agosto 20th, 2008

O Método Kurt Russell de Atuação

Nos anos 80 (e início dos 90), Arnold Schwarzenegger e Sylvester Stallone fizeram história no cinema de ação brucutu. Como nada se cria (e eles não foram exatamente os primeiros músculos sem cérebro em Hollywood), wannabes como Chuck Norris e Jean-Claude Van Damme fizeram o mesmo check-in básico e ainda tentaram sentar na janelinha. Nada contra, já que a rica história do cinema está repleta de molambos sem antecedentes que alcançaram a penthouse do templo de Zeus antes que qualquer mortal fosse capaz de fazer tal previsão. O próprio Mr. Chuck Norris conquistou um inexplicável e imenso fã clube depois de pendurar as chuteiras. Parece brincadeira, mas o Braddock em pessoa tem uma legião de seguidores tão ampla quanto as comunidades que idolatram Che Guevara e o Seu Madruga.

Enfim, muitos gostam de chamá-los de canastrões. Acho um termo feio, baixo, mas compreensível na percepção da boca pra fora de adoradores de Godard e Visconti. Embora sejam da mesma Era, Bruce Willis e Mel Gibson estão em outro patamar – você sabe, lá no fundo, que a comparação não é justa se analizada friamente. Então, entre Schwarza, Sly, Van Damme e Norris, havia um nome que compreendia as raízes da canastrice e usava esta técnica a seu favor.

Enquanto seus colegas atuavam no piloto automático, Kurt Russell entregou um padrão distinto de todos os demais e, ainda assim, parecia estar subordinado aos mesmos momentos de inspiração minimalista, por assim dizer, dos amigos nascidos do boom das academias oitentistas – não é que os ditos canastrões tenham surgido naquela época, mas a década de 80 tornou evidente e popular um tipo de atuação de forma realista com desempenhos que alternam entre o razoável e o meramente preciso. No caso de Kurt Russell, não por falta de talento, mas por pura técnica. Bom, esqueçam o termo “canastrão”. Não usarei mais tamanha palavra infame neste texto.

Gringo, porém com alma de mineiro, Kurt Russell foi pelas beiradas e se destacou como ator entre os colegas famosos e milionários das fitas de ação ao empregar um naturalismo materializado dramaticamente em questões morais e cotidianas na eterna busca pela expressividade realista – de maneira bem simples na prática, mas de complexo desenvolvimento. Não estou falando, claro, de uma inovação na arte dramática, mas enquanto Sly & Cia. pagavam o alto preço da fama sendo aprisionados dentro do gênero de ação, Kurt Russell pôde variar sem passar vergonha – o que é mais uma prova de seu talento.

Você pode lembrar de seu Snake Plissken, um dos personagens mais fascinantes do cinema, no clássico Fuga de Nova York (e na seqüência legal, mas inferior Fuga de Los Angeles), como um cara de, digamos assim, poucas palavras. Mas o fato é que o ator encontrou o tom exato de seu personagem. Snake é um anti-herói num mundo sem regras. Lá, o negócio é matar ou morrer. Ou seja, não há tempo para expressões sentimentais maiores do que a vida. Snake é um produto do ambiente hostil criado pelo diretor John Carpenter, portanto, não confundam a atuação de Russell com um poste sem expressão.

Diferente de Sly & Cia., o ator se deu muito bem na vida familiar. Acho que é um suporte e tanto para uma carreira tão visada, pois a ausência da família pode levar astros e estrelas direto para a estrada da perdição de Hollywood. Desde 1983, Kurt Russell vive com Goldie Hawn, uma das gatas do cinemão dos anos 70 e 80. Além disso, ele ajudou a educar a filha de Goldie, a gatíssima Kate Hudson. Nada mal.

O apoio da família bonita só contribuiu para o caminho do ator. Com um método de atuação definido, como eu disse, Russell pôde variar sem medo de ser feliz. Diretores e produtores respeitados como Robert Zemeckis, Mike Nichols, Robert Towne, Ron Howard, Cameron Crowe e Quentin Tarantino contaram com seus serviços. E não é fácil ter essas referências no currículo.

Quando fez ação, Russell marcou época na parceria com John Carpenter. Na verdade, os filmes estão mais para ficção científica, fantasia e terror. São eles: Fuga de Nova York, O Enigma de Outro Mundo e Os Aventureiros do Bairro Proibido, um clássico da Sessão da Tarde. Diferente de Schwarza e Sly, Russell pôde fazer comédia sem levar pedradas da crítica e pagar mico diante de seus fãs. O astro esteve em filmes como Super Escola de Heróis e Capitão Ron – O Louco Lobo dos Mares, mas ninguém reclamou. Pelo contrário, o público se divertiu vendo Russell se divertindo.

O astro também deu certo em thrillers como Breakdown, que apesar de seguir descaradamente a proposta de Encurralado, o primeiro filme de Steven Spielberg, revelou o diretor Jonathan Mostow, de U-571 e O Exterminador do Futuro 3. Russell também teve força para peitar Mel Gibson e Michelle Pfeiffer em Conspiração Tequila, além de salvar a pátria de produções fracas como Momento Crítico. Só não conseguiu salvar aquele 3.000 Milhas Para o Inferno, com Kevin Costner. Mas aí seria pedir demais.

Isso tem nome certo e é carisma. Isso é o Método Kurt Russell de Atuação. Seu legado foi compreendido e as gerações seguintes só precisaram evoluir o que já estava pronto. Pode procurar, mas há algo de Kurt Russell em atores da moda como Gerard Butler, Hugh Jackman, Josh Holloway (um Kurt Russell loiro) e até mesmo Russell Crowe. Todos eles gostam de Snake Plissken. Todos já viram Tango & Cash pelo menos uma vez na vida. As técnicas dramáticas de Stallone, Schwarzenegger e Van Damme (quase esqueci de citar Mr. Steven Seagal) podem ter seus detratores. Mas todos são fãs de Kurt Russell.

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