fevereiro 18th, 2009

Frost/Nixon

Ron Howard é um dos nomes mais queridos de Hollywood. Já trabalhava como ator quando usava fraldas. Cresceu no cinema – em filmes famosos como Loucuras de Verão, de George Lucas -, e principalmente na TV, onde marcou época no programa The Andy Griffith Show e na série Happy Days, além de ilustres participações em outros shows como Daniel Boone, Lassie, Bonanza, M.A.S.H. e Terra de Gigantes. Mas foi como diretor que Ron Howard conquistaria seu espaço definitivo. Nesta nova função, soube como poucos agradar público e estúdios alternando produções 100% comerciais, como Splash – Uma Sereia em Minha Vida (1984), Cocoon (1985), Willow – Na Terra da Magia (1989), O Grinch (2000), O Código Da Vinci (2006), e obras 50% sérias/50% divertidas, como O Jornal (1994), Apollo 13 (1995), e Uma Mente Brilhante (2001), que lhe rendeu os Oscars de Filme e Direção.

O padrão ideal de cineasta para a indústria, no entanto, dificilmente toparia fazer algo tão “adulto” como Frost/Nixon (2008). E não é que Ron Howard provou, mais uma vez, que sabe o que faz? Este é, de longe, seu trabalho mais maduro. Mas, curiosamente, jamais deixa de ser um típico filme de Ron Howard. Para o bem ou para o mal. Alguns detratores podem dizer que a famosa entrevista dada pelo ex-presidente americano Richard Nixon (Frank Langella, estupendo) ao apresentador de TV britânico David Frost (Michael Sheen, transbordando carisma) é somente mais uma desculpa para o diretor usar e abusar do tema da “volta por cima” ou “do desastre ao triunfo”, como dizia o subtítulo nacional infame de Apollo 13. Nada mais americano, certo? Mas outros defenderão, como eu, e dirão que Frost/Nixon, além de ser tudo isso, também é o filme popularmente chamado de “parado” mais ágil e empolgante da história do cinema.

Só que para ver Frost/Nixon desta forma é preciso reconhecer o talento de Ron Howard como diretor contador de histórias. E saber o que ele já fez pelo cinema. Ele é a prova de que um filme pode ser exemplo de “arte”, mas também pode ser “comercial”. Para começar, analise a trama de Frost/Nixon, assinada por Peter Morgan (A Rainha, O Último Rei da Escócia), baseada numa peça premiada de sua própria autoria e estrelada pelos mesmos Michael Sheen e Frank Langella. Na abertura, relembramos por imagens de arquivo como Richard Nixon renunciou ao cargo de presidente dos EUA. Depois disso, somos apresentados aos opostos Frost e Nixon. Exilado em um programa de TV na Austrália, o inglês bonzinho anda meio por baixo e vê a tentativa de entrevistar o ex-presidente ianque como a oportunidade perfeita de dar a volta por cima. Além disso, defende que essa pode ser a grande chance para o vilão admitir sua culpa no escândalo do Watergate e pedir desculpas ao povo americano. Nixon, por sua vez, só aceita dar a entrevista em troca de uma boa grana e por considerar Frost um adversário de segunda categoria. Mais tarde, vemos a preparação para a entrevista e, finalmente, Frost e Nixon se enfrentando em vários rounds. Pelo roteiro, seria o filme ideal para ser aproveitado por professores de história em sua aulas ou uma trama para ser contada apenas no teatro. Mas Ron Howard jamais esquece a linguagem cinematográfica e seu público, afinal isso não é um documentário. Muito menos uma peça filmada.

E eu disse rounds porque a entrevista de Richard Nixon a David Frost parece uma luta feroz de boxe. Adoro quando a câmera para de rodar e vemos Nixon sendo assessorado por seu lacaio Jack Brennan (Kevin Bacon), assim como Frost por sua equipe formada por James Reston Jr. (Sam Rockwell), Bob Zelnick (Oliver Platt) e John Birt (Matthew Macfadyen). Parecem lutadores profissionais exaustos, suados e feridos nos cantos opostos do ringue, sendo aconselhados por seus treinadores antes de retornarem ao centro da lona para mais um round.

Dobrar o astuto Richard Nixon não será nada fácil para o tranqüilo David Frost, que não faria mal a uma mosca. Sua equipe não agüenta ver o chefe bonzinho sendo destroçado no ringue pelo adversário sem oferecer qualquer resistência e ameaça abandoná-lo em sua humilhação. Mas há uma cena chave, que envolve um telefonema de Richard Nixon a David Frost na calada da noite. É uma cena que revela a admiração antes implícita do abandonado Nixon pelo carismático e celebrado Frost. É uma cena que demonstra o grau de comprometimento e monstruosidade dos atores Frank Langella e Michael Sheen. É uma cena que define os minutos finais de Frost/Nixon e que mostra a força do diretor Ron Howard na hora de seduzir seu público. Mesmo em um filme tão sério.

Gosto de pensar, inclusive, que Ron Howard e Peter Morgan levaram Frost/Nixon ao cinema para quebrar mitos e revelar seres humanos de carne e osso. Após a renúncia, Nixon foi perdoado pelo presidente seguinte, Gerald Ford. Com isso, o crápula não teve o julgamento que deveria ter enfrentado. A entrevista para David Frost veio para reparar tal erro. E ela ganha os cinemas, uma mídia de alcance gigantesco, também para relembrar os anos infernais governados por George W. Bush. Pois então imagine o antecessor de Barack Obama no lugar do personagem de Frank Langella encarando Michael Sheen. Assim, vejo Frost/Nixon como um filme sobre símbolos, máscaras e metáforas desconstruídas por palavras e atitudes diretas.

Fique atento em como Nixon julga seu oponente pelo sapato que ele usa. O sapato é um símbolo que define a admiração entre os opostos Frost/Nixon. Mostra como o filme engana pela aparência e como devia ser visto e revisto por diversos públicos. Seja por estudantes de jornalismo – está entre os melhores do “gênero” ao lado de A Montanha dos Sete Abutres (1951), de Billy Wilder, Todos os Homens do Presidente (1976), de Alan J. Pakula, O Informante (1999), de Michael Mann, e Boa Noite e Boa Sorte (2005), de George Clooney -, ou por professores e alunos de todas as matérias e idades que buscam o conhecimento e a verdade, assim como cinéfilos, que buscam todos os tipos de cinema. Seja o de arte ou seja o de entretenimento. Poucos sabem fazer um espetáculo deste porte. E Ron Howard é um deles.

Frost/Nixon (Frost/Nixon, 2008)
Direção: Ron Howard
Roteiro: Peter Morgan (Baseado em sua própria peça)
Elenco: Michael Sheen, Frank Langella, Sam Rockwell, Oliver Platt, Kevin Bacon,
Matthew Macfadyen e Rebecca Hall

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