dezembro 31st, 2009

Avatar

Avatar 1
Em 1977, o primeiro Star Wars mudou o modo de fazer cinema. Para o bem ou para o mal, a aventura estelar de George Lucas foi um marco de narrativa e, principalmente, tecnologia, merchandising e mitologia cinematográfica, fazendo a indústria passar por uma transição que abalou a visão de todos os envolvidos e apaixonados pela sétima arte do lado de lá e de cá da tela. Em 2009, Avatar (Avatar, 2009) é instituído como um marco semelhante.

A aventura estelar de James Cameron evolui a narrativa, mostrando que o 3-D é uma ferramenta para mudar a percepção e, consequentemente, a linguagem. Mais: O filme joga a tecnologia digital em outro patamar, ao criar uma câmera virtual, que reproduz personagens e o mundo fantástico imaginado pelo cineasta numa simples olhada na lente. Sem falar que Cameron ignora a onda das adaptações de quadrinhos, séries, desenhos, além de remakes e prequels, para apostar numa história original, que ninguém leu ou sabe como vai terminar. Produtos licenciados? Bom, isso não tem tanta importância para o público, mas certamente sustenta a indústria. E acho que ainda veremos muitos bonequinhos azuis nas prateleiras das lojas  de brinquedos pelos próximos anos.

Para começo de conversa, Avatar significa alívio e entusiasmo para aqueles que buscam (bom) escapismo numa sala de cinema. Bastou James Cameron fazer o filme mais rentável da História para que pudesse tocar o projeto que bem entendesse, sem o venenoso controle de Hollywood, que antes de ver Avatar nas telas, certamente gostaria de ter o cineasta rodando qualquer filme baseado em HQ, só para estampar no pôster a isca “do mesmo diretor de Titanic“.

Avatar 3
Para fazer justiça ao filme revolucionário de Cameron, eu teria de escrever sobre Avatar até amanhã, mas levantarei somente as questões que merecem ser percebidas e respeitadas por todos os cinéfilos. Além de  ser muito mais divertido que qualquer blockbuster lançado em 2009, Avatar é uma conquista cinematográfica em termos visuais. E não é nada gratuito neste quesito. Pelo contrário, tudo é muito orgânico no filme de Cameron, como se pudéssemos tocar qualquer coisa ou sentir o cheiro de tudo o que se passa na tela.

Aliado à imaginação de um novo mundo, novos personagens e novas realidades, Cameron sabe que não poderia fazer da mitologia de Avatar o seu playground pessoal,  como fizeram os irmãos Wachowski, em Matrix. O segredo é básico, remete aos primóridos da sétima arte: A história precisa ser compreendida por todos. Cada um pode ter sua própria visão, claro, mas a mensagem precisa ser assimilada pela plateia. Agora, pegue tudo isso e aceite o convite de Cameron para entrar completamente no filme com um 3D jamais oferecido pelo cinema. Sem exageros, é como se estivéssemos dentro da tela.

Nunca houve uma experiência 3D como Avatar. Para os leigos, basta prestar um pouquinho de atenção na profundidade alcançada pelas lentes de Cameron em cada frame. Lembra quando Orson Welles mostrou que era possível explorar um campo visual maior e com mais profundidade de foco, em Cidadão Kane? Pois é. Agora, temos isso com o 3D. Não se trata apenas de uma nova forma de pôr a trama em cena. Com esta tecnologia, preenchendo toda a tela, Cameron destaca a própria narrativa.

A compreensão das cenas acontece conforme o espectador trabalha sua percepção, sendo obrigado a interpretar, na imagem produzida na tela, a tradução dramática da cena. Cameron coloca o espectador em um novo lugar, convidando-o a participar do processo de criação de Avatar. E o diretor facilita tudo ao fazer o espectador viajar e compreender um mundo inteiramente novo pelos olhos de seu protagonista, o marine Jake Sully (Sam Worthington), incapacitado em uma cadeira de rodas, que se redescobre no corpo de seu avatar – não vou explicar mais nada da trama, afinal não quero atrapalhar a sua experiência.

Só vou dizer que Cameron obviamente se inspira nos livros de Tolkien (O Senhor dos Anéis, O Hobbit, etc) e em Star Wars, de George Lucas, que por sua vez seguiu os mandamentos do filósofo Joseph Campbell dentro do campo da mitologia apresentada ao espectador/leitor por um homem comum, que vê sua vida virada de cabeça pra baixo ao entrar em um novo mundo, dominado por uma gigantesca luta entre o bem e o mal, onde terá papel fundamental no desfecho da guerra.

Além disso, Cameron aposta em tramas consagradas, como Pequeno Grande Homem, Lawrence da Arábia e Dança com Lobos para garantir a emoção de qualquer um que tenha coração ou daqueles que são apaixonados pela história do cinema. É, Avatar prova que James Cameron não é somente um estudioso da tecnologia explorada e desenvolvida por Meliès, Kubrick, Lucas, Spielberg e Peter Jackson, que como todos esses mágicos, põe a mão na massa. Cameron é um amante da evolução dos filmes em todos as categorias – pegando os melhores roteiros originais já feitos e condensando-os na tela em nome de uma completa imersão 100% visceral e emocional.

Avatar 2

Além de se inspirar em tudo o que já foi feito de bom até aqui pelo cinema, Cameron enche seu filme de temas atuais. Um deles está no título.  Quem é que não passa horas na internet com novas identidades, compartilhando experiências em chats, fóruns? E quanto aos games? No filme, há uma constante sensação de conflito entre o “velho” e o “novo”, o “certo” e o “errado”.

Cameron não esquece das devastações da fauna e da flora no planeta, com suas discussões climáticas, que viraram o milênio como uma das maiores preocupações da humanidade. Em Avatar, também percebemos uma pá de cal no caixão da Era Bush, na auto-crítica americana à conquista pela força e violência, desde o massacre dos índios feito pelos exércitos ianques e os mocinhos cowboys.

De certa forma, Avatar é um western, com todas os seus significados reais, que muitos filmes esquecem, assim como os livros de História. Traduz os problemas e as manias do momento e mostra uma luz no fim do túnel, fazendo com que todos lembrem dos valores básicos da vida, que nos trouxeram até aqui.

Feito na hora certa, unindo o útil ao agradável, Avatar não deixa de ser também um triunfo de James Cameron como diretor contador de histórias, afinal nada funcionaria se a trama não emocionasse e capturasse a plateia por rápidas duas horas e quarenta e poucos minutos.

Avatar 4

No momento, Avatar é “apenas” um filme completo e perfeito em todos os sentidos. A equipe inteira de James Cameron está de parabéns. Mas, claro, posso estar delirando, já que o filme terminou e fiquei cinco minutos mudo, quase sem piscar. Não lembro mais quando me senti assim antes numa sala de cinema. Enfim, o tempo vai dizer se estou certo ou errado. Mas acho que testemunhamos um novo passo na história da sétima arte. Para o bem ou para o mal.

Os olhos que se abrem no início de Avatar representam a plateia acompanhando um momento de transição do cinema. Na cena final, quando os nossos “novos olhos” se abrem, todos nós, junto com James Cameron, começamos a imaginar o futuro. Por tudo isso, boa sorte com seu próximo projeto, Cameron. Você vai precisar.

Avatar (Avatar, 2009)
Direção: James Cameron
Roteiro: James Cameron
Elenco: Sam Worthington, Zoe Saldana, Stephen Lang, Sigourney Weaver, Michelle Rodriguez e Giovanni Ribisi

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