março 31st, 2009

Crianças, não cresçam!

Na última semana, eu quase bati as botas por causa de uma infecção na garganta. O negócio foi “brabo”, mas estou aqui pra dar uma satisfação, afinal não atualizo o blog desde 20 de março. Peço desculpas, mas agora já posso voltar à ativa. E nesse meio tempo, andei repensando algumas coisas, principalmente longe do cinema, o que deixa qualquer um com a consciência em constante regressão cultural e com um pezinho na dura realidade. Andei pensando mais na vida e decidi dar mais valor a ela. A começar pelo princípio de tudo.

Por muito tempo, acho que dei ouvido demais aos adultos e cresci com a pressão de me tornar “mais velho” o quanto antes. Isso foi um veneno, vejo hoje, porque acho que deixei de fazer e curtir certas coisas de criança bem cedo. Eu queria assistir a filmes como Os Goonies, mas me mandavam O Poderoso Chefão. Eu queria ver Os Trapalhões, mas me passavam as fitas de Os Caçadores da Arca Perdida e O Homem Elefante. Vi Dersu Uzala, de Akira Kurosawa, com nove anos de idade. Pode isso? Foi um assassinato à inocência. Por causa disso, deixei de brincar no play algumas vezes pra assistir a Rain Man e Império do Sol. Tentei convidar uma garota certa vez pra ver Dança Com Lobos comigo no cinema e sei que até hoje ela não apareceu. Talvez se eu tivesse pensado em convidá-la para Fievel, aí sim eu teria me dado bem. Mas vai saber…

Esse vício cinéfilo me fez aquilo que sou hoje, mas minha avó dizia na época que isso funcionava pra mim como uma fuga da realidade. Talvez ela tivesse sua dose de razão, pois lembro que cheguei a matar aula pra ver Jurassic Park na primeira sessão – como se não houvesse horário mais tarde. Mas, enfim, não pude resistir. Após a infecção na garganta, penso que cheguei até aqui porque foram “adultos” demais comigo. Acho que gasto grana pra ver uma bobagem hollywoodiana nos dias de hoje porque fico nesse eterno conflito com minha criança interior.

Talvez se eu tivesse crescido indo aos cinemas somente para ver Xuxa, Os Trapalhões e desenhos da Disney, fatalmente eu teria aproveitado melhor minha infância. Sabe como é… Cada etapa de uma vez. Talvez estivesse hoje mais preparado para umas e outras responsabilidades. Se eu tivesse conhecido a garota dos meus sonhos antes dos meus 10 anos de idade, por exemplo, a vida teria me poupado do sofrimento e o medo de ser rejeitado por ela, afinal eu não conheceria imperfeições e aproveitaria a magia de minha inocência. Mas Deus colocou Casablanca no meu caminho cedo demais. Naquela época, eu não consegui entender nem somando A+B porque Humphrey Bogart e Ingrid Bergman não podiam ficar juntos no final. Aquilo simplesmente não entrava na minha cabeça. Mas, talvez se eu tivesse visto o filme hoje, pela primeira vez, isso estaria mais claro pra mim. Como adulto, eu compreendo o desencanto e o final do clássico de Michael Curtiz.

Não pensem que quero meus filhos vivendo num mundo de ilusão, mas adoraria levá-los ao cinema pra ver Monstros Vs. Alienígenas, que estreia sexta. E dar risada com as gargalhadas deles. Acho que a criança precisa dessa fase. Hoje, penso que foi um erro uma geração inteira de menininhas idealizar o Leonardo DiCaprio como “Príncipe Encantado”, em Titanic, só para vê-lo morrer no final congelado até o estômago. Por que os pais tiveram a “brilhante ideia” de levar suas crianças para ver Titanic? Não há honra alguma em morrer por amor. Pior: Por que a molecada de hoje já viu Tropa de Elite? É como matar a criança dentro de nós antes do tempo. Antes de pagar contas, antes do casamento, antes de responsabilidades… Antes de ver aqueles que você ama partindo para sempre…

Apesar de adorar O Poderoso Chefão, Lawrence da Arábia, A Felicidade Não Se Compra e outros tantos, prometo criar meus filhos com filmes infantis. Seguirei o termo “dê tempo ao tempo”. Se eles tiverem de crescer cinéfilos, eles farão isso com ou sem a minha ajuda. Quero que eles conheçam Branca de Neve e Cinderela antes de Don Corleone e Travis Bickle. E se tenho um conselho para a criançada, ele é: “Não cresçam!”

Isso me lembra que teremos uma grande filme infantil neste ano. Ou, pelo menos, tem tudo para ser. Falo de Onde Vivem os Monstros, de Spike Jonze, baseado no maravilhoso livro de Maurice Sendak, que muitas crianças sequer tocaram. A garotada conhece Clone Wars e Ben 10, mas nunca leu esse livro. Eu mesmo li quando já era burro velho. Mas digo isso porque temos bons materiais infantis hoje em dia, mas quem é que liga para isso quando dinheiro bem investido é aquele que se dedica a reciclagens americanas de fantasias orientais? Como evitar que a inocência caia em desuso quando executivos que não entendem nada de arte só pensam com o bolso? Nada contra a cultura de massa, mas não podemos deixar o molho azedar. E o caminho dessa garotada de hoje começa comigo. E com você.

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