abril 2nd, 2009

A palavra de Maurice Jarre

Filmes e trilhas sonoras sempre foram unha e carne um do outro. Desde a época de Metrópolis e O Gabinete do Dr. Caligari. Infelizmente, hoje, acho que a sétima arte tenta explorar cada vez mais a realidade e, você sabe, a vida não tem trilha sonora. Triste assim.

Representantes da manifestação da arte, os temas estão praticamente extintos e as trilhas mais elogiadas do momento só funcionam durante a exibição de um filme – ninguém mais sai do cinema assobiando. Ou é muito raro isso acontecer. Como penso desta forma, lamento profundamente a partida do maestro francês Maurice Jarre, um dos últimos ícones da música no cinema. Compositor favorito do monumental David Lean, Jarre morreu nesta semana e deixou um legado fascinante.

Autor de trilhas inesquecíveis para filmes como Lawrence da Arábia, Doutor Jivago, A Filha de Ryan, Passagem Para a Índia, A Testemunha, Sociedade dos Poetas Mortos e Ghost, Jarre foi um dos maiores em seu ofício. Para mim, um dos cinco grandes. Os outros, claro, são Bernard Herrmann, Nino Rota, John Williams e Ennio Morricone.

Mas para relembrar Maurice Jarre, eu gostaria de esquecer o português e falar com vocês no idioma do maestro. Por exemplo, no final de Sociedade dos Poetas Mortos – isso que é final de filme -, o aluno Todd Anderson (Ethan Hawke) tenta explicar ao Sr. Keating (Robin Williams) que o professor foi vítima de um complô da diretoria do colégio. Quando o mestre é obrigado a deixar a sala, a música de Maurice Jarre entra. Note que a intenção do diretor Peter Weir é fazer um tributo à arte do ensino. A música vai crescendo à medida em que os alunos, a Sociedade dos Poetas Mortos, sobem em suas mesas para homenagear Keating evocando as palavras de Walt Whitman, “Oh Captain, My Captain!”. É como se os antepassados da sociedade voltassem do além. É algo sobrenatural que acontece ali. Agora, tente imaginar a cena sem a música de Maurice Jarre.

Em A Testemunha, outro grande filme de Peter Weir, há uma sequência que mostra a comunidade amish construindo um celeiro com a ajuda do policial John Book (Harrison Ford). A trilha de Maurice Jarre domina a cena e ilustra todos os significados do melhor filme de Weir. Com música, som e imagem, vemos um conflito de emoções entre a inveja, o ciúme e o amor. Fantástico. Agora, tente imaginar a cena sem a música de Maurice Jarre.

Lawrence da Arábia é um dos meus filmes favoritos. É o maior épico já feito para o cinema. David Lean alcançou um nível jamais igualado por outros cineastas ao contar a saga de um homem desprezível apaixonado pelo deserto e pela sensação de aventura. Mas não me leve a sério, por favor, afinal a história de T.E. Lawrence (Peter O’ Toole) é maior que a vida e não se resume somente ao que tenho a dizer sobre o filme. É por isso que David Lean filmou (pintou?) o deserto com uma fotografia que eu considero a mais bela de todas. Freddie Young é o nome da fera. Bom, mas voltando: Uma das melhores cenas de Lawrence da Arábia mostra o herói em seu primeiro contato com o deserto. Mas tente imaginar o cenário inteiro sem a música de Maurice Jarre.

Para terminar, talvez você ainda não tenha visto Doutor Jivago, mas certamente conhece o Tema de Lara. Preciso dizer algo mais?

Apenas imagens não construiriam tal magia. Assim falou o maestro Maurice Jarre.

Posts