outubro 28th, 2008

Queime Depois de Ler

32ª Mostra Internacional de Cinema

Demorou um pouco, mas eu não levo mais o cinema dos Irmãos Coen a sério. Deixe-me explicar melhor: Eles dominam a linguagem cinematográfica e são abastados intelectualmente, mas não chamo a filmografia dos Coen de “cinema sério”. Também não sou da turma que considera Onde os Fracos Não Têm Vez, Fargo e Gosto de Sangue como trabalhos maduros dos irmãos cineastas mais loucos da História. Para mim, os sensacionais Joel e Ethan Coen desafiam o público que se acha esperto acima da média com um humor negro inteligente, irônico, imprevisível. E pelo jeito desencanado de Joel e Ethan no último Oscar, e por Queime Depois de Ler (Burn After Reading, 2008), o filme seguinte da dupla ao prêmio da Academia, eles querem mesmo é rir da nossa cara.

Tem gente que não vê isso, mas os Coen também querem avacalhar o cinemão. As homenagens aos gêneros favoritos de Joel e Ethan jamais são deixadas de lado. Mas o importante na filmografia dos irmãos é mostrar que Hollywood e os próprios cinéfilos se levam a sério demais – como os filmes de espionagem, por exemplo, que são o alvo dos Coen em Queime Depois de Ler. Não sei se isso é bem uma sátira. Eles simplesmente não encaram o gênero sem dar risada.

Enfim, qual é o problema com filmes que não se levam a sério? Não vejo um sequer. Ainda mais quando o cinema em questão é feito com extrema inteligência e muita classe. E no caso de Queime Depois de Ler, a força do texto e a entrega do elenco fazem da comédia dos Coen um programão engraçadíssimo, obrigatório e de fácil aceitação. Só que muitos dirão: “Nossa, isso que é humor inteligente!” Bom, de fato é. Mas os Coen estão é tirando uma com a nossa cara. Você pode até encontrar paralelos com a paranóia norte-americana pós-11 de setembro e o conseqüente pessimismo generalizado, que viraram temas do atual cinema hollywoodiano. Só que o importante aqui é a diversão. Somos enganados o tempo todo pelos irmãos e adoramos isso.

Ao contrário do humor implícito na trama de Onde os Fracos Não Têm Vez, filme que consagrou Joel e Ethan em Hollywood, Queime Depois de Ler é muito escrachado, explícito, descarado. A risada rola solta do início ao fim com os mesmos absurdos que já vimos antes nos melhores filmes dos Coen. Por isso, alguns dirão que é um filme menor da dupla, afinal é uma comédia assumida e blá blá blá. Também não é pesado como Onde os Fracos Não Têm Vez, Fargo, Gosto de Sangue e blá blá blá. Mas eu já digo que é o mesmo tipo de filme de novo e de novo.

Comparando os dois últimos longas dos Coen, como Onde os Fracos Não Têm Vez, a trama de Queime Depois de Ler vai do nada a lugar nenhum. Tudo gira em torno de um grande mal-entendido protagonizado por pessoas estúpidas, que se empolgam com uma oportunidade que parece ter caído do céu para dar significado a suas vidinhas patéticas. E a ação envolve mais e mais personagens até descambar para uma conclusão sangrenta, onde ninguém aprende nada além do que já se sabia no início do filme. Ou seja, no fim, não quer dizer coisa alguma. Vai do nada a lugar nenhum. A principal diferença entre os dois filmes é: Queime Depois de Ler é assumidamente ridículo, o que deixa essa viagem muito mais divertida.

Se é para avacalhar com o mundo certinho e os valores de uma sociedade triste e hipócrita, eu prefiro os Coen palhaços de Queime Depois de Ler. É a melhor comédia da dupla desde O Grande Lebowski e, talvez, a mais engraçada do ano. Mais do que Trovão Tropical, de Ben Stiller. Mas os Coen advertem: Só os inteligentes conseguirão rir. Outros, desculpem-me, acharão tudo muito estúpido no pior sentido da palavra.

Agora, uma atenção especial ao elenco de Queime Depois de Ler, um dos mais afinados do ano. Todos estão bem a vontade e hilariantes – George Clooney, Tilda Swinton e John Malkovich. Mas destaco J.K. Simmons, Richard Jenkins, equilibrado no papel do sujeito mais “normal” do filme e, principalmente, Frances McDormand e Brad Pitt, que estão insanos. Pitt, aliás, talvez esteja no maior momento de sua carreira. Todas as suas cenas são de rachar o bico de tanto rir. E fique ligado na cena inesquecível de Queime Depois de Ler, que envolve Brad Pitt, George Clooney e um armário. Chorei de rir. É bobagem da grossa, mas também é a síntese do cinema dos Coen.

O recado é o seguinte: O cinema não tem a obrigação de ser sempre, mas também pode ser divertido. Para quem compreende esta mensagem (aliás, inserida no título do filme), Queime Depois de Ler é um dos melhores e mais empolgantes filmes de 2008.

Queime Depois de Ler (Burn After Reading, 2008)
Direção: Joel Coen e Ethan Coen
Roteiro: Joel Coen e Ethan Coen
Elenco: George Clooney, Frances McDormand, John Malkovich, Brad Pitt, Tilda Swinton, J.K. Simmons, Richard Jenkins, David Rasche e Olek Krupa

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