fevereiro 8th, 2009

Filmes Cinco Estrelas


Era uma Vez no Oeste
(C’era una volta il West, Sergio Leone, 1968)

Alguns diretores sabiam usar a tela inteira para “pintar” seus filmes. Não sobrava um mísero espaço sem tinta. Eram cores com vida que não apareciam aqui e ali somente para preencher o que estava em branco. Tudo estava lá por uma razão. O inglês David Lean abria sua câmera e captava uma imensidão – era como se o mundo não tivesse fim. Cecil B. DeMille era grandiloqüente, enxergava a vida maior do que ela é. Para ele, viver era um espetáculo. John Ford desbravou o oeste americano como nenhum outro conterrâneo. Em cenas externas, suas panorâmicas indicavam terras que ainda deveriam ser exploradas. Era como se o caubói americano ainda tivesse muito do mundo para conhecer.

Já o italiano Sergio Leone pegou o faroeste americano já um tanto cansado e lhe deu novo fôlego. Na verdade, Leone não dirigia faroestes. Ele entrava neste território para fazer épicos intimistas. Usando e abusando de sua visão original nos filmes com Clint Eastwood – Por uns Dólares a Mais, Três Homens em Conflito -, Leone, para muitos, exagerou em Era uma Vez no Oeste (C’era una volta il West, 1968). Era como se o acusassem de virar clichê de si próprio. Eu já vejo como uma assinatura. Leone é autor. E é só parar e pensar um pouco pra imaginar como esse rótulo de autor faz falta nos dias de hoje.

Sergio Leone foi um gênio que esteve a frente de seu tempo e de todas as críticas injustas que recebeu, afinal como é que poderiam aceitar um italiano mudando o tom do faroeste, a última mitologia americana? Leone orquestrou novos paradigmas no gênero em todos os sentidos: roteiro, montagem, fotografia, trilha sonora e… êxtase. Na verdade, falo de emoção extraída da narrativa em forma de imagem, som e movimento. Seus exageros fazem parte do show. Para mim, os filmes de Leone são verdadeiras óperas cinematográficas.

Com um roteiro assinado por três mestres do cinema italiano – Dario Argento, Bernardo Bertolucci e, claro, Sergio Leone -, Era uma Vez no Oeste tem uma das aberturas mais sensacionais de todos os tempos. Em silêncio, vemos três caubóis sujos aguardando a chegada de um trem numa estação castigada pelo sol. Os créditos passam e não há sinal da música de Ennio Morricone, pela qual esperamos ansiosamente. Sabemos que ela explodirá em toda a sua magnitude em alguns minutos, mas não será agora. A abertura cria um clima incômodo – como se o trio malvado estivesse esperando pela morte. E é mais ou menos isso mesmo. Quem chega é um pistoleiro (Charles Bronson como mais um dos heróis sem nome de Sergio Leone) tocando sua maldita gaita (em inglês, gaita é “harmonica” e é assim que o personagem passa a ser reconhecido) e trazendo o som arrepiante, irritante da Dona Morte. São séculos de espera para o primeiro disparo. Como sempre, Leone arma a situação e a beleza está toda ali. Portanto, não tenha pressa. Não importa quem morre primeiro. Apenas entre no clima. Esse é o cinema de Leone. Cinema que não se faz mais.

Mais tarde, Harmonica junta-se ao pistoleiro Cheyenne (Jason Robards), para ajudar a viúva Jill (Claudia Cardinale), enquanto um magnata das linhas de trem (Gabriele Ferzetti) contrata um bando impiedoso liderado pelo insano Frank (o grande Henry Fonda em seu único papel de vilão) para ficar com as terras da moça. Aliás, o bando é apresentado matando uma criança. E será que há algo mais covarde e cruel do que isso? Frank tem olhos azuis e é a representação do mal nesta terra de ninguém cultivada por Sergio Leone. Uma terra imunda de homens fedorentos e desumanos, com suas capas arrastando pelo chão. É por isso que a doce imagem de Claudia Cardinale surge como um alívio, um colírio. É um sinal de esperança para quebrar este mundo violento. Claudia tem para o filme a mesma importância da construção da ferrovia. É uma imagem de vida após a morte. Um novo começo após o caos. Futuro.

Quando Harmonica fica frente a frente com Frank, entendemos, finalmente, qual é a intenção do mocinho do filme. Mas antes do duelo, temos 15 minutos com os dois se encarando, cuspindo no chão, rangendo os dentes, e muita música de Ennio Morricone. Muitos acham tudo isso um saco. Era uma Vez no Oeste talvez seja o western spaghetti mais complicado de seu autor. As acusações de Leone ter se tornado pastiche de seu próprio estilo em Era uma Vez no Oeste são compreensíveis, mas um tanto infundadas se você não conhece o seu cinema. Um iniciante na obra de Leone não deve começar por este filme. É bom estudar Por um Punhado de Dólares, Por uns Dólares a Mais e Três Homens em Conflito antes de chegar aqui. Depois dessas lições de casa, você tem tudo para delirar com a ópera Era uma Vez no Oeste.

Assim, você entenderá o fascínio assumido de Quentin Tarantino por Sergio Leone. Ou como Clint Eastwood provou saber dirigir após aprender tudo com o seu mestre (se bem que Clint também admite a influência de Don Siegel). Ou como Robert Zemeckis “homenageou” uma das cenas mais belas de Era uma Vez no Oeste em De Volta Para o Futuro – Parte III. É quando Marty McFly (Michael J. Fox) chega a Hill Valley de 1885. A câmera mostra a entrada da cidade e, depois, passa por cima do portão para dar uma “geral” do lugar. São os mesmos movimentos de Leone ao acompanhar a chegada de Claudia Cardinale a Flagstone de Era uma Vez no Oeste. Esse é o legado de Sergio Leone, que ainda brindaria os cinéfilos com mais uma obra-prima depois de Três Homens em Conflito e Era uma Vez no Oeste: Era uma Vez na América, de 1982.

Era uma Vez no Oeste (C’era una volta il West, 1968)
Direção: Sergio Leone
Roteiro: Dario Argento, Bernardo Bertolucci e Sergio Leone
Elenco: Claudia Cardinale, Charles Bronson, Jason Robards, Henry Fonda e Gabriele Ferzetti

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