janeiro 21st, 2009

O Curioso Caso de Benjamin Button

Lindo, poético, lírico, épico, romântico, mas ao mesmo tempo triste, melancólico, frio e minimalista. Assim é O Curioso Caso de Benjamin Button (The Curious Case of Benjamin Button, 2008), o filme mais ambicioso do genial cineasta David Fincher (Seven, Clube da Luta, Zodíaco). Mas olhando para trás e sabendo o que ele já aprontou, Fincher imita seu protagonista: Começou praticamente no auge de seu talento ousado, extremamente criativo e influente para, agora, regredir ao cinema acadêmico e convencional.

Em certos casos, claro, não há mal algum em ser “acadêmico”. Mas Fincher me parece um cineasta marginal; um cara das ruas. Feio, sujo e malvado. Bad motherfucker. O Curioso Caso de Benjamin Button, livremente inspirado no clássico conto de F. Scott Fitzgerald, de 1922, carrega uma história grandiosa e equilibrada em beleza e tristeza.

Ora, quem conta a saga de Benjamin Button a alguém, sabe que se trata de uma história de emoção genuína, certo? Mas assistir ao filme, sentir e esperar por essa emoção, aí, hollywoodianos, isso é algo completamente diferente. Veja só: Se você diz (ou resume) a uma pessoa que E.T. – O Extraterrestre é sobre um alienígena abandonado em nosso planeta, isso está correto. Em termos, ok? Mas correto. Porém, essa breve descrição de E.T. seria capaz de gerar imediatamente a emoção nesta pessoa? Acho que não. Mas, então, assista ao inesquecível filme de Steven Spielberg. A experiência será completamente diferente. Duvido que um ser humano em sã consciência não tenha a mínima vontade de chorar.

Mas antes que você me acuse de querer pieguice em O Curioso Caso de Benjamin Button, eu preciso explicar minha visão de “emoção” no cinema. Cito Sangue Negro, de Paul Thomas Anderson, então. Uma obra-prima para o nosso tempo, ok? Daniel Day-Lewis interpreta um sujeito carrancudo querendo o sangue de seus concorrentes. Aos nossos olhos, ele é mau até o último fio de cabelo. Mas admiramos essa característica em seu personagem. Ou vai me dizer que não? Em Sangue Negro, eu torço por Daniel Day-Lewis; vibro com as terríveis manobras de seu personagem. Isso também é emoção. Sangue Negro é pesado, incomoda, mas não é um filme frio. Longe disso. Paul Thomas Anderson é apaixonado por sua história e jamais se deslumbra com a grandiosidade do material em mãos. Agora, vamos para o oposto. Pegue a ternura de Forrest Gump, de Robert Zemeckis. Você torce pelo herói tapado até o final, não é? Chorando ou não, você entra neste filme e viaja ao lado do personagem. Para mim, isso é importantíssimo. Chamo isso de vínculo com a platéia. São filmes que, como Benjamin Button, também fazem uma leitura da América de acordo com os olhos de seu protagonista. E, até mesmo, de nossa situação no mundo.

A diferença é que a leitura de David Fincher é fria, distante. Talvez pelo medo de cair na “pieguice” óbvia que muita gente reclama. E cair nessa tentação parecia fácil demais, afinal o conto original fala de um cara que nasce velho e rejuvenesce durante sua vida. Entenda: Não quero um Laços de Ternura ou sua versão canina, que é Marley & Eu. Aí já seria palhaçada minha. Mas apesar de reconhecer toda a beleza plástica deste filme, eu admito que não me importei nem um pouco com a felicidade e a vida de Benjamin Button. Acho que faltou… emoção, envolvimento e cumplicidade de David Fincher nas entrelinhas. O filme é muito fraco dramaticamente. Miserável, eu diria. E é claro que Fincher tem todo o direito de trilhar outros caminhos, mas acho que isso era filme para Steven Spielberg. Ou para outro cineasta acostumado com o fantástico como Tim Burton. Aliás, Burton poderia ter Johnny Depp, que daria um Benjamin Button inesquecível. O que me leva ao problema Brad Pitt.

O astro realmente funciona (e muito) em papéis bizarros e cômicos. Vide Seven, Doze Macacos, Clube da Luta, Snatch e Queime Depois de Ler. Ele está ótimo. Mas é contra as leis da natureza pedir para que Brad Pitt seja um bom ator dramático. Em O Curioso Caso de Benjamin Button, ele tem a mesma cara e as mesmas reações de seus tenebrosos personagens de Lendas da Paixão e Encontro Marcado. O filme de David Fincher depende sim, senhor, da atuação de Brad Pitt. No início, enquanto Button ainda é um “jovem idoso”, os efeitos digitais e a maravilhosa maquiagem até ajudam o astro. Depois, quando o velhinho vira o marido de Angelina Jolie, o filme cai junto com o ator. Colocar Steven Seagal ali daria na mesma. Ou seja, pede pra sair!

O problema é Brad Pitt, pois o elenco de apoio está sensacional. Começo por Taraji P. Henson, a mãe de criação de Benjamin Button. Que atriz, senhoras e senhores! Cate Blanchett, como sempre, é magistral. Tilda Swinton, a mulher feia mais talentosa do cinema atual também tem seu momento para brilhar. É um belíssimo elenco.

Analisando outro tópico, muita gente compara a estrutura do roteiro com Forrest Gump, mas acho que isso se deve apenas ao tipo de história que o roteirista Eric Roth gosta de contar. Benjamin Button tem até a sua dose de drama, aventura, humor e… “Faz de conta”. Mas o clássico moderno de Robert Zemeckis dá de 10 a 0 no pior filme de David Fincher desde sua estréia em Alien 3. Aliás, acho que o roteiro de Eric Roth é bem rico. Detesto dizer isso, mas é o próprio diretor que parece distante emocionalmente. Se o restante do filme, no entanto, tivesse a mesma energia e criatividade da abertura sobre o “relógio ao contrário” e a melhor seqüência de todas, que ilustra uma narração de Benjamin Button sobre todos nós estarmos numa “rota de colisão”, aí sim o filme seria merecedor de elogios eufóricos.

Direção de arte refinada? Confere. A melhor maquiagem de 2008? Confere. Figurinos impecáveis? Confere. Fotografia deslumbrante? Confere. Uma bela trilha sonora? Confere. Tecnicamente, O Curioso Caso de Benjamin Button é perfeito. Um filme fácil de admirar, mas difícil de amar. Acaba sendo curioso mesmo, como diz o título. Mas, infelizmente, não é a obra-prima que poderia ter sido. Tampouco é um grande filme, mas um filme grande com seus imensos 166 minutos. Você pode dizer: “Ah, mas a vida é longa.” Ok, mas ao que parece, de trás pra frente, a vida não é uma caixa de bombom.

O Curioso Caso de Benjamin Button (The Curious Case of Benjamin Button, 2008)
Direção: David Fincher
Roteiro: Eric Roth (Baseado no conto de F. Scott Fitzgerald)
Elenco: Brad Pitt, Cate Blanchett, Tilda Swinton, Julia Ormond, Taraji P. Henson, Elias Koteas, Jason Flemyng e Joeanna Sayler

Posts