abril 4th, 2008

The Rolling Stones – Shine a Light

Numa época em que fofocas sobre a vida pessoal das celebridades são tão importantes quanto suas obras, o diretor Martin Scorsese faz de The Rolling Stones – Shine a Light (Shine a Light, 2008) uma devolução ao artista daquilo que realmente deveria marcar sua imagem: a arte.

Se William Shakespeare fosse figura dos nossos tempos, por exemplo, o público estaria interessado em desvendar os segredos de sua vida pessoal. Shakespeare faria comercial de cueca e seria muito importante saber com que roupa (ou ao lado de quem) ele chegaria ao tapete vermelho de uma premiação ou estréia. Sua arte seria colocada em segundo plano. No caso da banda de 46 anos de estrada formada por Mick Jagger, Keith Richards, Ron Wood e Charlie Watts, a arte em questão é a música. Estamos diante de mitos. O próprio Scorsese é um mito.

Não importa que roupas eles usem ou que tipo de comida eles comem ou se gostam de homem ou mulher. É a arte que importa. São figuras públicas, mas acho que confundimos as coisas ao longo dos anos. Celebridades não deveriam misturar fama com vida pessoal. Em Shine a Light, Scorsese mostra que não interessa a opinião política da banda ou a preferência sexual ou se eles usam e abusam de drogas e bebidas. Enquanto não houver propaganda, o que importa é se eles vivem e divulgam a música.


Quem conhece o cinema de Marty, sabe o quanto ele é mestre ao selecionar as trilhas de seus filmes (especialmente com o rock). Como os Stones, nessa longa jornada, o cineasta vive, sente e respira música. Não me lembro se Marty usou alguma canção dos Stones antes de Caminhos Perigosos, mas Tell Me ilustra uma das mais alucinógenas cenas do filme estrelado por Harvey Keitel. É quando o protagonista termina uma confissão na igreja e, na seqüência, entra num bar de luzes vermelhas do Inferno.

Em Shine a Light, o diretor privilegia o mito dos Stones. Nada de verdades sobre suas rotinas fora dos palcos. Sabemos apenas poucos e bons devaneios a respeito do segredo para tantos anos de sucesso de uma das mais influentes bandas do rock. O artista e sua obra. É o ensinamento de Shine a Light.

A impressão inicial é que Marty apenas filmou um show – captando a energia insana de um espetáculo ao vivo, é verdade. Meus momentos favoritos: Buddy Guy e Mick Jagger mandando bem em Champagne & Reefer, e Keith Richards e um cigarro cantando You Got the Silver. Mas, aos poucos, com a intimidade das divertidas entrevistas antigas que intercalam as canções, Marty constrói um filme sobre tempo. Shine a Light mostra como preencher o tempo ou a vida simplesmente… vivendo. Os diálogos e toda a explicação para a longevidade dos Stones estão na música. Só música, cara. Só música.

The Rolling Stones – Shine a Light (Shine a Light, 2008)
Direção: Martin Scorsese
Elenco: Mick Jagger, Keith Richards, Ron Wood, Charlie Watts, Buddy Guy, Jack White, Christina Aguilera, Martin Scorsese e Bill Clinton

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