abril 8th, 2009

Filmes e games como água e óleo

O diretor Gore Verbinski, da trilogia Piratas do Caribe, disse “não” para a quarta aventura de Jack Sparrow. Seu objetivo é adaptar Bioshock, um dos games mais espetaculares do últimos anos. As filmagens começam ano que vem e o filme não estreia antes de 2011. Mas a questão mais importante a merecer uma discussão é: Hollywood vai aprender a fazer filmes adaptados de games famosos?
O problema bate de frente na mesma tendência dos livros ou quadrinhos que viram filmes. O fato é que Hollywood não quer perder dinheiro. Pelo contrário: Quer ganhar, no mínimo, o triplo de seu investimento. No geral, falta ousadia na hora de pensar na arte cinema e, por um lado, agradar fãs ardorosos é garantia de boa bilheteria. Só que, muitas vezes, o filme é concluído com um certo rabo preso ao material original. Inclusive, alguns deles saem arrastados e um tanto confusos e indefinidos quanto às linguagens distintas.

Goste ou não, as artes são diferentes e adaptações como Sin City, Spirit e Hulk (do Ang Lee) foram erros necessários para provar que a linguagem cinematográfica não é compatível com a reprodução visual e narrativa de uma HQ. No caso dos livros, pegue o exemplo recente de Harry Potter e a Pedra Filosofal e Harry Potter e a Câmara Secreta, ambos do diretor Chris Columbus, que, sob o olhar atento de J.K. Rowling, topou seguir as páginas da autora da forma mais fiel possível e esqueceu que já foi um divertido contador de histórias no cinema, afinal ele é o cara responsável por Uma Noite de Aventuras, Uma Babá Quase Perfeita e Esqueceram de Mim.

Claro que temos projetos que dão certo. O livro O Paciente Inglês, de Michael Ondaatje, sempre foi considerado como “infilmável”, mas o diretor Anthony Minghella levou sua superprodução ao Olimpo do Oscar quando ganhou nove estatuetas. O Senhor dos Anéis também sempre recebeu rótulos de adaptação complicada, mas os filmes de Peter Jackson fizeram história. Com quadrinhos, tivemos ótimos resultados dos esforços de diretores talentosos como Bryan Singer (X-Men 1 e 2), Sam Raimi (Homem-Aranha 1 e 2), Sam Mendes (Estrada Para Perdição) e Christopher Nolan (Batman Begins e O Cavaleiro das Trevas). Mas e quanto aos games? Bom, nenhum deu certo até hoje. Resident Evil? Lixo. Mortal Kombat? Lixo. Street Fighter? Hmm… Deixa pra lá. E o problema é o mesmo dos longas baseados em livros, quadrinhos, etc. Enfim, não adianta tentar reproduzir o game na tela do cinema. Se eu quiser jogar, fico em casa. Certo?

Já está provado que filme com The Rock não dá certo, mas quem joga videogame ou computador, sabe que Doom é um clássico. É jogo de tiro em primeira pessoa (a ação é vista pelos olhos do personagem) e é preciso descarregar a munição de suas armas nos malditos monstros que surgem no meio do caminho sem aviso prévio. E não é que o filme tenta copiar exatamente essa sensação numa interminável sequencia com cerca de cinco minutos? Só que (detalhe) você não tem joystick na cadeira do cinema.

Quer me ver nervoso? Diga na minha cara que Tomb Raider, o filme, é um “Indiana Jones de saia”. Ora, Angelina é um espetáculo, mas sua beleza não é desculpa para um filme de duas horas com roteiro pífio que se sustenta de forma picareta na marca de um dos games mais idolatrados de todos os tempos.

Preconceitos à parte, tendo em vista a falta de criatividade de Hollywood, os games são (ou deveriam ser) fontes de inspiração para o cinema como livros, quadrinhos, artigos de jornais, teatro, séries de TV, desenhos animados ou qualquer fofoca. Até agora, vamos dar um desconto, pois faltou um grande nome na direção para comandar uma adaptação. Sabemos que isso não garante nada, mas diretores de prestígio foram decisivos para Hollywood acertar nas adaptações de histórias em quadrinhos. Não que Gore Verbinski ameace o posto de Orson Welles, mas o sujeito conseguiu transformar atração de parque temático em um filme, ou melhor, três. Será que ele seria capaz de estragar a história de Bioshock, que é mais intrigante do que a maioria dos filmes atuais?

Se der certo, temos muitos games com ótimas histórias que mereciam um filme competente, para dizer o mínimo. Entre eles, Gears of War, God of War e Metal Gear Solid – se você anda atualizado com o mundo dos games, sabe que a época de River Raid já passou e que as tramas deixam Hollywood parecendo uma creche. Além disso, a tecnologia atual chegou a um nível tão impressionante que o cinema pode contar qualquer história imaginável. E acho que o cinema anda carente de bons filmes fantásticos, afinal, convenhamos que o excesso de produções pós-O Senhor dos Anéis e Matrix banalizaram a fantasia e a ficção científica. Em outras palavras, essa é a hora para Gore Verbinski fazer de Bioshock um belo filme. Ou para o produtor Jerry Bruckheimer e o diretor Mike Newell, que preparam Prince of Persia – The Sands of Time, com Jake Gyllenhaal e Ben Kingsley, com estreia marcada para 2010.

Sei que há um debate interminável quando falamos de cinema e outras linguagens. Mas acho que não importa buscar uma fidelidade total às páginas ou ao game. Também não adianta representar um personagem literário exatamente como seu autor o imaginou. O ideal para cinema é capturar o universo e o clima da obra original. Feito isso, o restante equivalente a algo em torno de 10% depende da montagem e da dedicação dos atores.

Em tempo, Bioshock é sobre um náufrago que encontra Rapture, uma bizarra cidade submarina criada por um cientista louco. O problema, claro, não é entrar, mas escapar de Rapture com vida. Até o final, o jogador é surpreendido não só pelos sustos e a sensação claustrofóbica da aventura, mas principalmente pelas reviravoltas na trama e a riqueza do universo desenvolvido por Ken Levine, o autor e diretor do game. Aliás, Bioshock 2 chega ainda neste ano para Xbox 360 e Playstation 3.

Posts