agosto 19th, 2009

Brüno


Quando o falso documentário Borat estreou em 2006, o mundo inteiro foi surpreendido pelo ator inglês Sacha Baron Cohen. O personagem era conhecido por meia dúzia de fãs de seu programa de TV Da Ali G Show, mas a estratégia de misturar realidade e ficção com altas doses de humor agressivo na tela do cinema, certamente, atingiu um número mais abrangente de “consumidores”.

Imagine, então, ver um filme como Borat, em plena Era Bush, tendo a audácia de criticar o presidente dos EUA, seu governo, e o american way of life. Como grande parte dos americanos desaprovava ações e reações de Bush naquela época, o povo riu de seus próprios costumes e preconceitos, comprando a brincadeira com muito prazer. E assim o mundo aprovou Sacha Baron Cohen. Bom, pelo menos, a maioria.

Na verdade, Hollywood compreendeu sua importância para o momento e, apesar das opiniões dos (vários) detratores, Cohen chegou para ficar. Três anos depois, ele resolveu apostar na mesma fórmula de seu cartão de visita, mas com outro personagem de Da Ali G Show, o fashionista austríaco Brüno (Brüno, 2009). Embora seja bem engraçado, o filme perde feio numa comparação inevitável com Borat.

Entenda: Brüno está longe de ser ruim, mas a sensação de originalidade, o fator surpresa, claro, não existe mais. Além disso, há um aspecto que atrapalha. O problema não é ser preconceituoso, afinal ninguém aguenta mais o politicamente correto (e o fair play, diga-se de passagem), mas ridicularizar o universo gay nos dias de hoje, convenhamos, já é piada velha. Talvez por isso que Sacha Baron Cohen, também autor do roteiro, e o diretor Larry Charles apostem em cenas (hilariantes) de gosto duvidoso numa escala ainda maior que Borat, que por sua vez, tem um poder crítico mais forte e ousado. Enquanto o filme do repórter do Cazaquistão sacudiu a Era Bush na hora certa – como Michael Moore também fez em Fahrenheit 11 de Setembro, mas na hora errada -, Brüno ataca a obsessão pela fama, que não deixa de ser uma discussão atual. Porém, sinceramente, não é a primeira vez que vemos isso na telona. Mas graças ao talento de Sacha Baron Cohen para provocar e divertir, Brüno funciona, mesmo sem o equilíbro perfeito de Borat entre a crítica e a grosseria. E como o filme é bem curto (cerca de 1h20), não dá tempo de reclamar.


Brüno começa com imagens típicas de documentário, mas, diferente de Borat, não se assume como tal – até o roteiro parece mais redondinho. Famoso por apresentar um programa de moda na TV, Brüno (Sacha Baron Cohen) vira persona non grata no mundo fashion do continente europeu ao pagar um mico gigantesco numa edição do Milan Fashion Week. Abandonado pelo namorado pigmeu e afastado à força dos holofotes, ele tenta a sorte nos EUA, terra das oportunidades (e das celebridades com registro em carteira). Se Paris Hilton conseguiu, por que não Brüno?

Sua jornada rumo à fama é um prato cheio para Cohen destilar veneno. Em seus atos “inocentes”, lembramos de papagaiadas de Tom Cruise, Angelina Jolie, Madonna, Pamela Anderson, Paris Hilton, Milli Vanilli… e a ladeira só desce. Prepare-se para viajar entre situações cômicas e doentias com Paula Abdul sentando em mexicanos, além de um ridículo nu frontal masculino, swingers party, sexo oral espírita, transas sadomasoquistas, videoclipe estilo We Are the World e brincadeiras com o bom (e o mau) gosto dos diferentes perfis gays.

Como em Borat, a sacada está em deixar o público voyeur observar a reação de cada pessoa abordada por Brüno. Tentar desvendar o que foi combinado ou não é o maior barato. E não adianta sair do cinema reclamando do humor proposto por Sacha Baron Cohen. Ou será que você ainda não sabe quem ele é? Se estivéssemos em 2006, eu até aceitaria essa desculpa. Agora, quem desdenha, quer comprar.

Apesar da leve brisa de decepção na saída do cinema, não dá para ficar sério diante de um filme que traz Harrison Ford dizendo FUCK OFF ao protagonista numa cena que termina com a exibição de um pinto dançante e falante. Quase não sobrevivi de tanto rir.

Brüno (Brüno, 2009)
Direção: Larry Charles
Roteiro: Sacha Baron Cohen, Anthony Hines, Dan Mazer e Jeff Schaffer (Baseado em personagem criado por Sacha Baron Cohen para o programa de TV Da Ali G Show)
Elenco: Sacha Baron Cohen, Gustav Hammarsten e Clifford Bañagale

Posts