junho 20th, 2008

Agente 86

“99… err… que tal eu e você num remake de ‘A Bomba que Desnuda’?”

Devo admitir que as comédias imbecis – falo de “paródia”, “besteirol” e “pastelão” – chegaram ao fundo do poço da criatividade. Hollywood perdeu esse dom. Não sei se é culpa do cinismo de nossos tempos, mas aquele tipo de filme capaz de fazer rir no cinema do início ao fim não existe mais. Pensando nisso, temi pela adaptação de uma das melhores séries da TV para a telona. Mas não é que Agente 86 (Get Smart, 2008), com Steve Carell no papel que foi de Don Adams, funciona que é uma beleza? Toda regra tem MESMO a sua exceção.

Na verdade, Agente 86 nunca foi um besteirol. Muito menos um pastelão. São coisas diferentes. Mas o humor da série surgia da personalidade naturalmente atrapalhada do agente Maxwell Smart, interpretado pelo saudoso Don Adams. Certamente que a série criada por Mel Brooks e Buck Henry aproveitou para fazer uma paródia dos filmes de espionagem e, principalmente, de James Bond. Era o auge da Guerra Fria, os anos 60. Mas é assim: imagine se 007 tropeçasse em suas missões ou caísse em buracos, mas resolvesse tudo no final sem saber muito como chegou vivo até lá. Isso é Agente 86. Uma comédia de ação e espionagem graças a Maxwell Smart. Graças a atuação de Don Adams, muitos confundem a série com besteirol. O que eu acho ótimo, afinal isso torna a criação do ator (e de Brooks e Henry) mais complexa e clássica.

Maxwell Smart, no entanto, deveria ter se aposentado no auge de seu carisma, mas Adams estrelou uma aventura do Agente 86 para o cinema em 1980. Trata-se de A Bomba que Desnuda, mas o longa não deu certo. Ainda tentaram ressuscitar o personagem no telefilme Agente 86 De Novo, mas era hora de parar.

Na atual crise criativa de Hollywood, adaptar Agente 86 para o cinema era questão de tempo. Só que mesmo com Mel Brooks e Buck Henry atuando como consultores, o filme de Peter Segal jamais teria ido para frente sem um protagonista que honrasse o trabalho de Don Adams. Mas os fãs podem respirar aliviados, pois Steve Carell dá conta do recado. Seu legado, obviamente, ainda não pode ser comparado às conquistas de Don Adams, que foi um gênio da comédia. Mas Carell está definitivamente no caminho certo. Com The Office na bagagem, Agente 86 pode aumentar ainda mais o prestígio do ator na indústria. E ele merece.

Felizmente, Steve Carell não imita Don Adams como Maxwell Smart. Com um timing perfeito, ele contribui na construção de um Agente 86 para a nossa época. Há o devido respeito com a obra original, algo que comentarei a seguir, mas as situações do roteiro, que atualizam os motivos do confronto entre as organizações secretas C.O.N.T.R.O.L. e K.A.O.S., e o humor de Carell jamais esquecem o cenário político e social do novo milênio. Aliás, todas as vezes em que o roteiro de Tom J. Astle e Matt Ember ameaça o filme com uma atenção exagerada e desnecessária ao excesso de coadjuvantes na trama, Steve Carell surge para salvar o dia com piadas excelentes capazes de deixar você rindo na poltrona do cinema, enquanto a cena seguinte já está rolando na tela. Steve Carell é o máximo. Ponto final.

Outra boa notícia para os fãs é ver como a parceira de Smart, a agente 99 (Barbara Feldon no original) ganhou uma atualização perfeita na pele de Anne Hathaway, uma das grandes apostas para o futuro de Hollywood. Isso que é estrela! Anne é boa atriz, carismática, linda, engraçada e sensual. Que mulher, senhoras e senhores! Sua presença na tela não é menos do que mágica. Outro ator teria ficado em segundo plano com Anne Hathaway iluminando as cenas. Carell, no entanto, não perde o jogo, afinal é um ator talentosíssimo. Mas a química entre os dois está perfeita. Isso é o que importa. Para cada ação de Steve Carell, temos uma reação de Anne Hathaway. E vice-versa. Ela também é o máximo. Ponto final.

Juntos, eles fazem de Agente 86 uma comédia imperdível. Tanto para os fãs da série quanto para quem jamais assistiu a qualquer episódio da saga de Maxwell Smart. O diretor Peter Segal até que se esforça ao recriar o clima da série para agradar aos fãs – e ele sabe das coisas, pois aprendeu com o trio ZAZ (David Zucker, Jim Abrahams e Jerry Zucker)*, quando assinou Corra que a Polícia Vem Aí 33 1/3. Além do humor inteligente, temos a abertura famosa com a clássica música de Irving Szathmary, o sapatofone, o cone do silêncio, a fala “Missed it by THAT much” e outras referências. Mas é por causa de Steve Carell e Anne Hathaway, que o filme merece os elogios e as risadas da platéia.

* O trio David Zucker, Jim Abrahams e Jerry Zucker assinou comédias como Apertem os Cintos, O Piloto Sumiu, Top Secret – Superconfidencial e Por Favor, Matem Minha Mulher. Mais tarde, David Zucker dirigiu os dois primeiros Corra que a Polícia Vem Aí, enquanto Peter Segal comandou o terceiro filme. Jim Abrahams assinou sozinho Top Gang 1 e 2. Em 1990, Jerry Zucker tentou algo diferente e dirigiu nada menos do que Ghost – Do Outro Lado da Vida.

Agente 86 (Get Smart, 2008)
Direção: Peter Segal
Roteiro: Tom J. Astle e Matt Ember (Baseado na série de Mel Brooks e Buck Henry)
Elenco: Steve Carell, Anne Hathaway, Dwayne Johnson, Alan Arkin, Terence Stamp, Masi Oka, Dalip Singh e Bill Murray

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