novembro 16th, 2009

Coco Antes de Chanel

Coco Tatou


Coco Antes de Chanel
(Coco Avant Chanel, 2009) tem cara de filme chato de James Ivory com todos os prós e contras de um filme chato de James Ivory. Com uma diferença:  A diretora Anne Fontaine, que assina o longa sobre o período anterior ao império da moda criado pela estilista francesa, não tem o talento do cineasta responsável por Retorno a Howards End e Vestígios do Dia para analisar o confronto de classes, a ruína da aristocracia e os conflitos de uma sociedade dominada por antigos valores tentando abraçar a modernidade.

E olha que Anne Fontaine tinha uma personagem nas mãos de encher a tela. Mas preferiu se concentrar numa história romântica e trágica, que justifica a transformação de uma mulher humilde em um ser de coração frio, totalmente voltado para um trabalho que revolucionou a moda e encorajou o sexo feminino a romper paradigmas em um mundo dominado por homens. Ironicamente, mulheres de todos os cantos foram inspiradas pelas criações das peças de uma artista, que teve o coração partido. No filme, o sucesso profissional de Coco Chanel teria sido sua  grande vingança contra os homens que tentaram convencê-la de algo em que ela não acreditava desde criança: que o amor existe e é possível.

A intenção da diretora é boa. O filme parece épico, grandioso, mas não é. Coco Antes de Chanel, como diz o título, não é tão concentrado assim na mulher comum antes do mito. O filme foi feito para ser uma bela, empolgante e, claro, triste história de amor. Mas é neste ponto que a diretora derrapa. E feio.

Por um motivo muito claro: O triângulo formado por Gabrielle (a Coco Antes de Chanel interpretada por Audrey Tautou), o milionário chato  – com jeito de Jar Jar Binks – Étienne Balsan (Benoît Poelvoorde) e seu amigo Arthur “Boy” Capel (Alessandro Nivola) é tão enfadonho, que chega a ser muito mais interessante acompanhar as investidas amorosas de José Mayer bancando o Richard Gere brasileiro na novela das oito.

Talvez se Anne Fontaine tivesse dado menos atenção aos romances de Gabrielle e se concentrasse mais nos detalhes que fizeram de Coco Chanel a mulher que todos conhecem… Talvez se a diretora se apoiasse numa linguagem mais cinematográfica, diferente da cara de adaptação arrastada de livro… Bom, como o “se” não joga, Coco Antes de Chanel é uma espécie de desastre romântico escrito por um Sidney Sheldon subdesenvolvido.

É mais ou menos como se O Aviador, de Martin Scorsese, falasse dos amores de Howard Hughes pelas grandes estrelas de Hollywood e deixasse de lado seus lampejos de gênio e, claro, sua loucura.

Resta ao filme de Anne Fontaine a bela direção de arte e os figurinos caprichados. Mas isso você já esperava de um filme sobre Coco Chanel. Resta também a boa atuação da sempre competente e graciosa Audrey Tautou, que se não é extraordinária, até que dá conta do recado – seria injustiça jogar o filme em suas costas.

Não posso me esquecer do principal ponto a favor que é a linda trilha composta por Alexandre Desplat. Mas qualidades técnicas não salvam um filme, certo? Ou então Transformers: A Vingança dos Derrotados teria sido um dos melhores filmes do ano.

Coco Antes de Chanel (Coco Avant Chanel, 2009)
Direção: Anne Fontaine
Roteiro: Anne Fontaine e Camille Fontaine (Baseado no livro L’Irrégulière ou Mon Tinéraire Chanel, de Edmonde Charles-Roux)
Elenco: Audrey Tautou, Benoît Poelvoorde, Alessandro Nivola, Marie Gillain, Emmanuelle Devos e Régis Royer

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