abril 23rd, 2009

Não nos deixei cair em tentação

Minhas séries favoritas sempre foram The Sopranos, Seinfeld, Friends, Ally McBeal, Star Trek e The X-Files. Não necessariamente nesta ordem. Hoje, aprecio 24, Lost, House e The Simpsons com moderação. Mas, vez ou outra, tento acompanhar algo como Gossip Girl, que está em sua segunda temporada. Mas confesso que nunca consegui chegar ao final de um episódio.

Não aguento os roteiros e as falas, assim como as situações e os dilemas dramáticos criados para os personagens. Aliás, detesto Beverly Hills 90210, One Tree Hill, The O.C., Dawson’s Creek e genéricos, que endeusam os sentimentos confusos e vazios da gurizada. Não acho convincente. Ora bolas, o que essas vítimas da puberdade que vivem de mesada em bairros sofisticados podem me ensinar sobre sexo, moda e a miséria da condição humana? Não é preconceito, pois juro que tentei. É claro que gosto não se discute e não existem verdades absolutas, mas fico na bronca porque muita série boa é cancelada sem uma segunda chance devido à alienação da audiência americana obcecada por realities.

Mesmo não gostando, seria canastrice da minha parte não tentar compreender o fenômeno. Se uma série de qualidade duvidosa tem seus fãs carrapatos, ela permanece no ar. Não importa o tamanho da bobagem criada pelos roteiristas para o episódio seguinte, porque os fiéis aceitam. Não fosse assim, Smallville e Supernatural morreriam de fome.

Volto a Gossip Girl para discutir o papel da imprensa nisso tudo. Os veículos deveriam ficar do lado do público que busca qualidade, mas estamos num período de transição e o desespero vem batendo à porta, principalmente da mídia impressa.

Dito isso, admito que só li agora a recente e curiosa edição da Rolling Stone, que deu capa para Blake Lively e Leighton Meester, as meninas que dominam Gossip Girl. Para a revista, “apesar de mal conseguir juntar três milhões de telespectadores por semana, o programa se tornou a série mais falada e culturamente relevante da televisão.” Como diria Didi Mocó: “Cuma?”

Detratores de Gossip Girl (e eles são muitos) colocaram a credibilidade da revista em dúvida. Acusações de matérias compradas pra lá e pra cá choveram na horta da publicação, mas eu prefiro acreditar na correria urgente para vender um material impresso na era da internet (e da crise econômica). Sabemos que não existe público para comprar e manter uma revista com temas clássicos ou de qualidade indiscutível. Hoje em dia, mesmo sendo a principal aposta, nem o pop dá conta. Então não adianta gastar o verbo com acusações. A série é ruim para a maioria? Beleza, mas os caras precisam vender. Pelo menos estão falando de produtos da indústria celebrados por parte do público. O foco não desapareceu. E o retorno financeiro é garantido com os fãs da série, que não ligam se seus personagens favoritos aparecem em revistas, jornais, sites ou blogs.

Imagine se eu fosse obrigado a viver do Hollywoodiano? Cedo ou tarde, mesmo pela internet, eu precisaria ilustrar minhas notas com as belas Blake Lively e Leighton Meester dividindo um inocente sorvetinho. Hoje, não preciso disso. Está certo que as meninas alegram este post porque percebi que os últimos só traziam fotos de homens, mas isso é outra história.

A polêmica relevante em torno desta edição da Rolling Stone é discutir se a matéria chamará a atenção do público masculino que não aderiu à confraria da pashmina. Mas, neste caso, também esbarraremos na capa de uma revista feminina que traz Leonardo DiCaprio na capa por um filme como Os Infiltrados.

Não disse que a Rolling Stone é exclusivamente masculina, mas ver Blake Lively e Leighton Meester bem à vontade em suas páginas quase que inteiramente musicais é um “plus a mais”, como diriam os pseudointelectuais.

Até onde podemos chegar com o sensacionalismo enraizado na indústria do entretenimento? E como a degradação da arte dentro da cultura de massa pode influenciar a capacidade de raciocínio do público? Nossos netos estão condenados ao lixo industrializado? Ou à total extinção da arte em prol da admiração obsessiva pela vida alheia? Eis as questões.

Obs: As fotos foram publicadas originalmente na Rolling Stone de 09 de abril de 2009.

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