Distrito 9

Em seus primórdios, a ficção científica acostumou o cinéfilo com filmes que utilizam metáforas para ilustrar, criticar, analisar, alertar ou até idolatrar situações sociais e políticas da época em questão. Tivemos clássicos e bombas neste gênero, mas grande parte de seus representantes seguiu essa tendência, que não é uma regra, claro. Mas o ponto é que, aos poucos, o tentador deslumbramento pelas maravilhas digitais fez com que muitos contadores de histórias deixassem esses contextos de lado para apostar na diversão sem cérebro para consumo rápido. De vez em quando, felizmente, surge um filme que reestabelece a nossa fé no gênero, com ideias que reciclam suas origens, mas que não deixam de abraçar a tecnologia atual à serviço de uma história. É o caso de Distrito 9 (District 9, 2009), que embora esteja longe de ser perfeito, vale essa discussão na saída do cinema.
Com produção de Peter Jackson (O Senhor dos Anéis) e direção do estreante Neill Blomkamp, Distrito 9 começa muito bem ao dar um tapa na cara daqueles que não enxergam os problemas do mundo em cada esquina. É claro que ainda existem pessoas boas, mas a verdade é que nós somos preconceituosos e medrosos demais. A insegurança é capaz de gerar reações descontroladas que fogem da compreensão humana. As maiores besteiras da humanidade, como o racismo, a indiferença e a intolerância, marcaram nossa história com vergonhas como o holocausto e o apartheid.
Não seria surpreendente se alienígenas presos em nosso planeta fossem segregados em uma favela (o Distrito 9 do título), sendo tratados como escória e, principalmente como grandes problemas para a expansão do capitalismo, assim como os desabrigados e as crianças de rua. Não seria surpresa alguma se o governo ou as corporações que ditam as regras tentassem, por baixo dos panos, tirar proveito da situação – mesmo que para isso houvesse derramamento de sangue inocente.

É neste contexto que entra Wikus Van De Merve (Sharlto Copley), representando eu e você, dominados pelo sistema e incapazes de estender a mão ao próximo, afinal o medo daquilo que não compreendemos pode abalar as estruturas de tudo o que já conquistamos para o nosso bem estar. O que importa é o ciclo “trabalhar, ganhar dinheiro, comprar, pagar contas, trabalhar”. O outro que se vire.
Incapazes de lidar com o problema alien, reforçado pelo medo e a raiva da população local, as autoridades põem em prática um plano de transferência dos ETs para um campo de concentração maior. Van de Merve é o encarregado desta tarefa, mas seu modo de vida desaba quando sofre um estranho acidente. Ironicamente, ele será tratado como os aliens do Distrito 9, mas entregar os motivos dessa reviravolta seria injustiça com você (e com o filme).
Deste momento em diante, Distrito 9 engata numa tensão crescente de grudar o espectador na cadeira do cinema. Com um bom equilíbrio entre ação e suspense, a jornada kafkiana de Van de Merve fica ainda mais interessante quando ele recebe a ajuda de um dos monstros. Pena que o final não chegue a qualquer lugar. Não há uma conclusão emocionante, nem contundente. Nada! Apenas um final aberto pronto para um sequência. Cá entre nós: Quando O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel terminou, muita gente reclamou. Mas, ora, o filme era o primeiro de uma trilogia que já existia em livros. Distrito 9 é roteiro original. Será que vai continuar mesmo? Não sei. Você sabe que depende de Hollywood.

Por enquanto, ou até um Distrito 10, fico com a seguinte impressão: O diretor e roteirista Neill Blomkamp armou seu tabuleiro, posicionou as peças estrategicamente, mas não terminou seu jogo. Não sei exatamente se ele não soube como fazer a próxima jogada ou se ainda tem algo guardado na manga.
Antes de gritar “ESTA É A MELHOR FICÇÃO CIENTÍFICA DOS ÚLTIMOS ANOS” só porque vi algo diferente, prefiro respirar, pensar e ressaltar o que mais importa: Distrito 9 é a consagração do cinema fantástico narrado com visual em primeira pessoa, técnica que virou moda após A Bruxa de Blair. Peter Jackson e Neill Blomkamp sabem que não estamos num parque de diversões – como os realizadores de Blair e Cloverfield pensaram – e que uma (boa e envolvente) história ainda é fundamental para quem vai ao cinema. E isso é apenas parte do filme, que mescla a ideia de falso documentário com a tradicional narrativa ficcional. É um passo (válido) rumo a novas formas de se contar uma história numa sala escura.
Distrito 9 (District 9, 2009)
Direção: Neill Blomkamp
Roteiro: Neill Blomkamp e Terri Tatchell
Elenco: Sharlto Copley, Jason Cope e David James



Perfeito

Acho que vc falou tudo, Otavio. É bem legal (especialmente o primeiro terço), mas a mão do diretor é meio pesadinha, né? Gostei mais do humor negro do que de certas coisas no filme.
Será que só eu não gostei do filme? Achei mais do mesmo, exceto os efeitos especiais que são muito bons.
Parabéns pelo novo layout. Deu um ar profissional ao blog. Abs!
sem dúvidas que esse filme foi feito pra uma série de análises, seja do ponto de vista social (com as metáforas usadas) seja na parte técnica (nessa onda sci-fi e mocumentary). Um bom filme que, como você disse, está longe de ter um fim. Será que ‘distrito 10′ realmente vai existir? os dias atuais estão aí para provar que sim.
Não sou muito fã do gênero, mas no começo o nome de Peter Jackson despertou-me o interesse. Parece bom, mas este filme ganha o prémio de melhor campanha de marketing do ano, por que foi muito bem bolado.
Beijos!
BRUNO
O humor funciona no filme, mas acho que faltou qualquer coisa no final. Digo, não acabou. Abs!
FERNANDO
Muito obrigado! Abs!
LUIS
Se um DISTRITO 10 acontecer mesmo, eu talvez aumente minha cotação de DISTRITO 9. Abs!
MAYARA
Sem dúvida! É o melhor jabá do ano! Bjs!
Otavio, eu acho que “Distrito 9″ tem ideias e estéticas pra lá de interessantes, mas o filme se perde no roteiro… Especialmente no quarto final! E eu indicaria Sharlto Copley para o Oscar. Uma das atuações mais fascinantes do ano!
Beijos!
Hmm, interessante, Kamila! O Sharlto Copley é uma ótima revelação. Esqueci de comentar. Bjs!
Até agora é o filme do ano, disparado o melhor até aqui lançado, já tinha comentado no meu blog. nota 9.0!
Abs! Diego!
DIEGO
Cara, eu esperava mais. Só que da próxima vez, assistirei ao filme como fã do gênero.
Abs!
Eu achei o filme extremamente elementar, se não fosse a temática, não sei o que seria dele. Recomendo que as pessoas o vejam em casa, ir ao cinema para vê-lo não será uma boa experiência, ainda mais quando vi nesse ano, Bastardos Inglórios. Nem boas perfomances consegui ver, como alguns festejam.
Abraço.