março 4th, 2008

Rastros de Ódio

Você sabe identificar um filme perfeito? Então veja Rastros de Ódio (The Searchers, 1956) por uma, duas, três ou mais vezes. Em cada reprise, eu garanto que você descobrirá algo novo neste filme irretocável e genialmente pintado na tela pelo mestre John Ford. O segredo de Rastros de Ódio está nos detalhes. É como tentar decifrar um quadro considerado como obra-prima.

Rastros de Ódio é um dos filmes mais admirados e analisados do cinema após a revolução de Cidadão Kane até a chegada de inovadores como Spielberg, Scorsese, De Palma, Coppola e Lucas nos anos 70. Até mesmo Akira Kurosawa, que é considerado um dos cineastas mais influentes pela geração acima, revelou que estudou John Ford para fazer seus épicos.

Cenário marcante nos faroestes de Ford, a famosa região do Monument Valley preencheu os espaços entre o céu e a terra. Poucos cineastas sabem ocupar a tela de uma forma tão rica quanto Ford. Para começar, há uma seqüência magistralmente filmada pelo diretor em Rastros de Ódio. É quando a comitiva liderada por Ethan Edwards (John Wayne, em uma de suas maiores atuações) é acompanhada ao longe por índios. Raramente, você viu algo assim em outro filme. A profundidade do plano, a fotografia. É a perfeição em forma de cinema. Acho até que a abertura de Indiana Jones e a Última Cruzada (com os escoteiros cavalgando) foi inspirada nesta seqüência. E, claro, a fuga do DeLorean, em De Volta Para o Futuro – Parte III.

Essa riqueza e o domínio do diretor dos recursos de seu ofício, no entanto, geram momentos de extrema beleza em cenas menores que podem passar despercebidas ao público menos atento. Tudo começa na abertura clássica do filme quando Martha (Dorothy Jordan) abre a porta de sua casa. A câmera está localizada nas costas da atriz e segue seus movimentos. Ela abre a porta e saímos da escuridão do interior da casa para observarmos (junto com Martha) as cores e a luz do sol na paisagem do Oeste. Ao fundo, vemos o que ela vê naquele cenário gigantesco: seu cunhado Ethan Edwards voltando da Guerra Civil. Já em seus olhos, sabemos que ali reside uma paixão platônica, proibida.

Antes de prosseguir, acho que essa técnica foi inaugurada por Ford. Ou então, ele tornou isso perceptível e digno de estudo. Há uma cena assim em O Resgate do Soldado Ryan, por exemplo. Nela, a mãe dos soldados abre a porta de casa e vê os militares se aproximando para contar sobre a morte dos filhos na guerra. É como se Ford dirigisse aquela cena para Spielberg.

Voltando a Rastros de Ódio, quando Ethan entra na casa de seu irmão no início do filme, ele só tem olhos para Martha. Em momento algum, ambos dizem qualquer coisa que confirme esse amor. Mais uma vez: o detalhe. Logo depois, entra em cena o sobrinho postiço de Ethan, Martin Pawley (Jeffrey Hunter). O jovem tem origem índia e percebemos pelo olhar de Ethan – e por poucas palavras – o quanto ele odeia os Comanches.

Outra cena fantástica é a hora em que Ethan encontra duas meninas resgatadas do domínio dos índios. Uma delas começa a falar como Comanche. Eis um dos closes mais extraordinários do cinema. Ford era econômico em suas edições e em movimentos de câmera – daí a surpresa no exato momento em que a jovem fala e a lente de John Ford se aproxima rapidamente do rosto de Ethan para revelar todo o seu ódio somente por ter escutado a língua Comanche.

A trama gira em torno do seqüestro de Debbie, a sobrinha mais nova de Ethan levada pelos índios após um massacre na casa dos Edwards – um ataque jamais mostrado por Ford, que não deixou mais ninguém para contar a história. Nem mesmo Martha, sua grande paixão. Quando ele retorna de uma busca na companhia de Martin Pawley, ele vê a casa queimando. A cena inspirou George Lucas em Guerra nas Estrelas – Luke Skywalker (Mark Hamill) volta correndo para casa e encontra a propriedade em chamas com seus tios mortos pelo chão. Em Rastros de Ódio, a cena monumental ainda guarda uma pequena preciosidade: Martin quer ver o corpo da tia, mas Ethan não permite. Ele agarra o sobrinho e lhe desfere um soco daqueles para que o rapaz se acalme. O detalhe de novo: Ethan não está preocupado se o garoto deve lembrar da tia em vida. Ele não quer é que Martha seja vista naquelas condições.

São cenas e mais cenas, mas o que torna Rastros de Ódio ainda mais fascinante é que o filme foi feito numa época decadente do gênero. A renovação do western diminuiu a vilania dos índios. Muitos viram um herói matador de índios na figura de Ethan Edwards. Mas poucos entenderam como John Ford foi um homem a frente de seu tempo. Ethan não é um herói, afinal o mocinho não pode cultivar o racismo. Ali, Ford virou uma página do faroeste e ninguém se deu conta.

Enfim, acredito que a misteriosa personalidade de Ethan seja a alma de Rastros de Ódio. A busca por Debbie dura anos e anos. E ele precisa conviver com a companhia indesejada de Martin Pawley, que é meio-índio. Só que Pawley tenta manter o pingo de humanidade que ainda resta no tio. Ethan não sabe mais se Debbie ainda será aquela garotinha. Ele admite que pode até matá-la se a menina inevitavelmente pensar e atuar como uma índia. Pawley está ali para impedi-lo, mesmo que isso signifique atirar no tio. Mas se Ethan não mata sua sobrinha, talvez seja mais pelo amor da cunhada do que pela presença de Pawley. Não sei. É algo a ser desvendado em outras reprises de Rastros de Ódio.


Muita gente pensa que a figura branca do ator alemão Henry Brandon na pele do líder Comanche (Scar) é uma falha do filme. Mas veja bem: se os índios seqüestravam crianças para transformá-las em selvagens, Scar pode ter sido mais um entre as várias vítimas. Vejo essa ação dos índios como uma vingança por causa da guerra (ou massacre) que expandiu os EUA. Em Rastros de Ódio, os índios matam os pais e levam suas crianças para destruir a cultura e as crenças do homem branco.

Há, inclusive, no meio de tudo isso, uma sutil, mas poderosa discussão religiosa. Ethan sabe o que está em jogo. Repare na cena em que ele atira nos olhos de um índio morto. O Reverendo Clayton (Ward Bond) pergunta: “What good did that do ya?” E Ethan responde: “By what you preach… none. But, what that Comanche believes… ain’t got no eyes… can’t enter the spirit land… has to wander forever between the winds. You get it, Reverend.” Intolerância racial e disputas religiosas. John Ford foi um homem de visão.

O filme termina com aquela imagem emblemática de Ethan Edwards, que tem a porta fechada em sua cara. Esquecido e abandonado, será que ele entrará na casa? Ou dará as costas e se perderá no horizonte? Será que ele ficou envergonhado por sua decisão final? Quem é o verdadeiro Ethan Edwards? São perguntas discutidas em cada revisão deste clássico absoluto.

Rastros de Ódio tem uma das melhores fotografias do cinema, graças ao trabalho impecável de Winton C. Hoch, que emprestou a palavra “épico” ao filme. A trilha sonora inesquecível foi assinada por Max Steiner, uma das mais belas e tristes composições já feitas para um filme. A produção não recebeu indicações ao Oscar. O azar é todo da Academia. Aliás, acho que muitos ainda não reconhecem a importância de Rastros de Ódio. Como diria Ethan Edwards: “That’ll be the day.”

Rastros de Ódio (The Searchers, 1956)
Direção: John Ford
Roteiro: Frank S. Nugent (Adaptado do romance de Alan Le May)
Elenco: John Wayne, Jeffrey Hunter, Vera Miles, Ward Bond, Natalie Wood, John Qualen, Olive Carey, Henry Brandon e Hank Worden

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