fevereiro 12th, 2009

Coraline e o Mundo Secreto

Quando saí da sessão de Coraline e o Mundo Secreto (Coraline, 2009), eu estava tão chocado com a proposta de fantasia Off Hollywood, que era impossível dizer se gostei ou não do filme. Mas, estranhamente, as cores, as cenas e o clima dividido entre o encantador e o assustador jamais deixaram a minha mente. Cheguei a sonhar por algumas noites com o universo fantástico criado por Neil Gaiman e adaptado para o cinema pelo diretor Henry Selick, de O Estranho Mundo de Jack. E isso só pode ser bom sinal.

O ponto é que Coraline vem da mente de Neil Gaiman, autor do livro infanto-juvenil que deu origem ao filme. Perto do que Hollywood costuma produzir, a obra de Gaiman é muito mais madura e sombria. Parece até que estamos diante de outra cultura, outra linguagem – algo que costuma sair da imaginação oriental, sendo, geralmente, incompreensível para uma cabeça ocidental.

Para mim, Gaiman foge do tradicional e se aproxima um pouco da mente de um Hayao Miyazaki, criador de animações como A Viagem de Chihiro. Embora a comparação seja exagerada, acho que sua obra está mais para os japoneses do que para os americanos. Para aproximar um pouco, acho também que está mais para quem gostou de O Labirinto do Fauno, do mexicano Guillermo Del Toro, do que os filmes do americano Tim Burton. Prefiro analisar por este lado a dizer que Coraline é “tanto para crianças quanto para adultos”. Enfim, Shrek também é. Assim como WALL-E ou Ratatouille. São exemplos que buscaram originalidade, mas permaneceram com uma visão tradicionalmente… americana. Ou seja, Coraline não é necessariamente ousado ou à frente de seu tempo. Apenas é… diferente. Não tem a cara de Hollywood. Há uma maturidade tão definida nessa história que, se Deus quiser, está vindo para ficar.

Engana-se quem pensa que Coraline é mais do mesmo. Especialista na animação stop-motion, Henry Selick, desta vez, une essa técnica ao 3D. Coraline, no entanto, não traz objetos e personagens saltando aos montes da tela para assustar a platéia. Apenas aproveita todo o espaço para aumentar a profundidade de cada plano e tornar real e próximo cada objeto e boneco feitos à mão. Não lembro de outro filme que tenha utilizado o 3D com esse intuito. É a primeira produção neste formato a dar mais importância para a história do que para os efeitos visuais. Vendo assim, Coraline é evolução. E é engraçado pensar nisso sabendo que Henry Selick uniu o melhor de dois mundos: o antigo e o novo.

A premissa do filme é simples, mas aos poucos, caminha para se tornar uma das histórias mais originais já contadas pelo cinema. É a saga da menina Coraline (voz de Dakota Fanning), que se muda com seus pais workaholics (Teri Hatcher e John Hodgman) para um velho casarão. Entediada e infeliz, Coraline explora a vizinhança, faz amizade com um menino falastrão (Robert Bailey Jr.), e durante suas andanças pela casa, encontra uma portinha em uma das paredes a la Quero Ser John Malkovich. É como a toca do coelho de Alice no País das Maravilhas. Mas não quero contar onde essa passagem vai dar. Prefiro que você viva essa experiência. Basta saber que Coraline entrará no avesso da realidade.


Depois disso, você verá que o filme toma um rumo de difícil comunicação com mentes que vêem animações como produtos para sossegar e divertir a criançada numa temporada de férias. O roteiro é cheio de camadas, algumas imperceptíveis sem uma revisão, ligadas a uma sensibilidade contemporânea tão sutil e, ao mesmo tempo, equilibrada com a fantasia dos melhores contos de fadas já contados.

Coraline é um filme de uma beleza única tanto em seu visual quanto em seu conteúdo. É um passo a frente para o cinema, que mostra que pode evoluir sem deixar as influências clássicas no limbo. É uma fantasia com a cara do novo milênio, que compreende diferentes culturas, e mostra aos fãs de Totó e Dorothy, que definitivamente não estamos mais no Kansas.

Coraline e o Mundo Secreto (Coraline, 2009)
Direção: Henry Selick
Roteiro: Henry Selick (Baseado no livro de Neil Gaiman)
Com as vozes de Dakota Fanning, Teri Hatcher, Jennifer Saunders, Dawn French, Keith David e John Hodgman

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