maio 29th, 2008

Garçonete

Para embarcar completamente na magia de Garçonete (Waitress, 2007), o público precisa entender que a proposta da diretora, atriz e roteirista Adrienne Shelly foi contar uma fábula feminista para o século XXI.

Já vimos esse filme antes e os clichês estão lá. Mas Adrienne teve uma certa vantagem: ela pôde discutir temas que anteriormente eram considerados como “tabus” em Hollywood e na sociedade (e alguns ainda são). Hoje, a mulherada manda no pedaço e não depende de ninguém para ter seu espaço. Mas não custa nada lembrar a algumas pessoas que é possível ser feliz nesta vida, afinal tem gente que precisa de um empurrãozinho.

O filme é feminista, mas tenha calma. Garçonete não é sério como Norma Rae ou Terra Fria. É uma fábula deliciosa que equilibra drama e um humor irônico com rara competência. E é o roteiro de Adrienne Shelly que dá uma sensação de frescor ou novidade a um tipo de filme que já vimos antes. Sua força está nos diálogos inesperados e inteligentes disparados por um ótimo elenco. Destaco, principalmente, a atuação de Keri “Felicity” Russell, a garçonete do título. Aliás, eu jamais pensei que Felicity fosse capaz de provocar risadas em mim e, ao mesmo tempo, fazer com que eu torcesse por ela contra os homens canalhas.

Ah, as mulheres… No mundo imaginado por Adrienne Shelly, que ainda interpreta a personagem Dawn no filme, o homem não é requisito básico para a felicidade da mulher. Para ser feliz, uma garota só precisa alcançar certos objetivos na vida como ter amigas, ser mãe (de preferência de uma menina) e, acima de tudo, ter bastante dinheiro para tocar o futuro como ela quiser. Os piores homens de Garçonete são violentos, machistas e burros. Os melhores homens são casados e traem suas esposas (perfeitas) com a maior cara de pau do mundo. O homem só ganha juízo quando está com o pé na cova – é a única hora em que ele é capaz de se arrepender das besteiras que fez durante a vida. Resumo da ópera: em Garçonete, homem não presta e dinheiro traz felicidade e independência. Isso é A Felicidade Se Compra.

Se o mundo fosse como Garçonete, nós homens estaríamos perdidos. Neste caso, tenho uma leve preferência pelas mulheres do universo de Sex and the City, que ainda consideram os homens necessários para “alguma coisa”. É o sinal dos tempos, rapaz…

Bom, como eu disse, a mulherada manda no pedaço atualmente. Mas, vocês mulheres, sabem que Garçonete é apenas ficção, não é mesmo? É uma fábula e um filme divertidíssimo. E é isso. Nada mais. Vocês sabem que os homens ainda são necessários. Ou não?

Obs: Essa pulga atrás da minha orelha é culpa de Adrienne Shelly, que fez um belo trabalho em Garçonete. Ela fará falta (para quem não sabe, Adrienne foi assassinada no ano passado). A vida real é uma droga e nem todas as tortas de verdade são gostosas.

Garçonete (Waitress, 2007)
Direção: Adrienne Shelly
Roteiro: Adrienne Shelly
Elenco: Keri Russell, Nathan Fillion, Cheryl Hines, Adrienne Shelly, Jeremy Sisto, Andy Griffith, Eddie Jemison e Lew Temple

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