As Crônicas de Spiderwick. Explicar a trama e o que faz o filme funcionar é perda de tempo. Basta saber que o trio mirim fará de tudo para proteger o livro de uns goblins infernais.

O diretor Mark Waters, de E Se Fosse Verdade e Meninas Malvadas, não arrisca nada de novo, mas conduz a aventura com muita paixão. Especialmente ao fazer uso da fantasia para analisar o relacionamento da família Grace, que é o ponto principal da trama – tudo gira em torno da figura invisível do pai ausente, algo recorrente no cinema de Steven Spielberg, que não tem qualquer ligação com este filme. É um conceito que está na construção de cada um dos personagens e direciona As Crônicas de Spiderwick para uma conclusão emocionante.

O filme pode não ser um E.T. – O Extraterrestre. E não é. Mas lembra muito o clima dos filmes citados lá no alto – muitos deles produzidos pelo próprio Spielberg, que deve ter gostado muito de As Crônicas de Spiderwick.

As Crônicas de Spiderwick (The Spiderwick Chronicles, 2008)
Direção: Mark Waters
Roteiro: Karey Kirkpatrick, David Berenbaum e John Sayles (Adaptado dos livros de Tony DeTerlizzi e Holly Black)
Elenco: Freddie Highmore, Sarah Bolger, Nick Nolte, Mary-Louise Parker, Joan Plowright e David Strathairn

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