novembro 4th, 2008

Barack Obama contra o pessimismo generalizado

Os EUA elegeram o primeiro presidente negro do país. Grande parte da classe artística vê Barack Obama como um símbolo da esperança em contradição ao reinado de sangue de George W. Bush, que aos poucos, fez Hollywood retornar ao cinema violento e extremamente pessimista dos anos 70, como reflexo do governo de Richard Nixon. Queira ou não, o cinema é um retrato de cada época. Mas antes, vamos recapitular a década atual.

Você, como eu, sabe que um vencedor do Oscar dita as produções que veremos nos anos seguintes. A Academia sempre preferiu dramas edificantes sobre a importância da família, épicos grandiosos e românticos, além de produções que exaltavam o espírito norte-americano de vencer, dar a volta por cima etc. Ainda no início da década, em 2000, Ridley Scott trouxe de volta o épico romano em Gladiador. Oscar. Um ano depois, Russell Crowe estava de novo no centro das atenções, alguns comparavam seu talento e versatilidade com Marlon Brando e o ator protagonizou o dramalhão Uma Mente Brilhante, que narrava os esforços de um matemático esquizofrênico tentando superar sua doença incurável com o apoio da esposa e a concentração no trabalho. Uma lágrima aqui e outra ali. Oscar. Cada época tem seu Rain Man ou Kramer Vs. Kramer.

Quando Osama Bin Laden atacou as Torres Gêmeas em 11 de setembro de 2001, Hollywood já estava com a trilogia O Senhor dos Anéis e o primeiro Harry Potter engatilhados. Se as produções faturassem uma bela grana, os estúdios apostariam de vez em filmes de fantasia e outras aventuras escapistas, como adaptações de histórias em quadrinhos. A ordem geral era esquecer a tragédia que traumatizou o povo norte-americano e deixou o resto do mundo de orelha em pé.

Em 2002, Chicago, uma festa musical saída da Broadway, encantou a Academia e levou a estatueta de Melhor Filme quando concorrentes mais viscerais como As Horas, O Pianista e Gangues de Nova York eram bem superiores. No ano seguinte, um filme pessimista de Clint Eastwood, Sobre Meninos e Lobos, fez uma leitura da América com medo da América e do mundo. Enquanto isso, Sofia Coppola colocou um casal norte-americano encontrando o amor numa terra estrangeira bem longe dos domínios de Bush (Encontros e Desencontros). Entre os indicados daquele ano, Seabiscuit foi o drama mais norte-americano de todos, mas os tempos já eram outros e ninguém percebeu. Só deram o Oscar de Melhor Filme para O Senhor dos Anéis – O Retorno do Rei porque foi o último filme da trilogia de Peter Jackson, que encheu os cofres e bolsos de Hollywood de tudo quanto é jeito. Apesar do que foi pensado logo após o 11 de setembro, os planos da classe artística não estavam ligados à fantasia. Para eles, os EUA não deveriam esquecer a tragédia e aceitar o medo imposto por Bush e seus lacaios. Hollywood decidiu encarar o problema de frente.

Em 2004, Martin Scorsese fez de O Aviador uma viagem ao passado glorioso de Hollywood. Mas a Academia queria premiar o cinema “pra baixo” e “seco” de Clint Eastwood. Em parte porque ele perdeu por Sobre Meninos e Lobos, mas também porque Menina de Ouro é extremamente emocionante sem jamais cair na pieguice, algo que muita gente já reclamava há anos em produções vencedoras do Oscar do naipe de Gente Como a Gente, Laços de Ternura, Kramer Vs. Kramer, Rain Man e Uma Mente Brilhante. Seguindo o ensinamento de produções independentes da metade dos anos 90 e do início desta década como Segredos e Mentiras e Entre Quatro Paredes, Hollywood encontrou um equilíbrio e finalmente aprendeu a fazer dramas contidos, sem altas doses de sacarose, mas que nunca deixam a emoção de lado.

Um ano mais tarde, O Segredo de Brokeback Mountain venceu preconceitos, conquistou o mundo e mostrou que o cinema ainda é capaz de apostar em dramas fortes, diretos e românticos, assim como provou que a trilha sonora (cada vez mais ausente ou sem importância nos filmes) pode subir no meio de uma cena emocionante, pois chorar não faz mal a ninguém – ainda acho que o termo “piegas” foi criado por um crítico que teve vergonha de ser visto chorando numa sala escura.

Mas os concorrentes do filme de Ang Lee representavam o típico cinema contundente dos anos 70 de volta para analisar a América atual e brutal: Boa Noite e Boa Sorte, Munique e Capote. Se bem que ganhou Crash, drama que bebe na fonte da estrutura narrativa dos filmes de Robert Altman, mas que estuda os vários tipos de preconceitos inseridos na sociedade norte-americana. Enfim, a América teve a coragem de olhar para o próprio rabo.

Em 2006 e 2007, o Oscar foi para os pessimistas Os Infiltrados e Onde os Fracos Não Têm Vez, que deixaram qualquer fagulha de esperança na Humanidade de lado e jogaram com a sujeira de um mundo onde ninguém presta. Sangue Negro, um dos indicados da última edição também seguia a temática. O mundo é dos espertos. O blockbuster do ano, Batman – O Cavaleiro das Trevas, tem um vilão que explora o lado ruim das pessoas. Inclusive, o filme de Christopher Nolan é pessimista até a última cena. Lembre-se como o Homem-Morcego termina sua participação no filme.

Com o fatality de Barack Obama em John McCain, no entanto, muitos acreditam que o ciclo pessimista será interrompido. Como a indústria se ajusta ao gosto do público de cada época, a tendência é que o consumidor dos produtos hollywoodianos procure filmes que exaltem o espírito humano (leia: norte-americano), romances exacerbados, épicos grandiosos e dramas que reforcem a importância da família na vida de cada um de nós. Com Obama na Casa Branca, pode ser que a década seguinte tenha seu Kramer Vs. Kramer, Rain Man ou Uma Mente Brilhante. Não será nenhuma surpresa. Mas nada que impeça um diabinho na indústria de plantar suas sementes e ousadias na provável e esperada calmaria que está por vir. Não foi assim com as perversões de Stanley Kubrick ou de tantos outros gênios da sétima arte que desafiavam o mainstream? Sempre teremos um pensador capaz de equilibrar emoções, decisões e balançar a estrutura de cada época.

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