outubro 17th, 2008

O Fim das Trilogias e o Renascimento das Cinesséries

Por Otavio Almeida e Fábio M. Barreto*

Começo, meio e fim. Introdução, desenvolvimento e conclusão. Nascimento, vida e morte. A idéia de contar uma só história em três partes obviamente não saiu da cabeça de Hollywood, mas o conceito teve início no cinema graças à ambição de Francis Ford Coppola em fazer de O Poderoso Chefão I e II praticamente um filme só num intervalo de apenas dois anos de produção durante a década de 70. Naquela época, a Parte III da saga dos Corleones nem estava nos planos do diretor, porém, um de seus amigos, George Lucas, aproveitou o amadurecimento dos estúdios em relação à idéia para fazer uma aposta ousada.

Antes de continuar a análise, é bom explicar: As cinesséries já existiam, claro, como 007 e Dirty Harry, assim como as seqüências (Operação França II). Mas não estamos falando de continuações. Falamos de trilogias – três filmes para contar apenas uma história. Na verdade, uma saga em três partes, que só se completa no terceiro e último ato. Estamos entendidos? Então vamos lá.

Lógico que a grana faturada pelo Guerra nas Estrelas, de 1977, ajudou George Lucas em seu caminho. Steven Spielberg, que dirigiu Os Caçadores da Arca Perdida logo depois, com produção de Lucas, começou a moldar as três aventuras clássicas de Indiana Jones nos anos 80. Mas cada filme de Indy tem sua própria história. Um não depende necessariamente do outro, mas os marketeiros dentro e fora de Hollywood, fãs e não-fãs, chamaram Indiana Jones de “trilogia” assim mesmo. Era um termo cool para ganhar uma boa grana em cima do produto. Mas trilogia mesmo, depois de Guerra nas Estrelas, foi De Volta Para o Futuro, com direção de Robert Zemeckis e produção de Spielberg (olha ele de novo). As aventuras no tempo de Marty McFly (Michael J. Fox) foram pensadas por Spielberg, Zemeckis e o roteirista Bob Gale em três filmes (começo, meio e fim). Mas como a idéia ainda era ousada demais, todo e qualquer estúdio precisava avaliar o retorno financeiro nas bilheterias para pensar no desenvolvimento de uma cinessérie. Ou uma trilogia. Hoje, nem isso importa mais. Todo mundo já assina contrato para possíveis três (ou mil) filmes.


Como o mercado mudou, assim como as exigências do público (e a falta de criatividade de Hollywood), as últimas trilogias do cinema que honraram o conceito original foram O Poderoso Chefão, Matrix e O Senhor dos Anéis. Err… Será que Austin Powers entra nessa? E Mad Max? Ah, deixa pra lá. Mas até a Trilogia Bourne, que foi concluída brilhantemente por Paul Greengrass deve ganhar um quarto filme em breve. Hollywood nem quer saber mais se Bourne foi baseado em “somente” três livros de Robert Ludlum. Até Piratas do Caribe, que fechou a saga iniciada em A Maldição do Pérola Negra, já tem um quarto episódio engatilhado.

Agora, veja outros exemplos de cinesséries em três partes e não exatamente trilogias fechadas que continuaram: O diretor Sam Raimi já confirmou Homem-Aranha 4 e 5, Duro de Matar já está na quarta parte, Indiana Jones encontrou a caveira de cristal, Rambo voltou a matar, e O Exterminador do Futuro, que nem era pra ter chegado ao 3, já ganhou um 4. Tudo isso, sem citar as “reinvenções”. James Bond recomeçou suas aventuras como uma espécie de Jason Bourne loiro na pele de Daniel Craig, em Cassino Royale e Quantum of Solace, enquanto o Homem-Morcego arrebentou nas mãos do diretor Christopher Nolan, em Batman Begins e O Cavaleiro das Trevas (alguém duvida que a terceira parte será feita?).

Ironicamente, a culpa (ou não) do fim das trilogias, mas ao mesmo tempo do renascimento das cinesséries (reinventadas ou não), cai nas costas do Sr. George Lucas – como nas trilogias, mitologias, enfim, Hollywood também é um ciclo. O cineasta voltou no tempo para contar a saga de Darth Vader e a indústria cinematográfica entendeu que prequels de grandes sucessos também significavam dinheiro no bolso.


E um dos gêneros que entrou na dança foi o terror, ao contar o que aconteceu cronologicamente antes de clássicos como O Exorcista e O Massacre da Serra Elétrica. Com o sucesso de Jogos Mortais, que já alcança seu quinto episódio e só deve parar lá pelo número 33, o importante agora não é mais a condução narrativa, mas sim as novidades em termos de mortes e sadismo.

Mas a verdade é que a opção pelas prequels é normalmente ruim para a nova geração de cinéfilos, uma vez que muito da força de personagens impactantes como Darth Vader ou o Padre Merrin se perde durante a “reconstrução”. Convenhamos, ninguém precisa saber como foi o primeiro dia de trabalho de Norman Bates em seu motel. Mas conhecendo Hollywood, nada é impossível.

Voltando ao culpado por tudo isso, levando em conta a batida influência de Joseph Campbell (escritor-referência em mitologia) na criação de George Lucas, não foi dali que saiu a idéia para os três filmes originais de Star Wars – o fã mais radical vai defender o roteiro gigantesco que renderia nove filmes, mas que foi reduzido para seis (o resultado final depois de 30 anos) e que começou pelo meio, no Episódio IV. Entendeu?

Bom, tudo isso está certo, mas a estrutura dessa primeira trilogia tem um pezinho nos livros de J.R.R. Tolkien e seu O Senhor dos Anéis, que fornece um dos melhores guias para se contar uma história em três atos, incluindo dilemas de personagens, virada de mesa a favor dos caras maus no segundo episódio e um renascimento milagroso para salvar o dia na parte final. Isso só mostra que o pensamento em três episódios estava por ali quando Lucas criou seu filho predileto.


O investimento maciço nas cinesséries acaba sendo a evolução natural para o sucesso das trilogias nos anos 80, uma vez que a nova realidade das bilheterias (que faz Hollywood ser a única indústria do mundo não afetada pela crise econômica) e a experiência com o mercado de home entertainment, fazem com que uma série de filmes com investimentos normalmente menores a cada novo episódio, garanta bom retorno financeiro primeiro nos cinemas e depois no lançamento direto para DVD. Voltemos, então, a citar exemplos como A Profecia, que já tem cinco filmes em seu acervo, isso sem contar os intermináveis Sexta-Feira 13 e A Hora do Pesadelo. E será que o Harry Potter do cinema termina mesmo no sétimo filme? Ops, a Warner já decidiu dividir o episódio final em dois filmes. Ou seja, não interessa se a fonte original, a autora J.K. Rowling, escreveu “apenas” sete livros.

Tudo isso expõe dois sintomas claros: Hollywood está mesmo passando por uma crise criativa, que se arrasta há dez anos, e há muito medo entre os executivos na hora de ousar. Ninguém é imbatível ali – vide os irmãos Wachowski que emplacaram Matrix, a última grande trilogia original, ousaram em Speed Racer e o filme ficou aquém do esperado. Esse temor existe quando é necessário criar algo, mas quando se tratam de continuações, com públicos definidos (como no caso de Jason Bourne, um personagem que deu certo) e sucesso garantido, tudo pode acontecer. E quando alguma coisa funciona, a overdose é inevitável.


Essa overdose pode vir com efeitos negativos em alguns casos. Vejamos o terceiro filme da “trilogia” da Múmia, com Brendan Fraser. As aspas tem função aqui, pois embora três filmes principais componham a série, há o spinoff do Escorpião Rei, além de um desenho animado envolvido na brincadeira. Dez anos separam o primeiro filme de sua conclusão em A Múmia – Tumba do Imperador Dragão, que perdeu uma das principais chaves da série: Rachel Weisz, substituída após dispensar o papel. Mas o diretor picareta Rob Cohen alega que precisava de alguém mais sexy. Ok. De qualquer forma, Rick O’Connell (Fraser) é um bom herói de ação, mas cinematograficamente não oferece novidade. Como as bilheterias são boas, algum engravatado de Hollywood grita: “Oba, vamos aproveitar ao máximo!”

Mas o sinal de cansaço afeta até mesmo o herói. Em entrevista recente, Brendan Fraser confessou um certo cansaço e demonstrou incerteza a respeito de um quarto filme. “John Hannah poderia ir para a América do Sul sozinho, talvez”, disse por conta da sugestão feita pelo comediante inglês.


No meio de tudo isso, temos crossovers (Alien Vs. Predador, Freddy Vs. Jason), remakes, além de um excesso de adaptações de livros, quadrinhos (como Hellboy, que deve virar trilogia), séries de TV, games, e os já citados spinoffs (Wolverine, Elektra, Escorpião Rei) e reinvenções. Vale tudo para criar uma cinessérie lucrativa. Reinventaram Bond, Batman, recuperaram a imagem do Hulk com o último filme da Universal e agora é a hora de recomeçar Star Trek. Na 11ª aventura da cinessérie, JJ Abrams entra na dança e reinventa a origem de James T. Kirk, Spock e Cia. (embora essa história nunca tenha ido parar no cinema, a origem da lendária Enterprise já foi tema da série de TV, que não foi muito bem, aliás). Muito mistério cerca o lançamento do filme, que já foi adiado uma vez, mas se Abrams conseguir recuperar o respeito de Star Trek, há muito marcada por filmes similares a longos episódios, podemos ter certeza de que a franquia renascerá e, pelo menos, mais dois filmes com essa mesma “tripulação” serão encomendados.

Como você já sabe, Hollywood é um ciclo. Para conquistar diferentes gerações, a indústria tenta se manter e prosperar ao longo dos anos se reinventando algumas vezes e se repetindo de tempos em tempos. Depende de cada época e da necessidade de cada geração. Assim caminha a Humanidade.


*Vocês já sabem quem eu sou, mas Fábio M. Barreto é meu amigo e jornalista correspondente em Los Angeles. Ele escreve para a revista Sci-Fi News e tem um blog, o S.O.S. Hollywood. E esclarecendo as aspas de Brendan Fraser neste texto, o ator foi entrevistado pelo Fábio na divulgação de “Coração de Tinta”, que estréia em janeiro.

Posts