julho 23rd, 2008

Batman – O Cavaleiro das Trevas


Dentro de uma sociedade, em qualquer época, heróis e vilões ajudam a escrever a História. Homens loucos, gananciosos, corajosos ou perversos desenham cenários dignos de lendas ou mitos. Sempre foi assim. O que poucos param pra pensar é que o homem que se torna lenda é um sujeito de carne e osso, um fruto da sociedade na qual ele vive. Para quem ouve as histórias, no entanto, o que importa é somente a lenda. Ou o mito. Não interessa se o conto é inteiramente verdadeiro ou não. As pessoas precisam de lendas e mitos de heróis e vilões em suas vidas.

Para chegar nesta conclusão, o diretor Christopher Nolan fez de Batman – O Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight, 2008) não exatamente uma seqüência de Batman Begins, mas seu complemento. A primeira parte não deixa de ser um “filme de super-herói”, mas antes de Nolan reinventar o Homem-Morcego, o cinema jamais havia mostrado um filme do gênero com os pés no chão; dentro de nossa realidade.

Já em O Cavaleiro das Trevas, o diretor não teve medo da pressão e da cara feia dos fãs de um personagem adorado por gerações. Com o sucesso de Batman Begins, ele ganhou mais liberdade para tomar decisões e atravessou os limites da fórmula “filme-baseado-em-quadrinhos”. Se O Cavaleiro das Trevas pode ser definido por um gênero, não me diga que temos aqui mais um “filme de super-herói”. A estética visual e o conteúdo de O Cavaleiro das Trevas vêm do cinema brutal e político dos anos 70. Como conseqüência, Nolan fez um épico policial moderno e intimista com mocinhos e bandidos verossímeis, que reagem à violência e ao caos de seus tempos – mesmo que o tira em questão utilize uma fantasia de morcego.

Mas o gênero policial é apenas o território e a estrutura. O que Nolan quer dizer é algo muito maior. Em um típico “filme de super-herói”, como Homem-Aranha, Superman, Homem de Ferro e até Batman Begins, o herói triunfa sobre o ambiente desenvolvido pelas falhas do governo e suas conseqüências na sociedade. Com uma análise mais profunda do que podemos ver na Hollywood de hoje sobre as origens do bem e do mal, Chris Nolan vai além em sua alegoria política e social. No estudo proposto pelo diretor em O Cavaleiro das Trevas, heróis e vilões são derrotados. Todos perdem, mas o ambiente permanece. Resta o mito ou a lenda. As histórias vivem para sempre em contos, livros e canções. Para Chris Nolan, o bem não existe sem o mal. E vice-versa. Um completa o outro. Essa é a forte conexão entre o Batman e o Coringa.

Na mitologia de Gotham City, o herói ideal nasce do caos. Os criminosos atrás de dinheiro e poder não são páreos para o Batman. Mas como tudo é parte de um ciclo, o perfil do Coringa é o resultado inevitável e previsível da gênese do Homem-Morcego. Ambos nasceram do mesmo caos. Porém, a evolução do tipo de vilão rompe com qualquer regra ou objetivo. Com isso, o herói não consegue compreender seu inimigo. Então, como derrotá-lo? Adepto máximo da anarquia, o Coringa de Heath Ledger é um psicopata, um agente do caos. Ele quer mostrar que qualquer um é capaz de roubar, matar, mentir ou agredir quando a lei e a ordem desaparecem. Infelizmente, não importa se você concorda ou não, o Coringa tem razão. Ou, pelo menos, Heath Ledger prova que sim.

Para pegar o Coringa, que inspira o mal e a histeria coletiva, o incorruptível Batman questiona se ele deverá quebrar as regras do jogo. Antes de chegar neste ponto, o herói pensa em se aposentar e acredita que a esperança de Gotham reside na figura do promotor Harvey Dent (Aaron Eckhart), um justiceiro que, ao contrário dele, mostra seu verdadeiro rosto ao povo. Mas numa sociedade à beira do caos, como diz o promotor a Bruce Wayne/Batman (Christian Bale), “ou você morre como um herói, ou vive tempo suficiente para se tornar o vilão.” Por isso, Harvey Dent é o mediador de todos os conflitos do filme – o bem e o mal, a ordem e a anarquia, Batman e o Coringa.

Dentro desta análise aparentemente louca, a base do roteiro de Christopher Nolan (e seu irmão Jonathan Nolan) não é o Batman clássico dos quadrinhos. Para chegar à conclusão de que tudo passa, mas a lenda permanece, O Cavaleiro das Trevas desconstrói heróis e vilões de forma niilista num filme policial violento cheio de camadas complexas e surpreendentes – algumas visíveis aos olhos do espectador, enquanto outras nem tanto.

Pensando assim, seria injusto com Aaron Eckhart se todos falassem somente da atuação “possuída” de Heath Ledger, que desaparece para dar lugar ao Coringa. Seria injusto com Gary Oldman, perfeito como o contido e correto Comissário Gordon. É ele quem “vive” para contar a história e divulgar a lenda. Seria injusto com o ótimo trabalho de direção de Chris Nolan – ele é talentoso ao orquestrar ação, tensão, drama e diálogos memoráveis, além de ser extremamente competente na hora de arrancar o máximo de seus atores. Nolan também lembra como a trilha sonora é importante num filme. Composta por James Newton Howard e Hans Zimmer, a música é aproveitada de maneira clássica pelo diretor – ela empolga nas atitudes heróicas do Batman, emociona quando o drama é exigido e coloca os nervos da platéia à flor da pele com um ruído irritante que antecipa a entrada do Coringa em cena. O Palhaço do Crime está magnífico, você sabe, porém o mais impressionante, ao compreender as intenções do filme, é constatar que a atuação de Heath Ledger é apenas parte de um plano comandado pelo diretor.

No fim, Batman Begins e O Cavaleiro das Trevas formam um filme completo. Vejo a saga do Batman de Chris Nolan como um ciclo. Muita gente espera que o final emocionante, poético e inesperado seja reduzido a um gancho perfeito para a terceira parte. Ela deverá existir, claro, mas temo pelo futuro da série. Colocar Batman contra o Pingüim ou a Mulher-Gato pode deixar a inevitável continuação um tanto repetitiva. Nolan mostrou que Batman é conseqüência do caos. Assim como o Coringa, que veio em seguida para provar ao herói que o bem e o mal são apenas pontos de vista diferentes. O próprio Coringa diz ao Batman que ambos estão destinados a uma luta eterna. Então, a mensagem já foi passada. Não há razão para continuar uma série que chegou ao topo da genialidade artística.

Para terminar, um grande filme não se prende a um gênero só, mas se você insiste que Christopher Nolan fez mais um “filme de super-herói”, então existe o “antes” e o “depois” de O Cavaleiro das Trevas.

Batman – O Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight, 2008)
Direção: Christopher Nolan
Roteiro: Jonathan Nolan e Christopher Nolan (Baseado nos personagens criados por Bob Kane)
Elenco: Christian Bale, Heath Ledger, Aaron Eckhart, Gary Oldman, Maggie Gyllenhaal, Morgan Freeman, Michael Caine e Eric Roberts

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