setembro 2nd, 2009

Amantes

Two Lovers 1

O amor evolui em fases, mas nenhuma delas é fácil. Quando somos pequenos (no masculino, porque sou menino), escolhemos a garota mais bonita da escola para namorar. Seguramos sua mão ou simplesmente aparecemos ao lado dela e isso já significa namoro. Mais tarde, começamos a chorar pelos amores impossíveis quando ainda temos espinhas e nenhum centavo no bolso. Pouco tempo depois, temos a certeza de que encontramos a nossa alma gêmea. Mas quando passamos dos 30, no entanto, entramos na fase do “E agora?” Se já é difícil descobrir o que fazer para manter um bom relacionamento com quem você ama, imagine, então, quando sua cara metade resolve deixá-lo na mão e partir para outra. São exatamente esses demônios que não saem do pobre Leonard (Joaquin Phoenix), o desiludido protagonista de Amantes (Two Lovers, 2009).

Leonard é aquele tipo de ser humano que ama como se não houvesse amanhã. Ele acredita no romantismo, que surge em filmes e livros como um estado de espírito ou característica de uma personalidade cheia de atitudes nas horas certas para com a pessoa amada. Mas o maior problema de Leonard está no Criador: para o diretor James Gray, o significado que demos ao romantismo ao longo dos tempos é uma mentira. Ele não passa de uma doença com sintomas que geram a confusão, a depressão e a alienação. James Gray não acredita no sucesso do amor. Ainda mais na época de uma geração que não sabe o que quer e nem onde (e como) procurar; uma geração bombardeada por informações vindas de qualquer pessoa online sobre diversos temas e situações.


Leonard é interpretado por Joaquin Phoenix, um dos meus atores favoritos. Como todo mundo sabe, ele decidiu largar o cinema depois deste filme. Sua atuação é brilhante. Talvez a melhor de toda a sua (curta) carreira. Quando Amantes termina, por mais que o filme seja ótimo, o que fica é a imagem de Joaquin Phoenix. O jeitão de Leonard vagando de forma errante por sua “noite branca” atrás de sua Nástienka
cairia muito bem em um ator como Marlon Brando nos anos de Sindicato de Ladrões e Uma Rua Chamada Pecado. E isso é um elogio para Joaquin Phoenix, que poderia reconsiderar sua decisão para o bem da sétima arte. Dizem as más línguas que o sujeito pirou de vez. Se é assim, melhor ele não voltar. Ainda mais para quem viu Amantes, a pergunta bate na cabeça: Será que Joaquin Phoenix estava realmente atuando neste filme? Cara, a dor é na alma.

O que Leonard deve fazer? Ficar entre a segurança e a compreensão da “sem sal” Sandra (Vinessa Shaw), filha de amigos da família, ou jogar todas as fichas no acaso e chutar o pau da barraca com a imprevisível e loiraça vizinha Michelle (Gwyneth “Just my imagination” Paltrow)? Todo mundo já passou por uma situação dessas. Não necessariamente no amor. Mas James Gray sabe como capturar o público. Ainda mais com seu apreço por valores básicos como honra, amizade, amor e a importância da família.

Descendente de russos, o subestimado James Gray filma na época errada. Hollywood e o público seriam mais justos com ele se seu nome tivesse surgido nos anos 70 ao lado de monstros como Martin Scorsese. Gosta de falar de crime e família numa Nova York cinzenta durante o dia e dominada por luzes e fumaça à noite. Foi assim em Caminho Sem Volta e Os Donos da Noite – ambos com Joaquin Phoenix. Em Amantes, Gray substitui a criminalidade pelo amor. Mas a intensidade é a mesma. E a família continua sendo o único alicerce que nos mantêm de pé. Na visão de Gray, os pais podem imaginar o futuro ideal para seus filhos, mas, no fim, aceitarão o que eles escolherem. É só prestar atenção na cena do diálogo na escada entre Leonard e sua mãe, interpretada por Isabella Rossellini, que está fabulosa.


Entre essas porradas que a vida dá em todos nós, o caminho mais fácil é desistir de tudo. Só que assim não se aprende nada com o sofrimento. No caso de Leonard, ele pode apanhar, mas sempre corre para os braços de seus pais – ou de qualquer pessoa que lhe dê apoio incondicional. Ele não desiste completamente, claro, de ser feliz, mas se apega à sensações de conforto. Enfim, quase todo mundo leva a vida inteira assim.

Segurando essa ideia, talvez o filme termine como começa. Cabe a quem olha de fora a situação, julgar se Leonard está certo ou errado. Só que o diretor James Gray faz questão de colocar o espectador ao lado de seu protagonista. Aí, como ele, fica difícil de chegar a uma conclusão. Mas é esse mergulho no melodrama de Leonard que faz o público acreditar no filme.

Amantes é o filme definitivo da década para uma geração que vive procurando nas telas do cinema por situações que possam representar suas desilusões e responder algumas perguntas lançadas pelo coração. Muitos, por exemplo, abraçam Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças, de Michel Gondry, e Encontros e Desencontros, de Sofia Coppola. Só que James Gray recorre ao cinema clássico para contar não uma história de amor, mas um filme sobre o amor nos dias de hoje. Longe do moderno, sóbrio e fazendo bom uso de tomadas lentas e o som do vento para indicar as portas abertas para o protagonista, Gray mostra que o amor faz sangrar o coração, enquanto o romantismo corrói a alma.

Amantes (Two Lovers, 2009)
Direção: James Gray
Roteiro: James Gray e Ric Menello
Elenco: Joaquin Phoenix, Gwyneth Paltrow, Vinessa Shaw, Isabella Rossellini, Moni Moshonov, Elias Koteas e Bob Ari

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