outubro 30th, 2009

500 Dias com Ela

500 Days of Summer
500 Dias com Ela
(500 Days of Summer, 2009) é a melhor (e mais criativa) comédia romântica da década. Não quero dizer com isso que para ser bom é preciso ser necessariamente criativo, mas tudo funciona muito bem enquanto o filme dura. E qual é o segredo deste sucesso? Não temos grandes astros, nem um diretor famoso. São esses mistérios do cinema que acontecem uma vez ou outra para a nossa sorte, assim como na vida, quando encontramos aquela pessoa mágica que cruza o nosso caminho inesperadamente e nos acerta como um raio. É como o casal Summer (Zooey Deschanel) e Tom (Joseph Gordon-Levitt), que é encantador demais para durar para sempre na vida real.  Ela sabe disso. Ele não. Ela, no entanto, sabe aproveitar cada momento ao lado dele. Ele só pensa adiante e não se concentra no “agora”, parecendo sempre preocupado se essa maravilhosa sensação terá um fim em algum dia cinzento de sua vida. É como o filme. Não tente adivinhar o que acontecerá na próxima cena, com base no que você aprendeu nesses anos todos com as comédias românticas. Apenas… aproveite. Uma hora, o filme vai acabar. Mas o que ficará para sempre é a experiência, o aprendizado, a sensação de que vivemos.

De tempos em tempos, surge um filme (de qualquer gênero), que não é lá uma obra-prima, mas que acaba  falando diretamente com certos espectadores e vira modinha entre seus fãs. 500 Dias com Ela se encaixa neste grupo. Exagero ou não, desde Annie Hall (Noivo Neurótico, Noiva Nervosa), de 1977, que não vejo a comédia romântica se arriscando em um admirável esforço criativo. Não estou dizendo que Marc Webb acaba de despontar como um possível novo Woody Allen, afinal dificilmente Hollywood deixará o cara respirar e fazer o que quiser nos próximos anos. Mas sua experiência como diretor de videoclipes servindo à urgência de renovação na indústria, assim como o roteiro ágil, honesto e esperto de Scott Neustadter e Michael H. Weber (com uma veia pop digna de Nick Hornby ou Cameron Crowe), além da empolgante trilha sonora escolhida a dedo, conferem à 500 Dias com Ela o rótulo de filme mais cool do ano.

Talvez Marc Webb esteja reinventando a comédia romântica, não sei. Pelo menos, seguindo a tendência do cinema atual, seu filme não deixa de ser comercial e, com isso, aposta num casal jovem de protagonistas, o que remete, mesmo que involuntariamente, ao cinema de John Hughes arremessado para este milênio. Falei de Annie Hall, porque Woody Allen ensinou como as comédias românticas seriam respeitadas pelo público na virada dos anos 70 para os 80. Agora, quem faz isso é Marc Webber. Se em Annie Hall, que vem de uma época muito mais séria do cinema, temos um homem e uma mulher, em 500 Dias com Ela, temos um rapaz e uma garota. Mas o Tom Hansen de Joseph Gordon-Levitt talvez seja a versão jovem do Alvy Singer de Woody Allen, enquanto a Summer Finn de Zooey Deschanel provavelmente possa ser vista como uma versão atual da jovem Annie Hall de Diane Keaton.

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Tom Hansen pode até não ser tão neurótico quanto Alvy Singer, mas sua mente enlouquece (de todas as maneiras) quando conhece Summer. Ele se apaixona imediatamente. Já a garota não acredita no amor e quer apenas curtir o momento – mesmo que isso possa durar para sempre. E pirar por causa de uma garota incomum no meio de uma cidade neurótica é tão fácil quanto o espectador (homem ou mulher) se reconhecer na situação de Tom Hansen – com todos os prós e contras de um relacionamento marcante em que entramos de cabeça. E como em Annie Hall, seguimos o protagonista com sua visão ora real, ora mágica. Temos o beijo, o sexo, o carinho, as conversas, o apoio, as risadas, as brigas, mas também reconhecemos os momentos em que nos sentimos nas nuvens, como na cena em que Tom sai pelas ruas como se estivesse num musical.

Como Tom, todo mundo já se atropelou nas próprias expectativas ao esperar mais da pessoa amada do que ela realmente é. Por isso, não podemos culpar Summer por sua aparente… frieza. Não seria justo, embora seja muito fácil sentir isso durante o filme e a culpa é toda de Tom, pois 500 Dias com Ela é o seu ponto de vista. Assim como não podemos julgar Summer, também não dá para tentar entender como o filme dá certo. As perguntas valem mais a pena que as respostas. Funciona porque Marc Webb olha para o ambiente onde fomos criados e, ao mesmo tempo, coloca neste terreno um pouco dos sonhos e das obsessões de cada um de nós, representados por Tom, seu protagonista.

O filme funciona porque, diferente de grande parte das comédias românticas e da maioria dos relacionamentos amorosos, Marc Webb olha para o meio da história. E não para o começo e o fim. Ao diretor não  interessa a saudade, mas o “durante”. Como todos nós, 500 Dias com Ela, não relembra o namoro de Tom e Summer de forma linear. É impossível juntar todas as cenas de nossas vidas na mente. É o meio que explica tudo e nos torna o que somos. É como ir ao cinema e lembrar que vimos um belo filme por cerca de duas horas e não saber explicar os motivos. É aproveitar, evoluir e seguir em frente.

Para terminar, preciso elogiar o trabalho do casal de atores Joseph Gordon-Levitt e Zooey Deschanel. Ele está cada vez melhor. Talvez o filme represente sua entrada no hall dos astros cobiçados pela indústria. Em certos momentos, lembra um Heath Ledger pronto para explodir no talento que vimos em Brokeback Mountain e Batman – O Cavaleiro das Trevas. Já Zooey Deschanel é ela mesma. Você pode reclamar, eu entendo, mas o que interessa é que ela se encaixa neste papel. Não importa se ela é boa atriz. Simplesmente, ela é Summer Finn. E com Joseph Gordon-Levitt forma, desde já, um dos casais mais adoráveis do cinema.


500 Dias com Ela
(500 Days of Summer, 2009)
Direção: Marc Webb
Roteiro: Scott Neustadter e Michael H. Weber
Elenco: Joseph Gordon-Levitt, Zooey Deschanel, Geoffrey Arend e Matthew Gray Gubler


HOLLYWOODIANO viu o filme na 33ª Mostra Internacional de Cinema, em São Paulo

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