março 31st, 2008

Cinco filmes subestimados

Recebi o seguinte convite (ou desafio) do meu amigo Wally Soares, do blog Cine Vita: selecionar cinco grandes filmes subestimados – seja pela crítica ou pelo público ou em premiações. Como a tarefa é complicada, eu resolvi me concentrar em cinco títulos que eu simplesmente cansei de tentar convencer algumas pessoas queridas de que estamos diante de filmes extraordinários. São exemplos recentes. Veja abaixo.


O Povo Contra Larry Flynt (1996), de Milos Forman

As atitudes de Larry Flynt (Woody Harrelson) assustaram muita gente. A sociedade ainda não aceita certos tabus e um homem desprezível (e de boca suja) não é exatamente o modelo que o povo quer seguir ou ver na luta por um bem maior – no caso deste filme, a liberdade de expressão. Para o inferno com o conservadorismo. E é disso que o diretor Milos Forman entende muito bem. Seus protagonistas enfrentam críticas e repressões de uma sociedade que ainda não alcançou seus raciocínios. No fim, o cinema de Forman está falando é de evolução política e social.


O Show de Truman (1998), de Peter Weir

Quem sou eu? Qual é a razão da minha existência? Quem é Deus? Para Truman Burbank (Jim Carrey), essas questões não dizem coisa alguma no lugar onde ele vive. Tudo o que ele viu, sentiu, tocou e pensou faz parte de um reality show de proporções megalomaníacas. Só ele não sabia disso. O cineasta Peter Weir faz Truman tocar o céu e conversar com o seu Criador para encontrar somente a si próprio. De certa forma, Weir imaginou o futuro da proposta estudada por Sidney Lumet, em Rede de Intrigas, de 1976. Vendo assim, O Show de Truman é um dos filmes mais assustadores feitos pelo cinema nos últimos anos. Não exatamente por criticar o conteúdo da televisão. Isso qualquer um faz. Mas por apontar o dedo para nós mesmos, que somos alienados e culpados pela atual situação da cultura.


Ronin (1998), de John Frankenheimer

Ronin é um dos melhores filmes de ação dos anos 1990, mas não é para as massas. Esse também foi um dos últimos grandes filmes estrelados por Robert De Niro. O diretor John Frankenheimer construiu uma trama de mercenários perseguindo uma valiosa maleta e sabe-se lá o motivo. Acho que grande parte do público quer descobrir o conteúdo da dita cuja, mas isso não importa. A maleta é um MacGuffin. O que realmente importa é a viagem. Ronin tem perseguições de carros e tiroteios, mas também tem roteiro e ótima direção. Aliás, Frankenheimer mostra como um filme deve ser montado. Ronin tinha tudo para chamar a atenção do público, mas a trama exige bastante atenção. Se esse foi o problema…

A.I. – Inteligência Artificial (2001), de Steven Spielberg

Quem diria que Steven Spielberg, diretor de grandes sucessos de bilheteria nas três décadas anteriores, não seria compreendido por seu público? A.I. foi idealizado por Stanley Kubrick, mas Steven tocou o projeto em homenagem ao saudoso amigo. Sei que adoram imaginar como A.I. teria sido nas mãos de Kubrick ou que Steven tentou ser Kubrick e por aí vai. Na verdade, o filme fala de amor incondicional e eterno. Neste caso, o amor de uma criança por sua mãe. Parece um conceito bobo para as platéias jovens munidas de adolescentes, que ainda não compreendem o que realmente significa o amor. A grande sacada de A.I. é concentrar todo esse sentimento numa criança que nem mesmo é humana – Dave (Haley Joel Osment) é um robô sem esse tal coração, mas que dedica sua existência ao que dizem ser o mais belo sentimento da Humanidade. A.I. é um dos melhores (e um dos mais tristes) filmes da década.

Guerra dos Mundos (2005), de Steven Spielberg

Muito tempo depois de retratar alienígenas como seres pacíficos (e pacifistas), Steven Spielberg fez essa nova versão do conto clássico de H.G. Wells. Numa época difícil e num ano em que Hollywood começou a atacar a América de Bush, Steven criou algumas das cenas mais assustadoras da década. O ataque inicial do Tripod alienígena é de um terror absurdo. Não sei como ele fez aquilo. Será que, em exibições-testes, o público ficou horrorizado? Sei que Steven tem as manhas e sabe manipular as emoções da platéia como poucos diretores conseguiram em toda a história do cinema. Neste novo Guerra dos Mundos, os críticos não notaram a intenção de Steven em filmar todo e qualquer acontecimento pelo ponto de vista do personagem de Tom Cruise – exceto pela cena em que ele venda os olhos de sua filha, que representa a platéia naquele momento. É um primor de narrativa. E, claro, Guerra dos Mundos tem efeitos visuais (e sonoros) perfeitos. O final não é explosivo? Bom, está no conto de Wells. Mas Steven cumpre seu exercício narrativo com maestria.

Agora, tenho que indicar outros cinco blogs para o mesmo desafio: comentar outros cinco filmes subestimados. Aqui vai: S.O.S. Hollywood (Fábio Barreto), Twentysomething (Rodrigo Fernandes), Crônica de Cinema (Marcelo Fonseca), Fina Ironia (Gustavo) e Pipoca com Manteiga (Victor Nassar).

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