novembro 11th, 2008

007 – Quantum of Solace

Diferente de Sean Connery, Roger Moore e Pierce Brosnan, Daniel Craig não liga se
está ou não no meio do deserto com Olga Kurylenko. Nem, ao menos, carrega a moça no colo.

Na onda das reinvenções e com os filmes de espionagem em alta para uma nova geração graças a um tal de Jason Bourne, convenhamos que era questão de tempo até os sabichões dos estúdios resolverem remodelar 007 para a criançada de hoje. Assim como Vanderlei Luxemburgo se vê acima do futebol, os engravatados do cinema se consideram maiores que a sétima arte e os fãs de cada franquia. A brincadeira começou com 007 – Cassino Royale, em 2006, que ousou ao escalar um James Bond loiro (Daniel Craig, que não faz feio) explosivo, violento, impetuoso e… grosso.

Ok. A idéia é recomeçar as aventuras do herói criado por Ian Fleming, então imagino que o agente vivido por Daniel Craig aja desta forma por ser um “00″ novato e ainda em seus “três meses de experiência”. Talvez, um dia, quem sabe, ele alcance a elegância vista no personagem eternizado por Sean Connery. Mas será que a intenção dos produtores (e do estúdio) é mesmo essa? E embora o herói de Daniel Craig tenha lampejos do James Bond clássico, acho que o verdadeiro objetivo aqui é conquistar o público que gosta da Trilogia Bourne e não necessariamente de 007. E essa proposta fica muito mais evidente no segundo episódio estrelado por Craig, 007 – Quantum of Solace (Quantum of Solace, 2008).

Antes de prosseguir, admito que não tenho problemas com reinvenções de figuraças da cultura pop. Ainda mais quando bestas quadradas como Joel Schumacher detonam um ícone como Batman. Embora sejam completamente contemporâneos, os filmes de Christopher Nolan (Batman Begins e O Cavaleiro das Trevas) jamais descaracterizaram o Homem-Morcego. Por outro lado, a recente volta de Indiana Jones irritou muita gente, mas todos parecem concordar que Harrison Ford ainda é (e sempre será) Indy. As características, a personalidade do herói, graças a Deus, são as mesmas de Os Caçadores da Arca Perdida.

De qualquer forma, mudanças em busca de atualização são sempre bem-vindas, afinal o cinema precisa continuar. Mas transformar James Bond em outro herói homônimo somente para acompanhar o gosto do público me parece mais estratégia de marketing do que uma obra de arte. Então, o importante é faturar alto nas bilheterias? Os fãs de carteirinha que se danem? Não acredito que 30% deles tenham implorado por uma atualização do personagem. E acho que não deveria existir essa preocupação com a parcela que não gosta de 007. A explicação para tamanha preocupação, claro, é dinheiro no bolso. Para mim, quem não gosta de Bond deveria ver outra coisa. E quem quiser conhecer o agente que alugue os 20 DVDs da série iniciada com O Satânico Dr. No (claro que estou ignorando o 21º, que é Cassino Royale).

O que acho engraçado nisso tudo é que os filmes de 007 estrelados por Pierce Brosnan conquistaram ótimas bilheterias. Então, que Diabos está acontecendo? Essa idéia de reinvenção é conversa pra boi dormir. É como se a Paramount recomeçasse do zero a saga dos Corleone por O Poderoso Chefão I uns cinco anos após o lançamento de O Poderoso Chefão III. O motivo? Só porque o terceiro filme não é unanimidade como as partes I e II.

Ora bolas, mas agora já foi. E Daniel Craig está no comando. Seria injusto reclamar dele, afinal temos um bom ator à frente de Cassino Royale e Quantum of Solace. O “primeiro filme” é melhor. Fato. É claro que se o agente de Daniel Craig tivesse qualquer outro nome, exceto James Bond, talvez eu gostasse mais de Cassino Royale e vibrasse com este novo herói de ação. Apesar de nervosinho, o personagem tem classe, charme e um gosto muito exigente e particular para mulheres e Dry Martinis, o que obviamente lembraria Bond. Mas o imperdoável em Cassino Royale é vê-lo de coração mole, apaixonado. Como eu disse, outro nome seria o bastante. Não Bond. Porém, o filme tem suas qualidades e uma surpresa: O diretor mediano Martin Campbell se saiu bem melhor que o sempre elogiado Marc Forster, que antes de Quantum of Solace, assinou O Caçador de Pipas, Em Busca da Terra do Nunca, Mais Estranho que a Ficção e A Última Ceia.

Sua escolha para dirigir o novo 007 só comprova a minha impressão sobre Forster: Um peão que se destaca entre outros vários de Hollywood só por saber conduzir bem a câmera. E que sorte danada que esse cara teve. Um currículo que no papel é muito bom, mas que na prática é uma enganação. Seus longas são roteiros filmados sem qualquer intervenção do olhar essencial do diretor, que é o verdadeiro contador de histórias para o público. No caso de Quantum of Solace, Forster entrega o que os envolvidos na reinvenção de Bond querem: Uma aventura de 007 cada vez mais parecida com os filmes de Jason Bourne. E não só no jeito de Bond bater, atirar, pular ou correr pelos telhados de Siena como Bourne correu pelos telhados do Marrocos. Desta vez, Forster até coloca a câmera na mão e balança a coitada sem dó nem piedade para atingir a estética realista que virou mania consagrada pela Trilogia Bourne. Só que Paul Greengrass, o diretor de A Supremacia Bourne e O Ultimato Bourne, sabe muito bem como manter seu olho de documentarista até nas cenas de ação, enquanto Marc Forster é apenas um robozinho nas mãos do estúdio.

Há uma seqüência, no entanto, que merece uma atenção. Falo dos tiros e da pancadaria na fuga de Bond durante a apresentação da ópera Tosca. Plasticamente, a cena é belíssima, mas Marc Forster não esconde a artificialidade de suas intenções. Portanto, não se engane. Guardadas as devidas proporções, Francis Ford Coppola ensinou como se faz na cena do batismo em O Poderoso Chefão e na ópera no final de O Poderoso Chefão III. Então se Forster não é Paul Greengrass, como posso aproximá-lo do talento de Coppola, não é mesmo?

No fim, Quantum of Solace entrega ação competente e desenfreada, porém fria, sem envolver o público emocionalmente. Para você ter uma idéia, somente os primeiros 15 minutos do filme têm mais ação que Cassino Royale inteiro. Alguns podem torcer o nariz para o jeito evidente de “episódio do meio” de Quantum of Solace. O filme começa exatamente onde termina Cassino Royale e vai para lugar nenhum. Mas reclamar disso pode ser bobagem, pois o filme talvez seja a segunda parte de uma trilogia independente com Daniel Craig. Ou parte de uma série que continuará e continuará. Mas vai saber? Não importa dizer que o Bond original idealizado por Ian Fleming é parecido com Daniel Craig. Concorde ou não comigo, o problema é jogar 20 aventuras de Bond na lata do lixo. Como disse um amigo, faz parte da Jasonbournização do cinema de ação.

007 – Quantum of Solace (Quantum of Solace, 2008)
Direção: Marc Forster
Roteiro: Paul Haggis, Neal Purvis, Robert Wade (Baseado no personagem criado por Ian Fleming)
Elenco: Daniel Craig, Mathieu Amalric, Olga Kurylenko, Judi Dench, Giancarlo Giannini, Gemma Arterton e Jeffrey Wright

Posts