novembro 24th, 2009

Aconteceu em Woodstock

Woodstock

Woodstock é o festival mais famoso da História. Há 40 anos, uniu pessoas de todos os cantos com muita música e psicodelia em nome da liberdade em um mundo sem preconceitos. E qualquer diretor apaixonado por rock ficaria deslumbrado pelo tema. Cameron Crowe (Quase Famosos), por exemplo, faria um grande filme sobre Woodstock, mas regado à música e vários personagens dentro da multidão hippie. Longe da cultura americana, com seu olhar “estrangeiro”, o cineasta Ang Lee, em Aconteceu em Woodstock (Taking Woodstock, 2009), não quer saber do calor da festa. Ele olha para os bastidores e apenas um personagem: Elliot (o comediante Demetri Martin), a pessoa que fez o festival acontecer. E não por acaso, já que o filme é baseado em livro de sua autoria.

E há uma vantagem nisso. Às vezes é bom ter um cineasta estrangeiro avaliando o comportamento de  sociedades e culturas diferentes. Dou dois exemplos para defender o filme de Ang Lee, antes que alguém imagine Aconteceu em Woodstock no comando de um Cameron Crowe: O americano James Ivory filmou a decadência da aristocracia inglesa sem dó nem piedade em Retorno a Howards End e Vestígios do Dia. Já o inglês Sam Mendes dissecou a família ianque, sem dor no coração, em Beleza Americana.

De fora, Ang Lee esquece o lugar comum da música para falar de seu tema favorito (razão vs. sensibilidade). O que você vê ou deixa de ver em Aconteceu em Woodstock é culpa de Elliot, já que o espectador acompanha o filme de acordo com seu ponto de vista. Não é sobre música. É sobre Elliot descobrindo exatamente quem ele é. Pode ser decepcionante para aqueles que procuram um filme “sexo, drogas e rock n’ roll” (embora Ang Lee não tenha esquecido desses “personagens”). Mas, sabendo disso, o cinéfilo pode avaliar Aconteceu em Woodstock como um filme com a assinatura legítima do diretor de Razão e Sensibilidade e O Tigre e o Dragão.

Em 1969, Elliot era o responsável pela câmara de comércio da cidadezinha americana Bethel, próxima a Nova York. Sua principal preocupação era ajudar os pais (Henry Goodman e Imelda Staunton) a manter o hotel fazenda da família, que era uma espelunca das mais podres. A oportunidade perfeita para todos surgiu quando os organizadores de Woodstock visitaram a cidade e decidiram transformá-la no palco do que viria a ser o maior festival de rock do universo.

Ang Lee não deixa de seguir Elliot em meio aos bastidores, personagens bizarros, que incluem sua família, e no mar formado pela multidão durante o evento. E quando digo mar, falo sobre um oceano de hippies – repare na belíssima cena que transmite essa ideia, graças às lentes primorosas do diretor de fotografia Eric Gautier.

Lee pode até gostar de rock, mas o que fica evidente em Aconteceu em Woodstock é a paixão particular do cineasta de Brokeback Mountain por seus personagens travados, que lutam contra seus medos para encontrarem a si próprios. E Lee acerta ao apostar no “novato” Demetri Martin, que faz a transição do Elliot tenso e bobalhão do começo do filme até o Elliot livre, leve e solto da cena final.

Mas diferente de seus melhores trabalhos, Lee injeta um pouco de humor na saga de Elliot, que consequentemente, marca os detalhes da construção de Woodstock (atenção para os momentos hilários de Imelda Staunton, que está fantástica). É uma comédia dramática eficiente – algo que dá ainda mais curiosidade ao cinéfilo que conhece Ang Lee -, porém não é um grande filme do diretor.

Aconteceu em Woodstock tem cerca de duas horas de duração, mas poderia ter uns 20 minutos a menos. É só reparar no final arrastado, logo após o encerramento do festival, quando todos estão limpando a sujeira. Estranhamente, este epílogo é o que mais interessa ao cinema de Lee. É quando Elliot decide se “libertar”. Fica a sensação de que o diretor não soube equilibrar na sala de edição a expectativa da música, que jamais vem, com a necessidade de concluir a metamorfose de seu protagonista – por mais que ela tenha ligação com os significados que Woodstock deixou para a eternidade. São pequenos detalhes que ainda permitem ao documentário Woodstock, de Michael Wadleigh, ser a principal referência cinematográfica sobre o festival.

Aconteceu em Woodstock (Taking Woodstock, 2009)
Direção: Ang Lee
Roteiro: James Schamus (Baseado no livro de Elliot Tiber e Tom Monte)
Elenco: Demetri Martin, Henry Goodman, Imelda Staunton, Emile Hirsch, Eugene Levy, Jonathan Groff, Mamie Gummer e Jeffrey Dean Morgan

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