maio 20th, 2009

Lost e o domínio público

Não sou o maior fã de Lost, mas gosto de acompanhar a série. Também não perdôo algumas enrolações habituais dos roteiristas, que insistem em pieguices e relacionamentos amorosos que fariam bonito em séries como Grey’s Anatomy, mas não em Lost – a velha desculpa da construção de personagens não cola, afinal a série já tem os famosos flashbacks. Também não estou falando de genialidades com a câmera e de nenhuma inovação em matéria de direção, edição etc. O que há de relevante no episódio duplo The Incident, que encerrou a quinta temporada da série na última semana*, é mostrar para Hollywood que a TV anda muito mais divertida e ousada que o cinema. Sei que ando falando demais sobre isso, mas esse episódio de Lost é a prova.

Se The Incident não é perfeito, pelo menos, temos algo bom para discutir e pensar no que diz respeito a temas como filosofia, mitologia e religião disfarçados de entretenimento na representação da eterna luta do bem contra o mal. E se na TV dá certo, por que no cinema isso não acontece?

É verdade que alguns diretores se perdem em seus próprios egos nas continuações de suas sagas cinematográficas autorais. Mas não podemos esquecer dos estúdios, que preferem fórmulas prontas, seguindo tendências quando deveriam apostar em ideias criativas. Na virada da década, a mesma empolgação que agora aponta para Lost, veio com Matrix nos cinemas, mas os Irmãos Wachowski não souberam concluir a trilogia. Pelo menos, essa é a minha opinião. E, agora, resta saber se a inspiração dos criadores de Lost para a sexta e última temporada está mais para a eficiência de O Senhor dos Anéis – O Retorno do Rei ou para a frustração de Matrix Reloaded e Matrix Revolutions.

Há um ponto, no entanto, que merece reflexão: o maior problema de Lost (e de qualquer fenômeno da cultura pop) é o status de domínio público. Depois da primeira temporada, muitos deixaram a série. Isso é compreensível, porque um ano entre uma temporada e outra é período suficiente para discussões e teorias criadas por fãs, que seriam capazes de reescrever Lost até o fim. Mas quando chegam os episódios inéditos, o público esquece que a história original está na cabeça de seus verdadeiros autores e, então, a decepção é a reação mais previsível.

Voltando um pouco no tempo, quando o Star Wars original chegou aos cinemas, o povo americano enlouqueceu com uma aventura otimista pós-Guerra do Vietnã. Mas, três anos depois, com a chegada de O Império Contra-Ataca, os fãs perceberam que a intenção de George Lucas estava na criação de uma nova mitologia. E não deu outra. Nos três anos que separaram Império de O Retorno de Jedi, os fãs estudaram e inventaram inúmeras conclusões para a trilogia, que se tornou domínio público antes mesmo de Lucas chegar ao set do terceiro filme. Como sabemos, a decepção foi inevitável para a maioria, que considera os dois primeiros filmes muito superiores a O Retorno de Jedi. Pior: o que dizer dos 16 anos que separam Jedi de A Ameaça Fantasma? Todo mundo lembra onde isso foi parar. Pobre Jar Jar Binks…

O mesmo problema afetou as continuações de Piratas do Caribe, De Volta Para o Futuro e de tantas outras franquias famosas do cinema de entretenimento. Mas até um filme mais “sério” sofreu com o domínio público. Falo de O Poderoso Chefão – Parte III, que veio ao mundo 16 anos após o segundo. E o que dizer das críticas à Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal? Pobre Steven Spielberg…

Mas será que a culpa é nossa? Será que os Irmãos Wachowski estavam certos na conclusão de Matrix? Será que somos mais inteligentes que os criadores dessas sagas? Ou será que reconhecemos facilmente o ego inflado de determinados diretores, produtores e roteiristas? Antes de responder, vamos ver como Lost vai terminar em meados de 2010. Até lá, assim como você, criarei minhas próprias teorias. Não importa o que J.J. Abrams & Cia. tenham preparado para o fim da série.

* A quinta temporada de Lost acabou nos EUA, mas continua em cartaz no Brasil pelo canal AXN.

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