novembro 12th, 2009

Quando éramos jovens

Young Spielberg
Steven Spielberg fez seus melhores filmes quando o mundo inteiro aprendeu a dizer seu nome. É claro que A Lista de Schindler e O Resgate do Soldado Ryan estão entre seus maiores trabalhos, mas é inegável que o espírito indomável de um jovem cineasta, que ainda não estava nem aí para o que os outros pensavam – bom, mais ou menos, afinal ele queria ser notado – tinha a coragem de desafiar os conhecimentos de todos os apaixonados pela sétima arte.

De 1971 a 1982, Spielberg surgiu com Encurralado, Tubarão, Contatos Imediatos do Terceiro Grau, Os Caçadores da Arca Perdida e E.T. – O Extraterrestre. Ainda (muito) jovem, Spielberg arriscou e colocou suas câmeras em lugares inimagináveis para filmar uma das perseguições mais tensas do cinema em Encurralado. Em Tubarão, não se preocupou em rodar uma cena em que um menino é devorado pelo monstro dos mares. Hoje, por ser pai de família, ele diz que jamais encerraria Contatos Imediatos do Terceiro Grau com a famosa  “partida de Richard Dreyfuss”.

O que isso quer dizer? É a vida como ela é. Quando somos jovens, ainda não temos um aguçado senso de responsabilidade; embora relutantes, ainda temos muito o que descobrir e assimilar. Eu quero perguntar a você se os primeiros filmes dos grandes diretores são seus melhores trabalhos. Bom, em alguns casos, não tenho receio de afirmar.

Lembre-se de Francis Ford Coppola, que começou lá pelos anos 60, mas que só foi reconhecido por público e crítica na década de 70, quando fez O Poderoso Chefão I e II, além de Apocalipse Now. Gente, será que existe um filme de guerra tão diferente quanto Apocalipse Now hoje em dia? Veja a fase inicial de Martin Scorsese, que contou com Quem Bate à Minha Porta, Caminhos Perigosos, Taxi Driver, Alice Não Mora Mais Aqui, Touro Indomável (considerado por muitos o melhor filme dos anos 80) e Depois de Horas. Já François Truffaut, crítico da revista francesa Cahiers du Cinema, que virou diretor e iniciou (ao lado de outros ilustres colegas) a Nouvelle Vague, encantou o mundo com Os Incompreedidos e Jules e Jim, que marcaram o começo de sua carreira por trás das câmeras.

Nem sempre o diretor é jovem de corpo e alma, mas em certos casos, ele é jovem no ofício, como Sidney Lumet e Sam Peckinpah, que trocaram a TV pelo cinema.

Vamos baixar mais a bola e olhar para outros grandes cineastas, que embora não tão geniais, escreveram seus nomes na História com muita criatividade. Lembre-se do novato Ridley Scott, que fez Os Duelistas, Alien – O Oitavo Passageiro e Blade Runner de uma só vez.  É a mesma coisa com nomes como Brian De Palma. Sem falar naqueles que brilham de cara e, depois, apenas lucram com suas marcas sem fazer qualquer esforço. É o caso de Barry Levinson, que fez O Enigma da Pirâmide, Rain Man (pelo qual ganhou o Oscar), Bugsy, e mais o quê? Pois é. NADA! Bom, gosto de Mera Coincidência, que veio bem mais tarde. Mas só.

Pegue exemplos recentes como o de Sam Mendes, que veio do teatro para o cinema com Beleza Americana. Embora seja um dos melhores (novos) diretores da atualidade, ele jamais superou este filme que levou o Oscar de 1999. Será que o mesmo se aplica a Paul Thomas Anderson (Boogie Nights, Magnolia, Sangue Negro), Spike Jonze (Quero Ser John Malkovich, Adaptação), e David Fincher (Seven, Clube da Luta)? Sei que no caso de Fincher, muitos cinéfilos idolatram O Curioso Caso de Benjamin Button, mas eu acho que o resultado está muito abaixo de seus primeiros filmes, que custaram bem menos.

E quanto aos estreantes de sorte? Onde está Peter Cattaneo, que foi indicado ao Oscar de Melhor Diretor, por Ou Tudo ou Nada? E Chris Noonan, de Babe – O Porquinho Atrapalhado? E aqueles que se escondem por trás de seus imensos egos, como M. Night Shyamalan, que ganhou fama com O Sexto Sentido e Corpo Fechado?

É claro que ser novo na indústria e apresentar seus melhores trabalhos não é uma regra. Se olharmos para a primeira metade do século passado, temos gênios como Alfred Hitchcock, Billy Wilder, Stanley Kubrick, Michael Curtiz e John Ford, que filmaram muito mais que os nomes citados acima, já que Hollywood produzia muito mais – numa época em que os produtores eram mais fortes que os diretores.

Até dirigir No Tempo das Diligências, sua primeira obra-prima, John Ford rodou mais de 20 filmes. Acha muito? Então saiba que Michael Curtiz fez Casablanca quando já havia lançado mais de 100 filmes. Kubrick, por outro lado, fez pouquíssimos longas se comparado aos colegas de profissão registrados neste parágrafo. Mas quando fez 2001 – Uma Odisseia no Espaço, Kubrick já era diretor de cinema há mais de 10 anos.

Enfim, não é regra. Mas parece que dos anos 60, e principalmente 70, pra cá, os melhores filmes dos diretores são os primeiros de suas carreiras. Talvez a expressão não seja bem “melhor filme”. Talvez seja algo mais parecido com “filmes mais influentes” ou “filmes que mais contribuem para a evolução do cinema”. Será que tem a ver com juventude? Inexperiência? Será que um diretor com um considerável número de filmes no currículo pensa muito mais em agradar a indústria do que ao público? Eu acho que é como na vida de todos nós. Um dia, somos jovens, irresponsáveis, sempre aprendendo, mas achando que temos algo a ensinar com nossa rebeldia sem causa. Anos depois, somos adultos, homens de família, devendo e significando referências aos mais jovens. Naturalmente, a cabeça muda. E o ciclo vem se repetindo. Quem agradece é o cinéfilo.

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