abril 28th, 2008

Os Reis da Rua

O que dizer de um filme que denuncia toda a sua trama em seus primeiros 10 ou 15 minutos? E quando esse filme tem atores do calibre de Forest Whitaker, vencedor do Oscar por O Último Rei da Escócia, e Hugh Laurie, duas vezes ganhador do Globo de Ouro? E que Hugh Laurie, o House em pessoa; pai de Stuart Little, aparece somente em meia dúzia de cenas? E isso só para dar espaço ao grande protagonista Keanu Reeves. Essa perda de tempo se chama Os Reis da Rua (Street Kings, 2008). Mesmo com Whitaker e Laurie no elenco, parece que o único nome a reinar em cena é o do Sr. Reeves, um ator limitado com o rei na barriga depois de Matrix.

Dirigido por David Ayer, roteirista de Dia de Treinamento, que estréia no ofício de cineasta, Os Reis da Rua – como o filme que deu o Oscar de Melhor Ator a Denzel Washington, em 2002 -, também é mais um filme sobre um tira honesto no meio de uma polícia corrupta. Apesar do polêmico banho de sangue promovido pelo policial Tom Ludlow (Reeves) para fazer justiça nos 10 minutos iniciais, não é preciso ser gênio para adivinhar que ele é o mocinho nesse ninho de cobras. Os abraços de urso e tapinhas nas costas do “herói” já dizem ao espectador como o filme vai acabar.

O problema é que a história engrena depois de meia hora de filme. Até a última cena, quando Ludlow soluciona o mistério envolvendo o assassinato de um ex-parceiro da lei, o diretor enrola e exagera na lentidão do desenvolvimento da trama como se houvesse alguma carta na manga; uma surpresinha só guardada para o pobre do espectador. Ledo engano. O final é exatamente aquele desenhado no começo do filme. Você sabe quem é bonzinho e quem é bandido. Sabe quem vai morrer e quem sobreviverá. Então, para quê tanta enrolação?


Os Reis da Rua é um desperdício de elenco e paciência. Em poucas cenas, Hugh Laurie aparece bem e Forest Whitaker dá um show, claro. Eles são ótimos. Mas todos estão ali para servirem ao grande Keanu Reeves, que se contenta em fazer cara de quem não dormiu à noite e tomou cachaça no café da manhã. Quer mais? Seu Tom Ludlow tem um trauma do passado a ser superado no decorrer da história. Quer mais clichê do que isso? Só adivinhando o final do filme logo no início.

E olha que Os Reis da Rua saiu da mente de James Ellroy, autor dos livros que originaram Los Angeles – Cidade Proibida, de Curtis Hanson, e Dália Negra, de Brian De Palma. Aqui, ele é um dos roteiristas. Lamentável. Diferente de Los Angeles – Cidade Proibida, Os Reis da Rua não é um trabalho estupendo em conjunto dos atores. Todos são apoios para Keanu Reeves. Só que o astro esqueceu que não está em Matrix, um filme que ninguém liga se ele é ou não é um bom ator.

O interessante no meio disso é lembrar que além de Dia de Treinamento, o cinema que David Ayer quer contar tem suas raízes em Serpico, clássico de Sidney Lumet. Mesmo com esse baita ponto de partida como referência, e com um elenco caro (e James Ellroy), o diretor conseguiu estragar tudo. Lógico que Ayer jamais faria um novo Serpico. Longe disso. Mas nem chegou aos pés de belos policiais modernos como o recente (e subestimado) Os Donos da Noite.

Os Reis da Rua é assistível, mas não engana ninguém, afinal o filme não chegaria a lugar algum sem nomes famosos iluminando o pôster. E o problema do roteiro não é lembrar outros filmes semelhantes, mas ser completamente óbvio. Ainda seria dessa forma se o mesmo script tivesse sido o primeiro a tratar do tema da corrupção na polícia. É como jantar aquele macarrão requentado do almoço de domingo não na segunda, mas na terça-feira.

Os Reis da Rua (Street Kings, 2008)
Direção: David Ayer
Roteiro: James Ellroy, Kurt Wimmer e Jamie Moss
Elenco: Keanu Reeves, Forest Whitaker, Hugh Laurie, Chris Evans, Martha Higareda e Cedric the Entertainer

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