outubro 2nd, 2008

Ensaio Sobre a Cegueira

Ensaio Sobre a Cegueira (Blindness, 2008), a jornada cinematográfica de Fernando Meirelles pela cultuada obra literária de José Saramago anda dividindo opiniões. Isso é totalmente compreensível, afinal estamos falando de um trabalho forte, pesado, visceral, que não admite espectador de estômago fraco.

O filme e o livro narram as conseqüências de uma epidemia de cegueira que se espalha pelo mundo. E o que acontece quando todos perdem a visão? O ser humano encontra o caos e vive na merda – não, não é no sentido figurado. É como a história do “homem invisível”: aquele que não consegue ver o reflexo do próprio rosto no espelho caminha para a perda total de sua Humanidade. Conseqüentemente, o indivíduo é capaz de cometer atos horríveis. E quem ainda consegue enxergar, acha que tem o poder, o controle da situação e abusa (ir)racionalmente dos mais fracos. A única personagem capaz de ver – é o que a história diz, mas pode até ser que existam outras pessoas na mesma condição – é a mulher interpretada por Julianne Moore. Eu disse “mulher” porque Ensaio Sobre a Cegueira não têm personagens com nomes. Mas volto a falar sobre Julianne Moore mais tarde.

O que José Saramago quis discutir em seu livro não foi a sobrevivência em um mundo pós-apocalíptico dominado por monstros, zumbis e outras coisas feias. Isso não é ficção científica, fantasia ou terror. A idéia básica de Ensaio Sobre a Cegueira é estudar e comparar o comportamento de indivíduos e pequenos grupos como representações de uma sociedade que, aos poucos, criam e organizam suas próprias regras – seja para buscar a paz ou a discórdia.

O curioso no cinema recente é constatar que o tema anda em evidência. Foi assim em O Nevoeiro, de Frank Darabont, que é uma fantasia, e até nas motivações do Coringa, em Batman – O Cavaleiro das Trevas. Por linhas tortas, o vilão interpretado por Heath Ledger no filmaço de Christopher Nolan propõe seu Ensaio Sobre a Cegueira particular. Só que diferente de O Cavaleiro das Trevas e O Nevoeiro, Fernando Meirelles foge de qualquer emoção. Seu filme é frio e sem espaço para reflexões.

Talvez você tenha tempo para pensar profundamente no que viu (ou não) somente após os créditos finais. Mas durante o filme, Meirelles quer que você entre de cabeça nesta experiência visual e visceral. O problema é que toda a discussão social termina reduzida aos caprichos da câmera do diretor. A impressão é que ele quer ser mais importante que a trama. Ok. É até interessante “ver” a cegueira graças ao trabalho estupendo do cinematógrafo César Charlone, mas Fernando Meirelles está tão preocupado em fazer o espectador “sentir” a cegueira, que ele se esquece de desenvolver alguns personagens e explicar seus atos. Aliás, chocar e manter a atenção do público com uma narrativa presa à imagem, música e som não é para qualquer um. Meirelles não é Kubrick. Em Ensaio Sobre a Cegueira também falta a confiança do diretor na inteligência e na percepção da platéia, que pode muito bem interpretar um filme sem a ajuda infeliz da narração em off. O público deve julgar a obra e não o seu diretor.

Resta o poder em cena da extraordinária Julianne Moore, que carrega o filme nas costas com uma carga emocional que simplesmente não brota da câmera de Fernando Meirelles. Pena que nem mesmo sua personagem é desenvolvida de forma justa. Mas o que ela é? Uma santa moderna? Eu vi assim. Ou só assim para ela perdoar e ficar amiga da mulher que transou com seu marido já sem qualquer traço de Humanidade.

É claro que Ensaio Sobre a Cegueira é um filme obrigatório e uma experiência cinematográfica diferente, rara. Mas acho que Meirelles se preocupou demais em ser fiel ao livro – ele parece preso às páginas de Saramago. Está certo que o diretor encerra o filme antes do final original, mas não é disso que estou falando. O livro deve ser a base e não a cola para o aluno tirar nota boa na prova. E não adianta nada fazer gracinha com a câmera.

Não posso encerrar sem comentar as locações de Ensaio Sobre a Cegueira. Rodado em São Paulo, Montevidéu e sei lá mais onde, o filme fala praticamente um idioma: o inglês. Em tempos de produções como Cartas de Iwo Jima, por exemplo, juro que não consegui entender a opção de Meirelles pela salada globalizada sem o mínimo de tempero. Além disso, todos os lugares fazem parte de uma única cidade. Você anda pelo Minhocão, em São Paulo, e sai numa rua de outro país sem mais nem menos. Ok, ok, para os cegos é tudo igual e isso não passa de uma metáfora, etc, etc. É claro que os lugares não são contextualizados, mas teve neguinho que reclamou da mesma brincadeira feita por Steven Spielberg em Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal, não foi? Ou em outros mil filmes americanos que não respeitam ou ignoram as fronteiras do resto do mundo. Quer dizer, então, que em produção comercial ianque, isso não pode acontecer? Mas quando o mesmo ocorre num “filme sério”, aí tudo bem? Que demagogia, minha gente…

Sem chororô, mas esse Ensaio Sobre a Cegueira não é tudo isso que andam dizendo. Você pode até defender: “Ah, mas o próprio José Saramago chorou quando viu o filme!” Bom, você sabia que o grande Frank Capra, quando já estava bem velhinho, elogiou Rocky – Um Lutador? Pois é. O pior cego é aquele que não quer enxergar.

Ensaio Sobre a Cegueira (Blindness, 2008)
Direção: Fernando Meirelles
Roteiro: Don McKellar (Baseado no livro de José Saramago)
Elenco: Julianne Moore, Mark Ruffalo, Alice Braga, Danny Glover, Gael García Bernal, Sandra Oh, Don McKellar, Maury Chaykin, Yusuke Yseya e Yoshino Kimura

Posts