outubro 24th, 2009

O Desinformante

Matt Damon em O Desinformante

Levante a mão quem jamais contou uma mentira na vida! Ninguém? Ok, tudo bem. Olha, não tenha vergonha, afinal somos normais. Agora, se alguém aí mente o tempo todo e, pior do que isso, acredita na própria lorota… Sinceramente, é melhor procurar ajuda profissional o quanto antes. Ou então vai acabar como Mark Whitacre,  ex-executivo de uma grande empresa de produtos alimentícios, que levou o FBI, seus colegas de trabalho, a imprensa, a própria mulher e a si mesmo em uma jornada compulsiva de mentiras que durou mais de uma década. Parece (desculpe-me pelo trocadilho) mentira, mas a história de O Desinformante (The Informant!, 2009) realmente aconteceu.

O filme começa no início dos anos 90 e vai até meados da primeira década deste milênio. Mark Whitacre (Matt Damon, excelente) é o vice-presidente da ADM, empresa responsável por colocar em diversos alimentos aquele ingrediente que faz toda a diferença – mesmo que, segundo ele, quase tudo seja derivado do milho. Sua rotina casa-fábrica-escritório é afetada quando um executivo japonês alega saber da existência de um sabotador na empresa, que funcionaria como uma fixadora de preços de seus produtos. E ele ameaça pôr a boca no trombone. O FBI entra na jogada e, apoiado pela esposa (Melanie Lynskey, de Two and a Half Men), Mark resolve contar a verdade aos agentes.

Até aqui, O Desinformante lembra tramas de filmes como A Firma e O Informante, mas isso é apenas o começo. O diretor Steven Soderbergh e o roteirista Scott Z. Burns, inspirado pelo livro de Kurt Eichenwald, estão  mais interessados no estudo do fascinante personagem que é Mark Whitacre, que se embola nas próprias histórias que ele mesmo acredita. Sua rede de mentiras vai longe demais e quando todo mundo descobre o tamanho do problema que se passa em sua cabeça oca, só resta ao grande mentiroso do filme aceitar que precisa de ajuda. No fundo, O Desinformante é sobre um homem muito doente. Parece triste, mas não é.

Steven Soderbergh quer fazer a plateia rir para não chorar e enche seu filme de narrações em off de Mark Whitacre, dialogando com seu próprio cérebro, que o alimenta de mentiras. Soderbergh reforça essa intenção estranhamente cômica com o uso de uma trilha sonora engraçadinha – um dos pontos antos do filme – que parece saída de uma sitcom dos primórdios da TV americana. Composta por Marvin Hamlisch, a trilha de O Desinformante é uma das melhores do ano. O que também tira a seriedade da trama é a ambientação exagerada de uma produção com cara de que foi feita na Hollywood dos anos 70 – preste atenção, principalmente, na abertura do filme.

Tudo o que foi dito no parágrafo acima funcionaria às mil maravilhas se Soderbergh tivesse uma assinatura. Perdido entre projetos experimentais, como Che, e superproduções, como Onze Homens e um Segredo, o diretor acha que pode pular de uma história para outra e de um gênero para outro somente para agradar ao próprio ego. Relapso, ele esquece que tem compromisso com a plateia que paga caro para ir ao cinema. Longe de ser um gênio, Soderbergh sabe filmar muito bem, mas precisa decidir o que quer da vida. Ou então, muita gente vai olhar para O Desinformante e achar que é um filme fraco dos Irmãos Coen. Por fora, o longa se aproxima do estilo dos talentosos cineastas de Fargo, Arizona Nunca Mais e Barton Fink, que sabem lidar perfeitamente com o drama e a comédia. Mas por dentro, O Desinformante não passa de uma produção sem identidade, feita por um diretor que brinca de fazer cinema somente para testar seus limites.

Ainda bem, pelo menos, que O Desinformante tem alma: Matt Damon. O ator, que mudou fisicamente para o papel, encontrou o tom certo do personagem e leva o filme nas costas com extrema facilidade numa atuação que anda na linha tênua entre o cômico e o trágico. É por causa dele que a crítica merece mais uma estrela.

O filme também vale pela grande quantidade de atores de TV dando as caras. Temos Scott Bakula, de Enterprise, Scott Adsit, de 30 Rock, Tony Hale, de Arrested Development, a já citada Melanie Lynskey, entre outros. E temos o prazer de rever o sumido Thomas F. Wilson, o vilão Biff Tannen, da trilogia De Volta Para o Futuro (quando Robert Zemeckis era bom).

O Desinformante (The Informant!, 2009)
Direção: Steven Soderbergh
Roteiro: Scott Z. Burns (Baseado no livro de Kurt Eichenwald)
Elenco: Matt Damon, Scott Bakula, Joel McHale, Melanie Lynskey, Tony Hale e Thomas F. Wilson

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