abril 24th, 2008

Antes de Partir

Antes de Partir (The Bucket List, 2007) faz parte de um ciclo enganador planejado por Hollywood. Volta e meia, os estúdios criam certos “filmes do bem”, que enganam e conquistam o público em geral. Esse é um deles.

Muitas pessoas confundem tais produções com bons filmes, mas na verdade, estão longe disso. Esse fenômeno (ou praga) ocorre nos cinemas uma vez a cada um ou dois anos. São filmes com elencos caros e roteiros fracos, mas que acertam em cheio em algum ponto fraco emocional da Humanidade por tratarem de temas “do bem” e lembrarem que a vida é curta e precisa ser aproveitada intensamente. O público adora, mas os críticos detestam. Dois exemplos: Patch Adams e A Corrente do Bem.

Desta vez, o produto vem numa bela embalagem, afinal temos Jack Nicholson e Morgan Freeman. E o diretor é Rob Reiner, que fez Harry & Sally. Como os filmes citados acima, a intenção de Antes de Partir é boa. Mas de boas intenções, o inferninho do cinema está cheio. Um dos problemas de Rob Reiner é a sua mania de tentar repetir a leveza de Harry & Sally em filmes diferentes, quando seus melhores trabalhos foram produções fortes como Conta Comigo, Questão de Honra (também com Nicholson) e Louca Obsessão. Mas, infelizmente, ele quer ser o Rob Reiner do bem. Harry & Sally foi ótimo, principalmente naquela famosa cena que deixa os homens com medo. Mas vire a página, Sr. Reiner. Siga em frente.

E não é a trama de Antes de Partir que comparo a Harry & Sally, mas falo de sua leveza mesmo. Neste filme, Rob Reiner tratou um tema complicado, difícil (a morte) de forma leve. Essa é a história dos últimos dias de vida de Edward Cole (Jack Nicholson), o dono milionário de uma rede de hospitais, e do humilde mecânico Carter Chambers (Morgan Freeman). Graças ao dinheiro do ricaço, os pacientes em estado terminal viajam pelo mundo e aproveitam seus momentos finais.

Não sei o que o roteiro de Justin Zackham pretendia, mas nas mãos de Rob Reiner, Antes de Partir ganhou um tratamento esquizofrênico no equilíbrio entre drama e comédia. Seria injusto dizer, no entanto, que o diretor esbarra no sentimentalismo barato – até porque alguns momentos são até pesados ou sérios demais. E em outras partes, o filme conquista a atenção do público pelo bom humor de Jack Nicholson e Morgan Freeman. Mas o equilíbrio jamais é alcançado. De repente, no finzinho, vem aquela mensagem edificante (e óbvia) para cada um curtir sua vida da melhor maneira possível. Mas acho o recadinho meio falso, afinal Antes de Partir mostra que só quem tem dinheiro é capaz de morrer feliz.

Ainda assim, a trama cairia como uma luva para um cineasta como Frank Capra, que sempre manipulou as emoções de uma maneira suave, mas original, sincera. Só que Reiner não é Capra. E fala sério: se Antes de Partir não tivesse Jack Nicholson e Morgan Freeman, este seria um filme esquecível ou ignorado pela maioria dos cinéfilos. Aliás, peço desculpas, mas preciso citar Morgan Freeman como narrador oficial de Hollywood. O ator se tornou uma espécie de Cid Moreira americano. Seu vozeirão narra Um Sonho de Liberdade, Seven, Menina de Ouro, Guerra dos Mundos (Freeman nem aparece, mas sua voz sim) e Antes de Partir. Devo ter esquecido algum título, porque isso já virou clichê.

Maldades à parte, o fato é que nenhum filme protagonizado por Morgan Freeman e, principalmente, Jack Nicholson deveria ser reconhecido como uma experiência ruim ou decepcionante. Mas o desleixo de Rob Reiner é tão evidente em sua direção burocrática, que fica a impressão de que ele quis apenas realizar um desejo de vida: trabalhar novamente com o grande Jack Nicholson antes de partir.
Antes de Partir (The Bucket List, 2007)
Direção: Rob Reiner
Roteiro: Justin Zackham
Elenco: Jack Nicholson, Morgan Freeman, Sean Hayes, Beverly Todd e Rob Morrow

Posts